Mais letal que o ex: veja trajetória e planos de Cláudio Castro, governador do RJ

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Castro ao lado do então governador Wilson Witzel, em conferência estadual. (Photo: Mauro Pimentel/AFP via Getty Images).
Castro ao lado do então governador Wilson Witzel, em conferência estadual. (Photo: Mauro Pimentel/AFP via Getty Images).
  • O atual chefe do Rio já entrou para a história por ser responsável pela maior chacina do estado

  • Número de confrontos policiais seguidos de morte, durante a pandemia, foi a 1.245, só em 2020;

  • Religião é estratégia de campanha - e não há indício de apoio do presidente Bolsonaro para o pleito.

O histórico do governo estadual do Rio vive um ciclo vicioso desde 2002: todos os representantes eleitos para o cargo foram presos. Esse legado de 18 anos começou com a prisão de Anthony Garotinho (PRP), e seguiu com as investigações e afastamento de seus sucessores Sérgio Cabral (MDB), Luiz Fernando Pezão (MDB) e, mais recentemente, Wilson Witzel (PSC).

Com o impeachment do ex-juiz, Cláudio Castro (PL) tornou-se o quarto vice a assumir o cargo de governador de forma permanente. Com menos de 1 ano na cadeira do executivo fluminense, o atual chefe do Rio já entrou para a história do estado por ser o governante responsável pela maior chacina do estado. O dia de hoje (06/08) marca os três meses do massacre do Jacarezinho, a ação policial mais letal da história da cidade do rio que terminou com 29 mortos.

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Numa quinta-feira, 6 de maio, a Polícia Civil do Estado realizou uma operação na favela do Jacarezinho, localizada na zona norte da cidade – com o uso de equipamentos de guerra: caveirões, fuzis e helicópteros. Um dia após esta operação, as avaliações positivas sobre o governo cresceram nas redes sociais. Informações obtidas pela jornalista Mônica Bergamo mostraram que o número de menções positivas do governante passaram de 12% para 41% após a ação no Jacarezinho. Depois da repercussão da chacina, Castrou divulgou um vídeo afirmando que os policiais da operação realizaram o "fiel cumprimento de dezenas de mandados expedidos pela justiça".

No mês seguinte, no dia 8 de junho, outra morte brutal chocou os moradores do Rio. A design de interiores Kathlen Oliveira Romeu, 24 anos, foi executada em operação feita pela Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do bairro Lins de Vasconcelos, na região Grajaú-Jacarepaguá. A jovem, grávida de 4 meses, estava acompanhada da avó quando foi baleada a sangue frio. Na época, após pressão, o governador soltou uma breve declaração sobre o caso mais de 24h depois.

O governador Cláudio Castro lamenta profundamente a morte da jovem Kathlen Romeu, de 24 anos, grávida de 4 meses. As investigações sobre as circunstâncias que levaram à morte de Kathlen estão a cargo da Polícia Civil.

Insegurança pública: Castro já matou, em média, 10 a mais que o ex-juiz

Uma pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostrou que, em números absolutos, os policiais do Rio são os que mais matam. O estado tem 7 cidades entre as 10 com maior alta de letalidade do país, são elas: Japeri, Itaguaí, Angra dos Reis, São Gonçalo, Queimados, Mesquita e Belford Roxo. 

O número de confrontos policiais seguidos de morte durante a pandemia também chama a atenção: foram 1245 óbitos em 2020. Mesmo após decisão do Supremo Tribunal Federal proibindo operações policiais durante a crise sanitária, o estado do Rio vem frequentemente desobedecendo a ADPF 635 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental) que permite operações apenas em casos excepcionais.

Foi pautando a segurança pública que o ex-governador impeachmado, Wilson Witzel, foi eleito. Seu sucessor para o cargo, também assumiu parte desse discurso. Após três meses à frente oficialmente do estado do Rio, especialistas e os dados apontam que Castro é ainda mais letal que Witzel. 

