Mais ricos em São Paulo têm nove vezes mais acesso a empregos que os 40% mais pobres

Pedro Capetti
Desempregados formam fila quilométrica para concorrer a uma vaga em mutirão do emprego, em São Paulo

RIO — Na maior cidade do país, a desigualdade social não atinge apenas a , mas também o acesso a oportunidade de trabalho, saúde e educação. Em São Paulo, os 10% mais ricos têm nove vezes mais acesso a emprego do que os 40% mais pobres da capital.

Os dados são do projeto Acesso a Oportunidades, lançado nesta quinta-feira por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O levantamento analisou informações de transporte, saúde, educação e emprego nas 20 maiores cidades do país, cruzando com dados territoriais. Segundo o estudo, a capital paulista é a cidade mais desigual no acesso a emprego entre esses 20 municípios.

O cálculo foi feito a partir do cruzamento de informações do Censo e da Rais, levantamento do Ministério da Economia que contém dados de localização dos empregos formais anualmente. Foi considerado o número total de oportunidades para as quais o cidadão conseguiria se candidatar dentro de um hexágono (delimitação utilizada para dividir o território e a população) em até 30 minutos de caminhada.

Os pesquisadores explicam que a distribuição socioespacial de renda, de oportunidades e a dimensão da cidade paulista fazem com que os mais pobres estejam concentrados em regiões distantes das principais zonas de empregos. O contrário acontece para os mais ricos.

As áreas centrais contrastam com as regiões de periferia, caracterizadas como desertos de oportunidades, por apresentarem baixos níveis de desenvolvimento e por serem menos servidas de infraestrutura urbana e transporte público.

A realidade é a mesma encontrada em outras cidades brasileiras analisadas. Além de São Paulo, Belo Horizonte, Campo Grande, Goiânia e Porto Alegre completam a lista das cidades com maior desigualdade de acesso a trabalho no Brasil. O Rio de Janeiro ocupa a 15ª posição da lista, com os 10% mais ricos tendo o dobro de acesso a emprego do que os 40% mais pobres.

Uma das explicações dos pesquisadores para o resultado da capital fluminense é a proximidade de aglomerações de população de baixa renda próxima ao centro da cidade e na Zona Sul. Isso faz com que a maior parcela dos mais pobres tenha maior proximidade e melhor acesso caminhando a empregos.

Para os autores, as desigualdades encontradas no acesso a emprego e outros serviços dificulta a superação das desigualdades para os grupos populacionais de baixa renda, os quais são levados a morar em regiões com menos desenvolvimento econômico e menos servidas de infraestrutura urbana e serviços de transporte.

“Essa persistente desigualdade nas cidades brasileiras é causa e, ao mesmo tempo, reflexo da segregação espacial e de questões estruturais geradas pela desigual distribuição espacial do sistema de transporte, da infraestrutura e do desenvolvimento urbano”, explicam os pesquisadores Rafael Pereira, Carlos Kauê Vieira Braga, Bernardo Serra e Vanessa Gapriotti Nadalin.

Desigualdade racial

O estudo também apontou que a população branca tem mais acesso aos serviços de saúde pública do que a população negra em todas as 20 cidades analisadas. Isso decorre em virtude desses estabelecimentos estarem mais concentrados em regiões centrais da cidade, o que faz com que a população negra, geralmente moradora da periferia, tenha níveis de acessibilidade mais baixos que a população branca.

O cálculo foi feito a partir do cruzamento de informações do Censo e do Ministério da Saúde (Sistema CNES), que contém dados de localização e a quantidade de leitos de baixa, média e alta complexidade dos municípios brasileiros.

Em cidades como Campinas, Curitiba e Belo Horizonte, por exemplo, o número de hospitais de alta complexidade acessíveis a pé pela população branca é mais do que duas vezes maior do que os acessíveis pela população negra. Equipamentos de saúde de alta complexidade tendem a ser mais concentrados em regiões centrais da cidade.

Considerando o uso de transporte público para locomoção, a capital paulista se mostra como a mais desigual de todas, tendo os brancos acesso a um número de hospitais de alta complexidade 50% maior do que a população negra.

Para os pesquisadores, é necessário novos investimentos e políticas de transporte e desenvolvimento urbano beneficiem igualdade todos os bairros de uma cidade ou região metropolitana, diante da dificuldade de acesso a postos de trabalho, saúde e educação.

“O mínimo que se espera, do ponto de vista da justiça distributiva, é que essas políticas contribuam para reduzir tais desigualdades de acesso a oportunidades, priorizando a melhoria das condições de transporte das pessoas em situação de vulnerabilidade e que mais dependem do transporte público e ativo”, concluem.