Maior parte dos ancestrais dos brasileiros não tem conexão histórica com floresta tropical

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SÃO CARLOS, SP (FOLHAPRESS) - Ao apontar a suposta origem dos brasileiros "na selva", o presidente argentino, Alberto Fernández, demonstrou múltiplos níveis de ignorância sobre a história das populações que formaram o Brasil.

O fato é que a maior parte dos ancestrais dos brasileiros de hoje não tem conexão histórica com a floresta tropical (imaginando que seja isso o que ele tenha querido dizer com "selva"). E os que têm essa origem na verdade "civilizaram" a mata de maneiras muito mais sofisticadas do que Fernández parece ser capaz de conceber.

Começando pelo que talvez seja óbvio, a contribuição de imigrantes europeus para a formação populacional do país foi muito significativa, ainda que não majoritária. Calcula-se que, entre 1500 e o século 20, algo entre 6 milhões e 7 milhões de nativos da Europa tenham se estabelecido no território brasileiro.

Em termos absolutos, o número é comparável aos cerca de 5 milhões de africanos escravizados que os navios europeus trouxeram para cá do século 16 até meados do século 19. É mais difícil ter uma ideia exata do total da população indígena no momento do primeiro contato com os portugueses, mas as estimativas mais recentes apontam para números entre 5 milhões e 10 milhões de habitantes nativos.

Por fim, a "conta" populacional brasileira inclui ainda contribuições menores, mas também significativas, de grupos como os imigrantes japoneses (cerca de 250 mil) e sírio-libaneses (cerca de 150 mil).

Apesar dos números mais ou menos semelhantes, não se deve imaginar que a miscigenação entre indígenas, europeus e africanos aconteceu sob bases iguais. Os membros de ambas as etnias não europeias sofreram mortalidade muito mais alta devido à brutalidade do sistema escravista a que foram submetidas e, particularmente no caso indígena, por conta das guerras de conquista e das doenças infecciosas do Velho Mundo, contra as quais não tinham defesas naturais.

O resultado foi uma mistura étnica assimétrica, na qual homens de origem europeia se uniram (com frequência, de maneira forçada) a mulheres africanas e indígenas -o inverso acontecia com muito menos probabilidade. Esse processo deixou marcas no DNA dos brasileiros de 2021.

Quando se rastreia a linhagem materna dos habitantes do país hoje, a contribuição de cada população é similar, enquanto, do lado paterno, o impacto europeu é desproporcionalmente maior. Entre 75% e 90% dos homens brasileiros de hoje carregam um cromossomo Y -a marca genética da masculinidade- oriundo da Europa.

A importância da contribuição populacional europeia, porém, está longe de ser o único argumento contra a origem "na selva". Do lado africano, é importante ressaltar que os principais grupos de escravizados trazidos para o Brasil, como os angolanos, congoleses e iorubás, vinham de sociedades que dominavam formas sofisticadas de agricultura, criação de animais e metalurgia (incluindo o uso rotineiro do ferro), com vida urbana, reinos e impérios.

Uma das principais sublevações de escravizados no Brasil colonial, a chamada revolta dos malês, realizada em Salvador em 1835, foi liderada por africanos de fé muçulmana e alfabetizados em árabe.

Quanto aos indígenas, as últimas décadas de pesquisa arqueológica têm demonstrado que diversas populações nativas, em especial na Amazônia, tinham populações densas, redes de comércio e construções monumentais -muralhas, fossos, grandes estradas e estruturas funerárias- que nada têm a ver com a ideia de grupos "selvagens".

A própria estrutura de espécies vegetais da mata parece ter sido influenciada pelos primeiros brasileiros com um manejo cuidadoso ao longo dos milênios, no qual a floresta foi se tornando "antropizada", abrigando cada vez mais espécies úteis para os seres humanos.

A porção sudoeste da região amazônica, além disso, é considerada um dos grandes centros de origens agrícolas da pré-história, onde foram domesticadas espécies hoje economicamente importantes no mundo todo, como o amendoim, o cacau e a mandioca.

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