Registros do Instituto Fogo Cruzado ilustram esse cenário: a média de mortos durante ações policiais na Região Metropolitana do Rio, que abriga 75% da população de todo o estado, aumentou em 10 vítimas ao comparar o primeiro semestre de 2020 (governo Witzel) e o primeiro semestre de 2021 (governo Castro). A média semestral passou de 53 mortos por mês para 63.

Número de mortes durante ações policiais na Região Metropolitana RJ. Fonte: Instituto Fogo Cruzado.
Número de mortes durante ações policiais na Região Metropolitana RJ. Fonte: Instituto Fogo Cruzado.

Só no primeiro mês de Castro como governador em exercício, em outubro de 2020, o número de mortes por policiais foi 5 vezes maior do que no mês anterior. Segundo dados da Rede de Observatório da Segurança, somente naquele período, a polícia foi responsável pela morte de 63 pessoas: um aumento de 425% em relação a setembro, em que foram registradas 12 mortes. O especialista em segurança pública e coordenador da Rede de Observatório da Segurança, Pablo Nunes, contou que recebeu com surpresa esta alta do número de mortes no recente governo.

“Desde o começo do seu mandato Witzel já tinha deixado claro que faria uma guerra implacável e violenta contra o crime, essa era a sua bandeira. Um governo que usa drone e mira na cabecinha, palavras do próprio ex-governador. O que a gente não esperava era que com Castro as taxas de letalidade iriam aumentar nessa proporção. Foi um impacto forte mas, visto o prisma que o elegeu como vice, deveria ser óbvio que ele também faz parte desse processo. Ele tem um perfil mais low profile, sem espetáculos, mas conserva esse componente autoritário”, afirmou Nunes.

Cláudio Castro em 6 de janeiro de 2021 — Foto: Philippe Lima/Governo do Estado/Divulgação
Cláudio Castro em 6 de janeiro de 2021 — Foto: Philippe Lima/Governo do Estado/Divulgação

'Eleições 2022' tem segurança em disputa

Segurança pública é um dos debates quentes que deve ser decisivo para as eleições de 2022. Entre os principais nomes dessa disputa estão o atual governador e o deputado federal, Marcelo Freixo (PSB). O coordenador da Rede de Observatório da Segurança fala das chances de reeleição.

“Será uma disputa de mentalidades distintas, pólos contrários, me parece que haverá um acirramento e uma radicalização ainda maior do debate sobre a polícia. Por ser o atual governador, ele tem mais chances se pensarmos na tradição da reeleição. Porém, desta vez, a situação é um pouco distinta, as pessoas não votaram em Claudio Castro. Nesse momento as pesquisas estão mostrando, e me parece também, que Freixo sai na frente nessa disputa”, explicou Pablo Nunes.

Para José Paulo Martins Junior, diretor da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio, o atual governador é um forte candidato, mas não necessariamente é o favorito para o pleito no ano que vem. “Por ser governador, isso já lhe dá grande vantagem, podendo atrair partidos para sua candidatura e mostrando suas realizações durante a gestão. O candidato à reeleição tem sempre um ‘favoritismo’. Mas ele tem sido discreto. Até agora, pelo menos, não chamou muita atenção”, explica.

A política de morte deve estar nos planos da candidatura do chefe do executivo estadual. Martins Jr. lembra que o estado elegeu Witzel com o mesmo discurso em 2018, defendendo execuções sumárias. “A violência fica no radar do eleitor. Porém, a atual política de segurança acaba gerando dano colateral, com a morte de crianças e mulheres grávidas. Isso carrega um peso que pode ser exposto como despreparo da polícia, que “mata geral”. Certamente haverá disputa sobre isso, já que a segurança também é evidente na agenda de Freixo, pelo combate dele às milícias, a bandeira dos direitos humanos e a alta de mortes de agentes policiais”.

Histórico do político Low-profile

Católico, cantor, advogado e pai. Antes de assumir o cargo no executivo, Castro foi vereador da cidade do Rio por um mandato (2017-2019). Nesse período na câmara legislativa carioca, ele teve apenas três leis de sua autoria aprovadas, entre elas a Lei nº6.451/2019 que incluiu o Dia do Empresário Júnior no Calendário Oficial da Cidade do Rio. Um dos seus últimos feitos na Câmara foi conceder, em dezembro de 2018, o título de Cidadão Honorário do Município do Rio de Janeiro a seu aliado e atual réu, Wilson Witzel.

