Mais guerra do que paz: novelas de Tolstói e sua esposa Sofia expõem conflitos íntimos do casal

“Todas as famílias felizes são parecidas, mas cada uma é infeliz a seu próprio modo”, diz a abertura de “Anna Kariênina”. No início dos anos 1890, a própria família Tolstói fez jus à frase. O velho Leon caíra em depressão. Sua filha, Macha, contra a vontade dos pais, desejava casar com um discípulo do escritor — àquela altura, ele havia se convertido numa espécie de profeta, crítico da hipocrisia das elites e admirador da simplicidade da vida camponesa, pacifista e defensor da interpretação literal dos Evangelhos. Apesar da oposição da mulher, Sofia Tolstói, o escritor cogitava abrir mão dos direitos autorais de sua obra.

Liudmila Ulítskaia: "Na Rússia, o Estado nem sempre está em concordância com a lei"

Víktor Eroféiev: 'Na Rússia, a esperança é a primeira a morrer'

Ela sofreu ainda algo que sentiu como um golpe do marido: a publicação de “Sonata Kreutzer” (em referência a Beethoven). “Sinto em meu coração que esta novela foi dirigida a mim, que ela imediatamente me infligiu uma ferida, humilhou-me aos olhos de todo o mundo e destruiu o último amor entre nós”, confessou a seu diário.

A mulher, porém, não deixou barato. Escreveu “De quem é a culpa?”, cujo subtítulo não deixa dúvidas: “A respeito de ‘Sonata Kreutzer’ de Leon Tolstói”. A novela passou um século na gaveta e só foi publicada na Rússia em 1994. Por aqui, apareceu no volume “Tolstói & Tolstaia”, lançado recentemente pela Carambaia, que inclui “Sonata Kreutzer” e outra ficção de Sofia que dá pistas de sua relação com o marido: “Canção sem palavras”, que só veio a lume em 2010, numa edição de mil exemplares do Museu Tolstói.

‘Fera hidrófoba’

Mas o que há de tão escandaloso em “Sonata Kreutzer”? O relato de um feminicídio e uma condenação da sensualidade. Pódznychev confessa ter assassinado a mulher instigado pela “fera hidrófoba do ciúme”: suspeitava que ela o traísse com um violonista. E expõe teorias sobre o amor (“algo torpe, porco”) e o sexo que, à primeira vista, lembram as do próprio Tolstói: “A paixão sexual, seja como estiver apresentada, é um mal, um mal terrível, contra a qual é preciso lutar”. Embora condene os maridos que encaram esposas como “instrumentos de prazer”, ele não defende o direito das mulheres ao próprio corpo e sim que elas considerem “a condição de virgem a mais elevada” e se abstenham de usar o sexo para dominar os homens.

Pódznychev descreve sua vida conjugal como “inferno”: o apaixonamento esgotou-se rapidamente e as brigas só cessavam quando a libido falava mais alto. Engalfinhavam-se para depois fazer as pazes na cama. “99% dos cônjuges vivem no mesmo inferno que eu vivia”, diz ele.

Dostoiévski: Como o autor de 'Crime e castigo' conquistou o Brasil

“Não sei como e por que ligaram ‘Sonata Kreutzer’ à nossa vida conjugal, porém isso é um fato”, disse Sofia no diário. As coincidências vão além do ciúme de Tolstói e de suas tentativas frustradas de abandonar o sexo. Pódznychev vivera uma juventude dissoluta (como o autor). Anotara aventuras sexuais em diário que deu à noiva para ler antes do casamento. Tolstói fizera o mesmo. Além disso, o conde de Iásnaia recorria a palavras negativas para descrever sua lua de mel: “Desconfortável”, “vergonhoso.” Por muito tempo, Tolstói e Sofia se pareceram com “todas as famílias felizes”. Foram parceiros intelectuais: ela atuava como editora das obras do marido e passava a limpo seus manuscritos. As desavenças se avolumaram à medida que o escritor se tornava um profeta. O filme “A última estação”, de 2009, com Christopher Plummer e Helen Mirren, retrata a relação.

