Mais de 100 mil nicaraguenses pediram asilo em outros países em 2021, diz Acnur

A crise política que afeta a Nicarágua atinge também a população. Um relatório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), publicado em meados de junho, revela que os nicaraguenses fizeram o maior número de pedidos de asilo em 2021, só superados pelos afegãos após o retorno do Talibã ao poder, no ano passado.

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O relatório mostra que mais de 111 mil nicaraguenses solicitaram asilo no ano passado, um número cinco vezes superior ao registrado em 2020, e que, segundo a agência, está relacionado à deterioração política do país centro-americano, governado com mão de ferro pelo ex-guerrilheiro sandinista Daniel Ortega. A Costa Rica é o principal país anfitrião da diáspora "Nica" devido à sua proximidade, relação histórica e estabilidade política e econômica.

Em terceiro lugar nas estatísticas da ONU estão os sírios, com 110 mil pedidos.

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"O povo nicaraguense fugiu devido à escalada da crise sociopolítica e da perseguição política em seu país", diz a agência no relatório, que analisa as tendências globais de deslocamento forçado no ano passado.

De acordo com o Acnur, quase 84 milhões de pessoas foram forçadas a deixar seus países de origem em todo o mundo, "como resultado de perseguição, conflito, violência, violações de direitos humanos ou eventos que perturbaram seriamente a ordem pública".

O aumento da saída de nicaraguenses do país coincide com o crescimento da repressão desencadeada pelo regime de Ortega contra vozes críticas.

O ano passado foi especialmente difícil para os dissidentes, porque Ortega ordenou a prisão dos sete candidatos da oposição com maior chance de enfrentá-lo nas eleições — das quais ele foi proclamado vencedor, apesar de terem sido rejeitadas pela comunidade internacional —, além de aprisionar dezenas de críticos.

Entre os detidos estão ex-guerrilheiros sandinistas, antigos companheiros de Ortega na luta contra a ditadura da família Somoza, que governou a Nicarágua por 47 anos. Também prendeu analistas políticos, feministas, ativistas sociais e até empresários. A isso se deve a imposição de um Estado policial, o assédio a quem faz críticas, o cerco à imprensa independente e até a perseguição a grupos religiosos, como aconteceu há uma semana com a expulsão das Missionárias da Caridade, uma organização criada em 1988 após a visita de Madre Teresa de Calcutá à Nicarágua.

— O fato de os pedidos de asilo dos nicaraguenses em 2021 serem o segundo em número, atrás dos cidadãos do Afeganistão, um estado falido e onde houve uma fuga enorme de pessoas como resultado da retirada das tropas dos EUA, indica uma situação muito complicada na Nicarágua e tem uma correlação muito forte com a escalada repressiva que Ortega desencadeou antes das eleições — diz Tiziano Breda, analista para América Central do Crisis Group, organização centrada na resolução de conflitos. — Em 2021, houve uma deterioração muito evidente da situação na Nicarágua e, desde então, houve uma grande fuga do país, o que se traduz em um aumento de pedidos não só na Costa Rica, mas também no México, Estados Unidos e até Espanha.

O relatório do Acnur também revela que "grandes aumentos" nos pedidos de asilo foram registrados na Alemanha, México, República Democrática do Congo e Costa Rica no ano passado. Este último é destinatário da diáspora nicaraguense e, segundo o órgão da ONU, cerca de 102 mil se estabeleceram em seu território em 2021, o que representa um grande desafio para as autoridades do novo presidente Rodrigo Chaves. Os nicaraguenses, segundo o Acnur, "se sentem seguros" no país vizinho.

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