Mais da metade dos acidentes de trânsito no estado do Rio é com motocicletas

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O relógio ainda não marcava meio-dia ontem, quando o neurocirurgião Ivan Santana recebeu o primeiro paciente grave do plantão, na emergência do Hospital municipal Miguel Couto. Era um motociclista que teve lesões severas no cérebro após colidir com a traseira de um ônibus, na Barra da Tijuca. A vítima foi levada inicialmente ao Hospital municipal Lourenço Jorge, depois transferida às pressas para a unidade da Gávea, onde chegou em morte encefálica. Dados do recém-publicado Anuário 2020 do Corpo de Bombeiros evidenciam: fatalidades assim, envolvendo motos, explodiram durante a pandemia no Estado do Rio.

Ano passado, segundo o levantamento, elas estavam em 56% dos acidentes de trânsito em território fluminense. No entanto, embora cada dia mais presentes nas ruas — seja nas corridas do delivery ou como um transporte rápido em favelas e zonas rurais —, ainda representam apenas 16,6% da frota de veículos do estado.

Numa rota perigosa, só no dia chuvoso de ontem, o Corpo de Bombeiros foi acionado para ao menos nove colisões envolvendo motocicletas na capital. No Miguel Couto, diz o médico Ivan Santana, casos assim se tornam mais rotineiros.

— O trauma dos motociclistas geralmente é mais severo no crânio e na coluna cervical. Mas o tórax, a bacia e outros ossos do corpo também são atingidos com certa frequência. O uso do capacete protege, mas há casos em que o equipamento racha, e as consequências para o encéfalo são desastrosas — explica o neurocirurgião, que atua desde 1994 na unidade municipal.

No anuário dos Bombeiros, enquanto outros indicadores registraram queda na pandemia, como salvamentos (-18%) e incêndios (-15%), os acidentes com transportes terrestres aumentaram 14% em 2020 com relação ao ano anterior. Com as ruas esvaziadas de carros de passeio, em decorrência das medidas de isolamento social, a alta foi puxada pelas motos. Foram 27.681 acidentes com motociclistas no ano, uma média de 76 por dia (ou três colisões a cada hora), o que representa um aumento de 26% em relação a 2019.

A corporação indica dois fatores que podem ter contribuído para o aumento da participação das motos nos acidentes: a redução da circulação de veículos de passeio, o que deixou as pistas livres para a aceleração de motociclistas imprudentes; e o aumento da demanda por profissionais de entrega motorizada durante a pandemia. Aplicativos de entrega chegaram a registrar 300% de crescimento no número de pedidos de cadastros de entregadores.

Entre os motoboys, o aumento também foi sentido. Daniel Gregório, de 37 anos, que trabalha há 17 anos com as entregas em domicílio, diz que a crise gerada pelo coronavírus em alguns setores da economia levou para as entregas sobre duas rodas profissionais de outras áreas, que não estavam acostumados a pilotar motos.

— Muitas pessoas migraram para a moto sem experiência anterior alguma. Não é só saber pilotar. Muitas vezes, é preciso olhar o aplicativo, procurar o endereço certo e pilotar ao mesmo tempo — conta ele, que diz já ter se envolvido em 11 acidentes com a moto, que lhe renderam mais de 300 pontos no corpo.

Uma das pessoas que viram nas motos a oportunidade de tocar a vida na pandemia foi a técnica de som Joyce Santiago, de 32 anos. Acostumada a trabalhar com teatro, ela viu sua fonte de renda secar e decidiu montar com a companheira uma empresa de delivery, a Motojoy, em funcionamento há mais de um ano. Embora nunca tenha se acidentado, Joyce diz que já levou sustos.

— Na moto, você não tem para-choque para te proteger. Tenho visto muitos motoristas de carro distraídos no celular e que, às vezes, sem perceber, fazem movimentos que são um risco para os motociclistas — conta ela.

Apesar de não trabalhar com empresas de aplicativo, Joyce acredita que as condições oferecidas aos entregadores faz com que eles se arrisquem na pista para conseguir fazer a maior quantidade de entregas.

— Existe uma pressão implícita, que é o retorno financeiro. Como as taxas são pequenas, os entregadores precisam concluir o serviço rapidamente para poder pegar outro pedido. Isso é o que gera a pressa nos entregadores, e, em alguns casos, a pressa pode gerar acidentes — diz.

Engenheira de transportes da Escola Politécnica/UFRJ, Eva Vider avalia que a alta nos acidentes com motociclistas é consequência do aumento do número de motos na rua, mas também fruto da falta de formação dos motociclistas.

— É um processo de formação falho, que não prepara o condutor para pilotar com segurança, tampouco estimula o respeito dos demais condutores de veículos para com as motocicletas. O desrespeito às leis de trânsito, a falta de fiscalização e a impunidade generalizada nas questões das multas são fatores que influenciam o aumento dos acidentes — diz ela. — A implantação de uma política de educação no trânsito permanente é o caminho para a mitigação dessa terrível doença.

Falta de fiscalização

A necessidade de maior rigor na fiscalização também é apontada por Armando Souza, presidente da Comissão Nacional de Transportes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB):

— Os motociclistas de aplicativos muitas vezes transitam com excesso de velocidade ou sem os acessórios de segurança obrigatórios. Se houvesse, por parte das autoridades, mais vontade e mais condições de fiscalizar, evidentemente os acidentes seriam reduzidos. Sem essa vontade, a lei existe, mas não produz os efeitos que poderia.

Os números mostram o tamanho dessa falta de controle. Embora tenham se envolvido em mais da metade dos acidentes no ano passado, e corriqueiramente sejam vistos em toda sorte de bandalha, os motociclistas só responderam por 9% das multas no Rio. Em 2021, porém, há um indicativo que, por um lado, pode demonstrar aperto na fiscalização, ou então mais imprudências nas ruas. As infrações registradas nos primeiros cinco meses deste ano, em comparação com o mesmo período nos anos anteriores, mostra uma ligeira mudança. A média por mês já é quase o dobro do que em 2020 e 2019.

Nesse quadro, números do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio, referentes aos seis primeiros meses deste ano, mostram um cenário preocupante quanto à letalidade dos acidentes de trânsito no estado. Foram 834 mortes no trânsito no primeiros semestre de 2020, contra 935 de janeiro a junho deste ano, um aumento de 12%. O ISP não detalha o tipo de veículo envolvido nos acidentes.

Já o anuário do Corpo de Bombeiros apontou também um aumento de 14% nos acidentes envolvendo outro meio de transporte mais comum nas ruas durante a pandemia, as bicicletas. O número subiu de 3.385 acidentes, em 2019, para 3.862, em 2020. Apesar de chamar atenção, a quantidade de acidentes envolvendo ciclistas pode estar subnotificada, segundo o presidente da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio, Raphael Pazos, que pede uma padronização dos dados de órgãos socorristas como Bombeiros, Samu e Polícia Militar.

— Como promover políticas públicas se não existem dados estatísticos que comprovem onde há o maior número de acidentes? Quem acaba sabendo dos riscos e divulgando isso somos nós, os próprios ciclistas — diz.

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