— Certa tradição misógina acusou Sofia de arruinar a vida de Tolstói, mas é fato que não podemos ler os grandes romances dele sem lembrar que ela estava lá o tempo todo, editando tudo. Tolstói jamais seria quem foi sem Sofia — afirma o tradutor Irineu Franco Perpetuo, autor de “Como ler os russos” (Todavia). — “Sonata Kreutzer” pertence à obra tardia de Tolstói, depois de sua crise mística e de prometer que não escreveria mais grandes romances, apenas textos de intervenção. É o período do Tolstói moralista. Mas ele não conseguiu abdicar da literatura. Tanto que escreveu “Sonata Kreutzer”, que é literatura no mais alto grau e ainda mostra os conflitos do autor, um sujeito contrário ao sexo, mas teve 13 filhos porque nunca aceitou métodos anticoncepcionais.

Escute as feras: Como o hip hop invadiu as universidades para dialogar de igual para igual com as ciências humanas

Num texto, Tolstói explicou os objetivos de “Sonata Kreutzer”: opor-se à convicção, “amparada na ciência mentirosa”, “de que a relação sexual é uma coisa indispensável para a saúde”. O elogio à sensualidade, diz dele, incentiva a devassidão dos solteiros e a infidelidade dos casados. O amor carnal e o casamento são “um obstáculo ao serviço a Deus e aos homens”. Chamado pela Igreja Ortodoxa de “motim contra o casamento” e censurada na Rússia, a novela de fato convenceu leitores a abraçar o celibato (um romeno chegou a castrar a si mesmo).

Embora tenha convencido o czar a liberar “Sonata Kreutzer”, Sofia decidiu rebater o marido. Foi entre 1892 e 1893 que escreveu “De quem é a culpa?”, do ponto de vista de Anna, jovem que sonhava com “a pureza do primeiro amor”, mas se casa com um nobre quase 20 mais velho (como a autora fizera) e se decepciona com a vida conjugal. Sente ciúme do marido. Ainda solteiro, ele havia se engraçado com uma camponesa (como Tolstói). E se ressente de que ele se interesse só por seu corpo e não por suas virtudes espirituais. “Ofender e humilhar uma mulher sem nenhuma culpa. Nisso é que consistem os direitos do marido”, protesta. Após uma década de frustrações, Anna se apaixona por outro homem (inspirado num discípulo de Tolstói), mas não se entrega ao adultério.

Orgulho e reparação: Editoras e academia resgatam o pensamento de mulheres filósofas

Sofia ainda abordou o ciúme na novela “Canção sem palavras”, escrita após a morte do Ivan, em 1895. A protagonista, Sacha, é casada com um aristocrata que parece seguir as doutrinas de Tolstói: é vegetariano, condena o serviço militar e valoriza as atividades agrícolas. E é ciumento. Desconfia da amizade da mulher com um pianista (assim como Tolstói reprovava a simpatia de Sofia pelo compositor Serguei Tanêiev, que jogava xadrez com a condessa).

O resgate de autoras mulheres tem contribuído para a redescoberta da ficção de Sofia (seus diários já eram conhecidos). Professor da Unicamp, Mário Luiz Frungillo insiste no valor da obra. Suas novelas oferecem uma perspectiva feminina e original sobre a infelicidade conjugal, na contramão de boa parte da literatura do século XIX sobre o tema.

— As personagens de Sofia são diferentes de Emma Bovary, Anna Kariênina ou da Luísa de “O primo Basílio”, todas escritas por homens. Elas não veem uma aventura extraconjugal como saída para um casamento insatisfatório. Não por acaso, são leitoras dos filósofos estoicos, que ensinam a encarar de frente o sofrimento. Mas nem isso garante um desfecho feliz — afirma.

De perfume de Clarice a cartas com Julio Cortázar: Conheça o acervo pessoal de Nélida Piñon

Frungillo sugere uma interpretação alternativa de “Sonata Kreutzer”. Afinal, por que Tolstói colocaria seus argumentos em favor da abstinência sexual na boca de um assassino? O conde leva a sério o mandamento “Não matarás”. Segundo o professor, o tolstoísmo de Pódznychev é contaminado pela irracionalidade do ciúme e pelo consumo de substâncias estimulantes (condenadas pelo escritor), como a bebida. Mais do que uma defesa do celibato, “Sonata Kreutzer” é um alerta contra as consequências nefastas da adesão fanática a quaisquer doutrinas, inclusive às de Tolstói, que conhecia a força irresistível do desejo sexual e escreveu que a castidade não é uma regra e sim um ideal — irrealizável, mas suficiente para orientar a conduta moral.

Serviço:

"Tolstói & Tolstaia"

Autores: Lev Tolstói e Sófia Tolstaia. Tradução: Irineu Franco Perpetuo. Editora: Carambaia. Páginas: 448. Preço: R$ 59,90.