Mais de um terço dos pacientes que deixam UTIs tem transtornos mentais, diz estudo

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12.Mar.2021 - Intensive health professionals take care of patient in the covid-19 ICU of the Itapecerica da Serra General Hospital . Since the beggining of March, the hospital runs with 100% occupance during SP's (and Brazil's) worst phase of the pandemic. Everyday 3.300 people are admitted in SP state hospitals, that registers 29,962 inpatients this Easter Sunday (4) (Photo by Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
A pesquisa, publicada no Chest Journal, umas das principais publicações norte-americana na área de cuidados intensivos, analisou a quantidade de vida e a saúde mental de 579 pacientes egressos de UTIs (Foto: Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
  • Mais de um terço dos pacientes que deixam UTIs tem transtornos mentais, diz estudo

  • De acordo com o estudo, cerca de um quarto deles, ou 24%, apresentou sintomas de ansiedade, 20% de depressão e 15% de estresse pós-traumático

  • A pesquisa foi feita antes da pandemia da Covid-19 — em tese, os resultados poderiam ser piores com a chegada do coronavírus

Um estudo feito pelo Hospital Moinhos de Vento (RS), e pelo Ministério da Saúde, mostrou que mais de um terço dos pacientes, ou 36%, que saem de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil apresentam algum comprometimento da saúde mental seis meses após a alta.

A pesquisa, publicada no Chest Journal, umas das principais publicações norte-americana na área de cuidados intensivos, analisou a quantidade de vida e a saúde mental de 579 pacientes egressos de UTIs. 

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Por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS (Proadi-SUS), foram analisados pacientes de 10 hospitais públicos e filantrópicos do Brasil, seis meses após a alta.

De acordo com o estudo, cerca de um quarto deles, ou 24%, apresentou sintomas de ansiedade, 20% de depressão e 15% de estresse pós-traumático. 

A pesquisa foi feita antes da pandemia da Covid-19 — em tese, os resultados poderiam ser piores com a chegada do coronavírus. 

Impacto emocional após a alta

Segundo os cientistas, os resultados demonstram que o impacto emocional das internações nas unidades de terapia intensiva ainda é subdiagnosticado, precisando entrar na pauta de gestores e profissionais de saúde. 

“A UTI é o setor mais caro do hospital, onde se investe mais em recursos humanos e tecnológicos na assistência, mas não se tinha dados da qualidade de vida desses pacientes após a alta”, diz o médico intensivista Regis Goulart Rosa, coordenador do estudo.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, se trata do maior estudo multicêntrico com maior número de pacientes já feito no país para avaliar saúde mental de egressos de UTI. Cerca de 70% dos pacientes avaliados apresentavam mais de um distúrbio.

“Tinham sintomas de depressão e de estresse pós-traumático, ou sintomas de ansiedade e depressão. E quanto mais síndromes psiquiátricas apresentam, pior é a qualidade de vida.”

Quadros de transtornos psiquiátricos antes à hospitalização estão ligados a um maior risco de adoecimento mental no pós alta da UTI.

“Indivíduos jovens ou que tinham histórico prévio de algum transtorno, como depressão, tiveram risco maior de acometimento da saúde mental no pós UTI.” A pesquisa ainda concluiu que o estresse gerado pela internação é outro fato importante. 

“Para muitas pessoas, estar na UTI significa proximidade com a morte, incerteza da ocorrência de sequelas, fragilidade física, ficar distante dos familiares, sem apoio emocional adequado.”

Portrait of doctor Bruna Lordao: "I am very close to burn out by this pandemic; for those who believe in God, it's a great time to start praying", she says. Unconscious and intubated Covid-19 patients are treated in Vila Penteado Hospital's ICU, in the Brasilandia neighborhood of Sao Paulo, on June 21, 2020. According ta a study published in June 21st, Brazil's public hospitals, like Vila Penteado, had almost 40% death rates from the new coronavirus, the double from private hospitals. Brasilandia is one of the neighborhhods in Sao Paulo with highest number of deaths from Covid-19 (Photo by Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)
Para o médico Goulart Rosa, é muito importante desenvolver ferramentas para rastrear, reconhecer, prevenir e reabilitar precocemente problemas de saúde mental (Foto: Gustavo Basso/NurPhoto via Getty Images)

Momento de muita angústia no pós-alta

A pesquisa apontou que, para os pacientes que aparesentam alguma redução da capadidade física em relação a que tinha antes de ser intenado, o pós-alta é "outro momento de angústia".

“O prejuízo da imagem corporal pesa muito. Às vezes o paciente sai com edemas, inchaço, fraqueza muscular, disfunção sexual, dificuldade de concentração e cognição”, diz.

Estresse financeiro impacta a saúde emocional

O estresse financeiro também causa grande impacto à saúde emocional. De acordo com a pesquisa, um terço desses pacientes ainda não tinha retornado às atividades profissionais três meses após a internação na UTI.

“As pessoas perdem renda e o gasto com saúde aumenta porque elas apresentam novas comorbidades, precisam gastar com medicamentos, consultas, reabilitação. Não afeta só o paciente, mas todo o seu entorno.”

Desenvolver ferramentas para identificar os problemas

Para o médico Goulart Rosa, é muito importante desenvolver ferramentas para rastrear, reconhecer, prevenir e reabilitar precocemente problemas de saúde mental.

“Às vezes, o próprio paciente e a família não reconhecem, não valorizam. Às vezes, é o profissional de saúde que não foi treinado para isso.”

De acordo com a Folha, Rosa cita um recente estudo publicado pelo British Medical Journal que identificou que pacientes que passaram por internação em UTI tiveram, posteriormente, risco aumentado para suicídio. “É uma situação muito séria que não pode continuar sendo negligenciada.”

Segundo o médico, resultados preliminares de estudos com pacientes de Covid-19 que sobreviveram a uma internação de UTI mostram que o potencial de danos à saúde mental pode ser ainda pior.

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