Maior incêndio em 10 anos destrói quase metade do Parque do Juquery

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Um dos maiores incêndios da história do Parque Estadual do Juquery, na Grande São Paulo, destruiu 43% da unidade de conservação, último grande refúgio de Cerrado na região metropolitana. 

Impulsionado pelo calor de mais de 30ºC em pleno inverno, além da secura e ventos fortes, o fogo queimou 908 hectares em dois dias.

No domingo de manhã, quando iniciou o incêndio — segundo os bombeiros com a queda de um balão — a umidade relativa do ar era de menos de 20%. 

O nível similar ao de desertos é resultado da maior seca em mais de um século pela qual passa o centro-sul do país, e que vem reduzindo o volume dos reservatórios das hidrelétricas do país, além de ameaçar o colapso do abastecimento de luz no país até o fim do ano.

Área de 900 hectares foi consumida pelas chamas em menos de dois dias. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Área de 900 hectares foi consumida pelas chamas em menos de dois dias. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

“Aqui é um barril de pólvora, você vê que está tudo seco, tem muito combustível pra queimar, muito vento; qualquer coisa que você jogue nessa vegetação seca causa um incêndio”, explica o gestor do parque, Adriano de Almeida.

O gestor está há três anos na função, mas trabalha há mais de uma década na unidade: “As chamas se propagaram com uma rapidez gigantesca, nunca vi algo desse jeito… em meio período já tinha queimado uma área muito extensa aqui do parque”.

ESTRUTURA DE GUERRA PARA O MAIOR INCÊNDIO DA DÉCADA

Uma estrutura de guerra foi montada para tentar conter as chamas, contando com 15 caminhões pipa, aeronaves para lançamento de água captada no Sistema Cantareira, vizinho, e mais de 300 pessoas nos momentos mais críticos. 

“Ainda assim a gente não conseguiu conter infelizmente algumas linhas por causa das condições que desfavoreceram tudo no dia; A mobilização persistiu 24 horas… teve gente apagando fogo a noite inteira, durante o dia”, conta Almeida.

Uma estrutura de guerra foi montada para tentar conter as chamas, com 15 caminhões pipa, aeronaves e mais de 300 pessoas nos momentos mais críticos. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Uma estrutura de guerra foi montada para tentar conter as chamas, com 15 caminhões pipa, aeronaves e mais de 300 pessoas nos momentos mais críticos. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

A queima intensa da vegetação acabou afetando a qualidade do ar até em áreas afastadas de Franco da Rocha e Caieiras, municípios que dividem áreas do parque. 

Segundo a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), a estação Perus (zona norte) apresentou índice péssimo na segunda-feira, no auge dos incêndios, enquanto outras dez regiões do interior e litoral tiveram qualidade ruim do ar. 

Moradores de diferentes regiões da capital registraram a presença de cinzas e fuligem vindos do incêndio.

CERRADO: REFÚGIO DE BIOMA AMEAÇADO

Área de proteção desde 1993 e com traçado revisto em 2000, o parque do tamanho de 2.600 campos de futebol é uma espécie de ilha de Cerrado na região metropolitana de São Paulo, cercada por cidades e por outras vegetações, além de estar em uma área de mananciais do sistema Cantareira. 

Isso tanto aumenta a dificuldade de recuperação da flora quanto vira um empecilho para a fuga dos animais. A área protegida tem, por exemplo, vias de trânsito de veículos ao redor.

Nas áreas do parque já foram observados cachorros-do-mato, veados-campeiros e jaguatiricas, além de espécies de plantas como frutas-do-lobo, angicos, copaíbas e cambarás. Agora a preocupação é saber como é saber como as chamas vão afetar a fauna e a flora. 

A vegetação e os animais do cerrado costumam estar mais adaptados para sobreviverem a queimadas, mas essa regra é válida, principalmente, no caso de incêndios naturais —que, tudo indica, não é o que está acontecendo.

Principal suspeita é que as chamas começaram após a queda de um balão. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
Principal suspeita é que as chamas começaram após a queda de um balão. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)

“Os focos de incêndio naturais ocorrem no começo da estação chuvosa, por queda de raios, por exemplo; quando as chuvas funcionam como um limitador”, explica Mariana Napolitano, gerente de Ciências do WWF-Brasil.

"Desse modo, forma-se um mosaico de pequenas áreas queimadas, com baixa intensidade de fogo", observa. Já os incêndios de origem humana no auge do inverno, com a vegetação seca pelas geadas e falta de umidade, se espalham com rapidez e destroem mais e com maior frequência.

Bioma mais destruído do país - com 98 milhões de hectares desmatados, o Cerrado vem sofrendo uma onda recorde de incêndios neste ano em SP. Do início do ano até esta sexta-feira, foram mais de 3.580 focos de fogo registrados pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o maior número desde 2010 para o período.

A maior frequência de fogo na porção paulista preocupa ecólogos que o estudam, pois parte da flora e fauna do cerrado no estado não existe nas partes do bioma mais ao norte.

“O Cerrado dessa área do Sudeste é um centro de biodiversidade para a flora do bioma. Se perdermos o cerrado dessa região, não podemos substituir essa biodiversidade conservando cerrado em outras áreas do Brasil”, explica Mercedes Bustamante, ecóloga da UnB.

Enquanto gestores e profissionais do Parque Estadual do Juquery calculam o tamanho do estrago e esperam as chuvas, para sua recuperação, o brigadista florestal Washington Luiz da Rosa resume o sentimento dos que combateram por dias as chamas:

“Acabaram com o nosso parque, mas ele vai florir, o cerrado vai viver”.

O fogo foi impulsionado pelo calor de mais de 30ºC em pleno inverno, pela umidade do ar do abaixo dos 30% e pelos ventos acima de 30 km/h. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
O fogo foi impulsionado pelo calor de mais de 30ºC em pleno inverno, pela umidade do ar do abaixo dos 30% e pelos ventos acima de 30 km/h. (Foto: Gustavo Basso / Yahoo Notícias)
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