Castro é descrito por especialistas como um político discreto e conciliador, bem diferente de seu antigo parceiro, Wilson Witzel. Castro conseguiu, por exemplo, restabelecer os laços entre o poder executivo do Rio e representantes da Assembleia Legislativa do Rio, incluindo o atual presidente da Alerj, André Ceciliano (PT). Antes de assumir, o clima entre os dois poderes estava instável, o ex-governador impeachmado e o presidente da casa legislativa vinham trocando ameaças e insultos públicos antes e durante o processo de votação da Alerj que aprovou com unanimidade a abertura do processo de impeachment de Witzel.

Apesar da discrição, a presença do político é forte nas redes sociais. Com o bordão #SemTempoAPerder, Castro aposta em vídeos e fotos inaugurando postos da PM estadual, novidades do programa de policiamento ostensivo Bairro Seguro e se orgulhando do trabalho desenvolvido na segurança pública.

O ex-vice chega ao poder com outra postura e mesmo após discordâncias com Ceciliano sobre a venda da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro, os gestores selaram a paz entre os poderes mas, um impasse segue dificultando essa amizade: as eleições de 2022.

Enquanto o presidente da Alerj tem conduzido conversas em busca de uma frente de centro-esquerda para o governo do Rio, com apoio de Lula, Castro tem dialogado com presidentes de partidos do Centrão, bloco nacionalmente alinhado ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Há também quem busque um meio do caminho. Algumas alianças sonham com uma chave “CastroLula” no estado do Rio em 2022.

Na esfera nacional, o governador é visto como candidato bolsonarista, mas não necessariamente tem o apoio do presidente da República. “Dependendo do prestígio de Bolsonaro no momento eleitoral, pode influenciar na candidatura de Castro - se é que Bolsonaro vai escolhê-lo para apoiar. Talvez o presidente pense em algum ministro, como Tarcísio Gomes, da Infraestrutura, que está cotado e pode ser escalado para Rio ou São Paulo”.

Para o especialista, a inexpressividade de Castro é grande desvantagem diante dessas alianças nacionais. A nível estadual, o ‘carinho’ pelo líder federal é inegável.

O outro lado da letalidade: música e religião

O chefe do Executivo estadual tem também alguns hobbies além da política. Todos os domingos, Castro bate ponto em alguma igreja do estado, cantando juntos os fiéis e dando breves palhinhas no violão. Vem de longa trajetória na Renovação Carismática, sendo uma liderança no estado do Rio.

Sua voz cristã também pode ser encontrada em CD e pela Internet. O primeiro álbum solo, de 2011, chama-se Em Nome do Pai — o mesmo nome da banda da qual fazia parte, que começou na paróquia São Francisco de Paula, na Barra da Tijuca, zona oeste carioca. Seu último lançamento é de 2015, com o disco Dia de Celebração. No Spotify, o cantor tem 132 ouvintes mensais.

Religião é um dos seus grandes trunfos, conforme avalia Martins Jr. “Castro é um político vinculado a um partido cristão e tem entrada em várias igrejas católicas, protestantes e evangélicas. Com certeza, o caminho que vai buscar é esse. Considerando que, por ora, seu principal candidato na oposição é Marcelo Freixo (PSB), ele pode seguir um caminho comum na direita, que se aproxima das igrejas e ‘vende’ a esquerda como ‘’sem religião e sem família”, avalia o cientista político.

A paixão pela música e a religião já renderam quase duas vitórias ao político no Prêmio da Música Católica, indicado em 2 categorias (2012 e 2016), uma delas como Melhor Intérprete Masculino. Em shows, o cristão dividiu palcos com o ex-governador Wilson Witzel.

Procurado, Cláudio Castro não retornou até o fechamento desta reportagem.

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