Maior exportadora do Brasil é acusada de comprar ouro de garimpo ilegal

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(Photo by Universal Images Group via Getty Images)
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  • BP Trading estaria comprando ouro de três DTVMs que não fazem checagem da origem de origem

  • Juntas, as empresas participam da diretoria da Associação Nacional do Ouro (Anoro)

  • Fundadores da empresa, ex-executivos do Banco Paulista foram investigados na Operação Lava-Jato

A BP Trading, empresa de exportação de ouro brasileiro que registrou faturamento de R$ 1,4 bilhão em 2019, afirma que "mantém rigorosos controles quanto à origem do mineral adquirido de seus fornecedores". Mas uma reportagem da Repórter Brasil mostrou que a verdade pode estar longe dessa declaração.

Após analisar os balanços financeiros da BP, a equipe descobriu que duas de suas principais clientes são acusadas pelo Ministério Público Federal (MPF) de comercializarem ouro ilegal extraído do Pará: a FD’Gold e a Carol DTVM.

Ambas são DTVM (Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários), ou seja, tem autorização para adquirir o metal. Em conjunto com a Ourominas, essas três são hoje as maiores compram cerca de 70% de todo ouro ilegal extraído no Brasil, aponta um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em colaboração com MPF.

A partir do resultado desses estudos, em agosto o MPF entrou com uma ação civil pública pedindo a suspensão da atividade dessas empresas, além do pagamento de R$ 10,6 bilhões por danos socioambientais.

Além da FD'Gold e da Carol DTVM, a BP Trading também tem como fornecedor a Coluna DTVM, que já esteve na mira da Polícia Federal (PF) pela compra ilegal de ouro oriundo de garimpos não autorizados.

A compra do ouro ilegal é feita por essa empresas da seguinte forma: o ouro é extraído por garimpos clandestinos ou em áreas de proteção e depois é vendido para as DTVMs com uma nota fiscal de origem falsa, onde consta um garimpo legalizado.

Essa falsificação é facilmente realizável porque, segundo a lei 12.844/2013, que regula a compra, venda e o transporte do produto no país, cabe ao vendedor agir de boa-fé e auto-declarar a origem daquele metal, isentando assim, os compradores de qualquer responsabilidade.

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Respondendo por cerca de 10% das vendas a clientes estrangeiros, a BP Trading não é a maior exportadora do Brasil. Quem lidera são grande mineradoras, como a Anglogold Ashanti e a Kinross, que operam em toda a cadeia de produção: da extração à exportação. Já a BP, atua somente na exportação, realizando a compra por intermédio das DTVMs, que por sua vez, compram de garimpos, ilegais ou não.

"Importante atentar para o quão concentradas estão as irregularidades. Elas estão na mão de poucos atores", afirma o pesquisador da UFMG Raoni Rajão, responsável pelo estudo sobre a ilegalidade do setor. "Estamos falando de três DTVMs (Ourominas, FD'Gold e Carol) que compram mais de 70% do metal potencialmente ilegal."

Essas três DVTMs e a BP Trading juntas fazem parte da diretoria da Anoro (Associação Nacional do Ouro). Segundo seu próprio site, a Anoro tem como objetivo "organizar, defender e representar os interesses do setor de ouro, através do estabelecimento de parceria e incentivos de órgãos governamentais, a fim de dirimir incertezas regulatórias no curso da cadeia produtiva do ouro."

Seu presidente, Dirceu Frederico Sobrinho – que começou sua trajetória no setor como garimpeiro e tem bom trânsito no primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro, é dono da FD'Gold. Sobrinho também é dono, junto desua filha, da Marsam Refinadora, que refina o metal para a BP Trading.

Procurada diversas vezes pela equipe da Repórter Brasil, a Anoro não se manifestou.

Uma fonte ânonima ligada ao setor explicou como funciona a compra e venda do metal. A demanda pelo ouro vem do exterior, com encomendas feitas por empresas internacionais às exportadoras. Por sua vez, essas repassam os pedidos as DTVMs, que compram dos garimpos. “Quem financia a cadeia [no Brasil] é a BP. Ela deposita o dinheiro adiantado nas contas das DTVMs que, por sua vez, têm 3 dias para quitar a operação”.

A BP foi fundada em 2015 por Álvaro Augusto Vidigal (cuja família criou o Banco Paulista e que possui longa trajetória no setor financeiro) e por Tarcísio Rodrigues Joaquim, então diretor de câmbio do banco. Sua relação com o Banco Paulista chama atenção. O banco, que foi alvo da operação Lava Jato em 2019, ajudou a BP a movimentar um valor de R$ 26 milhões em ouro naquele mesmo ano. Ainda em 2019, o banco foi denunciado pelo MPF por lavar recursos da Odebrecht movimentando R$ 48 milhões. Durante uma operação da PF, três diretores, incluindo Tarcisio Joaquim, foram presos, mas soltos um mês depois.

Em maio deste ano, tanto Tarcísio quanto Álvaro foram acusados pelo MPF pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa por conta de operações suspeitas no departamento de câmbio do Banco Paulista. As denúncias ainda não foram examinadas pela Justiça.

Devido a tudo isto, ambos deixaram a sociedade da BP Trading em 2019. Assumiram então Francisco Ferreira Júnior como presidente e Ernesto José dos Santos como diretor. Ernesto já foi investigado por lavagem de recursos quando era sócio da Zera Promotora, suspeita de também integrar o esquema com o Banco Paulista e a Odebrecht, mas nenhuma denúncia foi feita pela procuradoria paranaense.

O Banco Paulista sofreu um êxodo de funcionários após as acusações da Lava Jato, muitos migrando para a BP Trading. Como exemplo, Francisco Ferreira, atual presidente da BP, ocupava um cargo de administração no banco.

Tanto Álvaro Vidigal, quanto Francisco Ferreira foram sócios de Dirceu Sobrinho, presidente da Anoro, na refinadora Marsam Metais. A parceria que iniciou em 2020 foi desfeita em maio deste ano.

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