Maior pesquisa sobre Covid-19 conclui que negros, asiáticos e latinos têm maior risco de contrair vírus do que brancos

Raphaela Ramos*
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RIO — Pessoas negras têm o dobro de probabilidade de contrair o coronavírus do que brancas. Indivíduos de origem asiática, hispânicos e latinos também têm mais chances de serem infectados. É o que mostra uma análise publicada na revista "EClinicalMedicine", do grupo "Lancet".

Pesquisadores das universidades de Leicester e Nottingham analisaram 50 estudos realizados nos EUA e Reino Unido publicados até o dia 31 de agosto, que relataram registros médicos de quase 19 milhões de pacientes com a Covid-19.

Essa é a primeira revisão abrangente de pesquisas publicadas e artigos preliminares que investigam a relação entre o SARS-CoV-2 e diferentes grupos étnicos. Foram examinados o risco de infecção, de admissão em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) e de morte pela doença.

Os grupos considerados foram: branco, asiático, negro, hispânico (incluindo hispânicos e latinos), nativo americano, misto e outros. Os dados sobre risco de infecção para as etnias mista e nativa americana foram limitados por um pequeno número de pacientes.

O estudo aponta que "os grupos étnicos minoritários continuam sub-representados em pesquisas, o que provavelmente é agravado pelas mesmas barreiras que contribuem para as disparidades no acesso aos cuidados de saúde".

A análise também sugere que pessoas de origem asiática têm maior probabilidade de serem admitidas em UTIs e podem ter um risco maior de morte pelo coronavírus do que pessoas brancas. No entanto, os autores alertam que havia uma quantidade relativamente pequena de estudos sobre internações, e nenhum foi revisado por pares.

"Compreender a relação entre etnia e Covid-19 é uma prioridade de pesquisa urgente, a fim de reduzir a carga desproporcional da doença em negros, asiáticos e outros grupos étnicos minoritários", diz o estudo.

Os autores apontam alguns aspectos que podem ter influenciado os resultados, como o fato de "indivíduos de minorias étnicas" terem maior probabilidade de viver em famílias maiores e de "ter um status socioeconômico mais baixo". Também sugerem que pessoas brancas podem ter maior probabilidade de acessar testes para o coronavírus.

Os pesquisadores destacam que todos os estudos analisados eram do Reino Unido e dos EUA, por isso indicam que a generalização das descobertas para outros países deve ser "cautelosa", pois o manejo dos pacientes, como os critérios para admissão na UTI, pode ser diferente.

"O racismo e a discriminação estrutural também podem contribuir para um risco aumentado de piores resultados clínicos em comunidades de minorias étnicas. Esses processos são complexos e sistêmicos, sustentados por relações de poder e crenças desiguais e operando em níveis individuais, comunitários e organizacionais, resultando na estigmatização, discriminação e marginalização das minorias étnicas", escrevem os autores.

"Em um contexto de saúde, isso contribui para iniquidades na prestação de cuidados, barreiras para o acesso a cuidados, perda de confiança e estressores psicossociais", completam.

* Estagiária sob orientação de Emiliano Urbim