Cerca de 100 mortos em dois naufrágios na Líbia

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Migrantes sobreviventes de um naufrágio no Mediterrâneo sentados em uma praia de Khoms, cidade da Líbia, em 12 de novembro de 2020
Migrantes sobreviventes de um naufrágio no Mediterrâneo sentados em uma praia de Khoms, cidade da Líbia, em 12 de novembro de 2020

Um naufrágio na costa da Líbia deixou 20 mortos, poucas horas depois de um acidente similar que matou 74 pessoas, um novo drama da imigração na Líbia, país do norte da África que enfrenta uma grave crise desde 2011.

As equipes da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) na cidade de Sorman (nordeste) "auxiliaram três mulheres, únicas sobreviventes de um naufrágio em que 20 pessoas se afogaram", afirmou a organização em sua conta no Twitter.

"Socorridas por pescadores locais, elas se encontravam em estado de choque e apavoradas. Elas viram seus entes queridos desaparecerem sob as ondas, morrerem diante de seus olhos", completou a MSF.

Pouco antes, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) anunciou que outro naufrágio matou pelo menos 74 pessoas na altura de Khoms, cidade líbia que fica a 180 quilômetros de Sorman.

A Guarda Costeira líbia e os pescadores conseguiram resgatar 47 sobreviventes, que tentaram a perigosa travessia do Mediterrâneo para chegar às costas italianas e ao continente europeu.

"Entre os sobreviventes estão sete mulheres", disse à AFP nesta sexta-feira Mokhtar Salem Mohamed, funcionário do Ministério de Interiores da Líbia encarregado dos assuntos de migração, questionado em um centro de imigrantes em Khoms.

As vítimas foram transportadas para esse centro, na espera de "finalizar os procedimentos para o enterro", segundo a autoridade.

- "Violações dos DH" -

Na quinta-feira, os cadáveres recuperados ou arrastados pela água até a margem estavam alinhados na costa. Alguns ainda estavam com colete salva-vidas. Imagens que provocaram comoção e indignação.

Os sobreviventes, exaustos, receberam cobertores e não escondiam a preocupação, enquanto os trabalhadores humanitários distribuíam água e pacotes de alimentos.

Um migrante de aparência frágil mostrava seu cartão de refugiado para a câmera. Com o olhar distante, o queixo apoiado na mão, seu companheiro de viagem estava enrolado em um cobertor cinza com o logotipo de uma associação humanitária.

"Nosso barco, que transportava 120 pessoas, partiu de um local perto de Trípoli há dois dias", relatou à AFP um sobrevivente, Koni Hassan, que chegou de Gana, no centro de Khoms nesta sexta-feira.

Porém, "o motor quebrou e (o navio) foi danificado. Houve muitas mortes", acrescentou.

Desde o início do ano, mais de 11.000 pessoas foram enviadas de volta à Líbia, país da África rico em recursos de petróleo, mas vítima de conflitos, "ante o risco de expô-los a violações dos direitos humanos, detenções, abusos, ao tráfico (de pessoas) e à exploração", denunciou a OIM.

A Líbia afundou no caos desde a queda do regime de Muammar Khadafi em 2011 e está dividida entre duas autoridades rivais: o Governo de União Nacional (GNA), com sede em Trípoli e reconhecido pela ONU, e um poder encarnado pelo militar Khalifa Haftar na região leste.

Apesar de uma persistente insegurança desde 2011, o país do norte da África continua sendo uma importante rota migratória para milhares de pessoas, que fogem da pobreza e da corrupção em seus países para tentar chegar à Europa, uma viagem longa e difícil.

Após os naufrágios de quinta-feira, a OIM pediu o retorno das operações de resgate no mar e o fim da detenção dos refugiados e migrantes na Líbia".

Em um momento de tentativas de mediações para tirar o país de sete milhões de habitantes de um bloqueio, a pacificação é essencial para prevenir os dramas migratórios.

"É outra tragédia horrível com migrantes, outra recordação da necessidade de solucionar o conflito agora, para concentrar-se na prevenção de tragédias como esta", afirmou a embaixada dos Estados Unidos na Líbia.

"Devemos trabalhar juntos para impedir que estes eventos horríveis se repitam. Nosso pensamento está com as vítimas e suas famílias", comentou o embaixador europeu para a Líbia, José Sabadell.

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