Mais de 6.400 civis foram mortos por militares na Colômbia de 2002 a 2008

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Nesta foto de 16 de outubro de 2019, uma mulher coloca uma foto de seu parente desaparecido junto com outras de outros desaparecidos em uma operação militar, durante um memorial em Medellín, Antioquia, Colômbia

Pelo menos 6.400 civis foram executados por militares na Colômbia e apresentados como mortos em combate, revelou nesta quinta-feira (18) o tribunal que investiga os crimes mais atrozes do conflito interno.

O número quase triplica a quantidade de vítimas conhecidas até agora e dá uma nova dimensão a este "fenômeno macrocriminoso", como foi denominado pela Jurisdição Especial para a Paz (JEP) em seu relatório.

O tribunal investigou o escândalo que envolve forças do Estado e descobriu que "pelo menos 6.402 colombianas e colombianos foram vítimas de mortes ilegitimamente apresentadas como baixas em combate entre 2002 e 2008", durante o governo de Álvaro Uribe (2002-10)

Conhecida no jargão militar como "falsos positivos", essa prática revelou o mais grave escândalo envolvendo as forças oficias em quase seis décadas de conflito com as guerrilhas.

Embora o alto comando militar sempre tenha negado que fosse uma ação sistemática, soldados e oficiais confessaram perante o tribunal de paz sua participação nos crimes.

A partir de suas confissões, os militares orquestraram uma espécie de 'body count', premiada contagem de corpos para mostrar os resultados da guerra interna.

Até o ano passado, o Ministério Público havia reconhecido apenas 2.249 execuções de civis realizadas nesta modalidade entre 1988 e 2014 e investigava 29 generais.

Para Jorge Cuervo, professor de políticas de direitos humanos da Universidade Externado, o relatório da JEP “vai nos aproximar muito (...) da realidade do que aconteceu no conflito armado colombiano”.

A investigação expediente por expediente foi "insuficiente para dar conta" da abrangência destes crimes, acrescentou o especialista, ao avaliar a decisão do juiz de paz de agrupar as denúncias em 'macrocasos' como também fez com o sequestros da guerrilha.

Sobre este tema, o JEP concluiu em janeiro que 21.000 pessoas foram feitas reféns e acusou oito comandantes do extinto grupo insurgente.

- Confissões -

O general Mario Montoya, comandante do exército na época, é o militar de mais alta patente que responde aos magistrados.

Apesar dos depoimentos que o incriminam, o policial aposentado nega que tenha instigado crimes contra civis.

“São 2.140 militares vinculados às investigações de execuções extrajudiciais, o que equivale a 0,9% do total de homens que operaram no exército no período mencionado, (...) o que mostra que em nenhum momento houve uma orientação ao exército para atos tão atrozes", disse seu advogado Andrés Garzón em uma entrevista à AFP em 2020.

A JEP trata das mais graves violações dos direitos humanos cometidas por guerrilheiros e soldados durante o seu confronto.

Quem confessar sua responsabilidade e reparar as vítimas pode receber uma pena alternativa, mas se não o fizer estará sujeito a penas de até 20 anos.

O tribunal de paz ainda não emitiu sua primeira condenação desde que entrou em operação em 2018.

Blanca Monroy, mãe de um dos jovens mortos pelos militares em 2008, aplaudiu o andamento das investigações.

Até agora "pensávamos apenas" que as execuções "eram de 2006 para cá", mas "vê-se que em todos os territórios" houve "muitos falsos positivos", disse à AFP, acrescentando: “Nos entristece saber que o exército, que tem que cuidar da gente (...), deixou tantas mães chorando, tantos órfãos, tantas irmãs tristes”.

- "Ultraje" -

O ex-presidente Uribe, que rejeita a jurisdição do JEP como concessão aos guerrilheiros que lutaram ferozmente, considerou que o tribunal está cometendo um "ultraje" na tentativa de "desacreditar" de seu governo.

Em declaração pública, ele negou ter instigado as tropas a "infringir a lei" quando exigiu "eficiência".

De acordo com a JEP, a maioria dos crimes ocorreu no departamento de Antioquia (noroeste). "A IV Brigada, com jurisdição na área, pode ser responsável por 73% das mortes identificadas no departamento entre 2000 e 2013", disse a JEP.

Alguns dos restos mortais das vítimas foram localizados graças aos depoimentos de integrantes da força pública que, em sua maioria, “não foram investigados pela justiça ordinária”, segundo a JEP.

Além de Antioquia, as regiões da Costa do Caribe, Norte de Santander (nordeste), Huila (centro), Casanare (leste) e Meta (sul), foram priorizadas na investigação.

Para a advogada de dois militares que confessam na JEP, Tania Parra, a reportagem desta quinta-feira revela também que houve “cumplicidade” das autoridades para “ocultar” estes fatos.

Sempre foi aberta uma investigação para "os mortos", mas "ou não há resultados ou (...) absolvem" os responsáveis, disse à AFP.

Vinte dos pelo menos 219 soldados sob jurisdição especial estão protegidos contra as ameaças que receberam por suas declarações.

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