Maior fabricante de chips da China consegue avanços na produção, apesar das restrições dos EUA

A Semiconductor Manufacturing International Corporation (Smic) provavelmente avançou sua tecnologia de produção em duas gerações, desafiando sanções dos EUA destinadas a conter o avanço da maior produtora de chips da China.

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A empresa baseada em Xangai está enviando semicondutores usados na mineração de bitcoin usando a tecnologia de 7 nanômetros (nm), escreveu o site especializado na indústria de tecnologia TechInsights, na terça-feira. Isso representa um avanço considerável em relação à atual tecnologia de 14 nm da empresa — essa é uma medida da complexidade da fabricação, na qual larguras de transistores mais estreitas ajudam a produzir chips mais rápidos e eficientes. Desde o final de 2020, os EUA vetaram a venda não licenciada de equipamentos que pudessem ser usados pela empresa chinesa na fabricação de semicondutores de 10 nm ou menos, algo que enfureceu Pequim.

Uma pessoa a par deste desenvolvimento confirmou os relatos, pedindo para não ser identificada por não ter permissão para discutir o tema publicamente. Os papéis da Smic subiram 1,9% na Bolsa de Hong Kong, enquanto ações de empresas do setor, incluindo a Shanghai Fudan Microelectronics Group Co., Naura Technology Group Co., e a Advanced Micro-Fabrication Equipment Inc. avançaram mais de 5%.

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O progresso surpreendente da Smic levanta questões sobre a eficácia dos controles sobre exportações, e se Washington pode mesmo atrapalhar as ambições chinesas para montar uma indústria de chips de alta qualidade no país, reduzindo a dependência de tecnologias de outros países. A notícia também surge no momento em que congressistas americanos pedem para que a Casa Branca feche brechas nas limitações impostas à China, para garantir que o país não forneça tecnologia crucial à Rússia.

As restrições atrapalharam os negócios de smartphones da Huawei Technologies Co. ao impedir que tivesse acesso para competir em alto nível, mas a empresa agora está se preparando para desenvolver seus próprios processos de produção de chips.

Anteriormente, a Smic disse que tinha a capacidade de produzir usando a tecnologia de 14 nm, duas atrás da de 7 nm, e que está cerca de quatro anos atrás das tecnologias mais avançadas desenvolvidas pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. e pela Samsung Electronics Co. A empresa trabalhou com clientes com tecnologias mais avançadas do que a de 14 nm em 2020, como revelou em seus registros fiscais naquele ano.

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A chinesa MinerVa Semiconductor Corp., que aparece como uma das clientes da Smic na reportagem da TechInsights, apresenta um chip de 7 nm em seu site, e disse que a produção em massa começou em julho de 2021, sem especificar seus fornecedores. Dylan Patel, analista-chefe na SemiAnalysis, foi o primeiro a apontar esse fato no relatório. Os representantes da Smic e da MinerVa não responderam aos pedidos de comentário.

Os rótulos aplicados às gerações de tecnologia de produção de chips estão cada vez mais controversos, uma vez que não mais representam dimensões dos transistores microscópicos que dão aos chips suas funções eletrônicas. As empresas trocam acusações de desinformação relacionada a seus produtos, para que pareçam ser mais avançados do que realmente são.

E embora a capacidade para produzir um pequeno número de chips usando o próximo nível de tecnologia sinalize que a companhia está obtendo sucesso, o que determina a viabilidade econômica — em circunstâncias normais — são os resultados, ou o percentual de sucesso de cada ciclo de produção. A Intel Corp.,outrora líder no setor, ficou estagnada em um mesmo tipo de produto por cinco anos porque não conseguia montar uma quantidade viável de novos chips para que fossem introduzidos, de maneira lucrativa, na produção de larga escala.

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Mas a Smic não está operando em condições normais: é crítico para a China ter a capacidade para produzir chips internamente, no momento em que os EUA tentam conter seus avanços tecnológicos. Pequim pode estar disposta a subsidiar perdas de competidores domésticos, como a Smic, por medo de que suas companhias não tenham acesso a componentes cruciais.

O governo Trump colocou a Smic em uma lista de empresas restritas do Departamento de Defesa por questões ligadas à segurança nacional, questionando suas ligações com os militares chineses, algo que a companhia nega. Depois da decisão de Washington, empresas americanas não puderam mais fornecer aos chineses equipamentos necessários para produzir chips de 10 nm, ou mais avançados, sem que fossem emitidas licenças, e não se sabe se o Departamento de Comércio já emitiu alguma permissão do tipo.

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O senador Marco Rubio e o deputado Michael McCaul, ambos republicanos, vem exigindo que o departamento reforce as restrições de exportação relacionados à Smic para fortalecer a segurança dos EUA e garantir que a China não está transferindo tecnologia para a Rússia e ajudando Moscou a evadir as sanções.

— O governo Biden vai continuar trabalhando para aumentar e fortalecer nossa cooperação com aliados e parceiros para garantir a aplicação dos controles sobre a proteção de semicondutores, para que possamos permanecer algumas gerações à frente dos competidores na tecnologia de semicondutores avançados — declarou um porta-voz do Departamento de Comércio. O Conselho de Segurança Nacional não respondeu.

A Smic diz que as ações dos EUA atrapalham sua habilidade de desenvolver tecnologias sofisticadas. A capacidade da empresa foi severamente afetada pela falta de acesso aos sistemas de litografia ultravioleta extrema (EUV) da ASML, necessários para a fabricação de chips mais avançados como os que incluem geometrias de 5 nm e 3 nm. A empresa holandesa não enviou uma máquina de EUV sequer para a China por causa da pressão americana sobre o governo da Holanda.

O governo de Joe Biden chegou a considerar aliviar as restrições sobre a Smic, mas rejeitou qualquer opção adotada de forma unilateral, para dar mais tempo às conversas com outros parceiros comerciais. Essas conversas não deram resultados, e Washington pressiona a ASML para que suspenda as vendas até de produtos menos avançados para os chineses.

Em 2020, a Smic afirmou a analistas que muitos de seus equipamentos usados para fazer os chips de 14 nm podem servir para produzir chips mais avançados, e está trabalhando para desenvolver tecnologias mais sofisticadas para elevar sua rentabilidade.

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