Mais de 30 blocos tomarão as ruas neste domingo, na tradicional abertura do carnaval não oficial; confira a lista

"Minha carne é de carnaval/O meu coração é igual". A turma que tem na canção dos Novos Baianos um verdadeiro lema se reencontra, finalmente, após dois anos de pandemia, neste domingo nas ruas do Rio. Mais de 30 blocos sairão pelo Centro e Zona Portuária na "Abertura do Carnaval Não Oficial", evento capitaneado pelo movimento Desliga dos Blocos e que tem como principal estrela o Cordão do Boi Tolo. A lista, com 34 grupos confirmados até a noite de ontem, incluiu velhos conhecidos e também novidades, como o Bloco do Zeca, que desfilará pela primeira vez, homenageando Zeca Pagodinho. A farra do fim de semana é uma espécie de pontapé inicial da festa e também servirá como prévia do carnaval propriamente dito. Se, em 2021, todo mundo se viu obrigado a ficar em casa por causa da Covid-19, em 2022, apenas os blocos que não fazem parte do calendário da Riotur tomaram a cidade. Oficialmente, a prefeitura vetou os cortejos no ano passado. Logo, 2023 marcará também a volta dos megablocos como o Cordão da Bola Preta e Suvaco do Cristo.

A saudade é grande, como contam os que já começam a preparar suas fantasias e adereços. Durante toda esta semana, circularam pelas redes listinhas com a programação deste domingo. A folia começa às 9h, com o Bloco do Zeca na Rua Sacadura Cabral, perto do MAR, e Mistério Há de Pintar, no MAM. E, certamente, terminará com o Boi Tolo, que não tem hora nem local para acabar já na segunda-feira. A concentração está marcada para as 16h de domingo entre a Rua do Mercado (conhecida também hoje em dia como Largo do Boi Tolo) e a Praça Quinze. Em caso de dúvidas sobre a localização desse gigante da folia momesca, é só lançar a pergunta clássica por aí: "Cadê o Boi Tolo?".

- O domingo vai começar cedo, com o seu epicentro na Praça XV e Largo do Boi Tolo (Rua do Mercado). Mas terá também eventos por todo o Centro da Cidade e alguns até em outros locais - afirma diz Luis Otavio Almeida, representante do Desliga, que espera uma explosão de alegria há tempos não vista no Rio . - Com o arrefecimento da pandemia, imaginamos que este ano teremos um carnaval mais parecido com o que estamos acostumados. E esperamos que a prefeitura entenda que existe um carnaval livre, que ela não controla, e que respeite as tradições da cidade.

O Boi Tolo seguirá a tradição de sair sem percurso pré-definido, mas, em prol da proteção do seu público, vai priorizar trajetos que passem por estações do metrô. A preocupação dos organizadores não é com a segurança dentro do bloco, mas na saída, quando foliões, ao irem embora, se afastam da multidão.

Como carnaval de rua no Rio é sempre sinônimo de resistência, no domingo o Desliga levará para as ruas faixas tratando do esvaziamento do Centro e alertando sobre a necessidade de políticas públicas para a sua ocupação e valorização. Uma carta coletiva dos Blocos LIvres será divulgada entre foliões e folionas:

- O Centro do Rio precisa de moradias de todas as classes, usando e preservando o casario histórico. Também são necessários a recuperação de praças e monumentos e o incentivo ao turismo histórico, cultural e artístico. Nesses quesitos, o Centro possui o maior acervo de todo o Brasil, mas o turista é chamado quase que exclusivamente para ver as praias e mirantes do Rio - afirma Luis Otavio, autor do manifesto, que também protestará contra o destombamento, pela Alerj, do Buraco do Lume.

Diz o final do documento: "Causa-nos estranheza que a Assembleia Legislativa tenha destombado o Buraco do Lume para favorecer a construção de um prédio, quando os existentes estão cada vez mais vazios. Precisamos que o Centro retome a vida e sem nenhuma praça a menos. Queríamos falar só de carnaval, mas nenhum show pode acontecer quando o palco está abandonado. Confiamos que esse nosso clamor ressoe na sociedade civil e no poder público e que já vejamos esforços a partir deste ano".

Entre os grupos que devem arrastar uma multidão colorida no domingo estão Bloconcé; Calcinhas Bélicas; Mulheres Rodadas; Pyranhas do Nilo; Bésame Mucho; Caramuela; Vem Cá, Minha Flor; Filhotes Famintos; Lambabloco; e Butano na Bureta.

O Bloco do Zeca tocará pela primeira vez para o público só com repertório de Zeca Pagodinho. Sucessos como “Quem é ela”; “Deixa a mida me levar”; “Coração em desalinho” e “Verdade” animarão a apresentação. O bloco é uma invenção do relações públicas Pedro Motta, que teve a ideia em 2020, durante, como ele define, um dos períodos mais críticos e tristes da pandemia.

-Pensei em como poderia resgatar a alegria quando tudo aquilo acabasse - conta Pedro, adiantando que depois o bloco sai no dia 4 de fevereiro, dia do aniversário do sambista. - Na minha casa, a gente sempre escutou muito o Zeca. Minha mãe é uma grande fã. As letras dele são uma explosão de alegria. Então, pensei: “precisamos levar isso para a rua”. Fiz contato com amigos musicistas para execução do projeto, mas com os altos e baixos da pandemia, não conseguíamos nos reunir para ensaiar. Em 2022, finalmente, com todos vacinados e casos da Covid em baixa, decidimos colocar o bloco na rua. Atualmente, somos cerca de 40 integrantes, entre musicistas e pernaltas. O grande objetivo do bloco é promover a alegria e provocar sorrisos.

Já o bloco Percussaça, que nasceu do tradicional Fala Meu Louro (que completa 85 anos no dia 20 deste mês), sai no domingo no seu segundo ano: a estreia foi no "não carnaval" de 2022.

- Hoje, o grupo, que tem uma pegada de carnaval antigo, com sambas e marchinhas, tem em torno de 30 pessoas. E está todo mundo louco pela volta do carnaval e para colocar o bloco na rua de verdade - afirma Gabriela Gimenez, que ainda tocará seus instrumentos de percussão em outros dois blocos no domingo: o Amores Líquidos e Bloconcé.

A maratona promete. Saxofonista e arranjador da Orquestra Voadora, André Ramos revela que vai descobrir só no domingo os blocos em que tocará na abertura não oficial. Já a Orquestra, além de manter uma oficina, tem feito ensaios abertos, mas sem muita divulgação, e terá uma agenda de shows antes do carnaval. Amanhã tocará dentro da programação do festival Universo Spanta, na Marina da Glória. O desfile mesmo será na terça de carnaval no Aterro do Flamengo.

- Ano passado, a Orquestra Voadora não fez nada, não tocou. Foi uma opção bem difícil. Então, está agora todo mundo deslumbrado. Estamos começando o ano cheios de esperança e com vo0ntade de colocar para fora o grito que estava sufocado. No ano passado, foram dois carnavais, mas que saíram mais os blocos pequenos. Blocos que são parte da tradição não puderam ir às ruas. Então, não foi um carnaval completo - comenta o músico, que aposta numa bandeira da folia de rua para este ano. - Será o carnaval do amor!

Praça Quinze:

Rua do Mercado: