Mais três policiais são acusados por morte de George Floyd

Protesto em Minneapolis, nos EUA

No nono dia consecutivo de manifestações nos Estados Unidos provocadas pela morte de George Floyd, um homem negro asfixiado por um policial branco, o mundo político e institucional começou a se mobilizar para dar respostas às demandas dos manifestantes e aplacar a revolta causada pelo presidente Donald Trump, que na segunda-feira ameaçou usar os militares para reprimir os protestos. O secretário da Defesa, Mark Esper, declarou que se opõe ao uso do Exército contra as manifestações, e a Promotoria do estado de Minnesota não só acrescentou uma acusação mais grave contra o policial acusado pela morte de Floyd como processou outros três agentes por envolvimento.

Contrariando o presidente, Esper disse ontem que o emprego de forças militares ativas deve ocorrer “apenas como última alternativa, e apenas nas piores e mais urgentes situações”.

— Nós não estamos agora neste cenário. Eu não apoio o uso da Lei da Insurreição — disse o chefe do Pentágono.

O secretário se referia à Lei da Insurreição de 1807, que permite ao presidente usar forças militares no território nacional para fazer cumprir a lei, diante tumultos e rebeliões.

Trump recua

Esper vinha sendo criticado desde segunda, quando acompanhou Trump em sua visita à Igreja Episcopal de São João — gesto repudiado por políticos democratas e republicanos e criticado por líderes religiosos, que o classificaram como oportunista. Para que a caminhada pudesse acontecer, a Guarda Nacional usou gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar um protesto pacífico perto da Casa Branca. O secretário, que antes havia dito que não sabia qual seria o destino da caminhada, voltou atrás ontem confirmando que tinha conhecimento de que iriam à igreja, mas não sabia o que fariam lá. Segundo relatos da mídia americana, a expulsão dos manifestantes teria sido uma ordem direta do secretário da Justiça, William Barr.

Trump alegou ontem, em entrevista à rádio Fox News que não pediu para que o protesto fosse dissolvido.

— Eles não usaram gás lacrimogêneo — disse o presidente, contrariando relatos de jornalistas e manifestantes. — Agora, quando eu fui, eu não disse “tirem eles”. Eu nem sabia que eles estavam lá.

A ação da Guarda Nacional contra manifestantes pacíficos e a ameaça de uso do Exército foram criticados por altos chefes militares, entre eles o almirante reformado Mike Mullen, ex-chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas, que disse ter ficado “enojado”, e Jim Mattis, ex-secretário da Defesa de Trump, que acusou o presidente de tentar “dividir o país” afirmou nunca ter imaginado que soldados poderiam receber a ordem de violar os direitos constitucionais de outros cidadãos.

Diante das reações, Trump ensaiou um recuo, afirmando ontem acreditar que não será preciso mobilizar o Exército contra os protestos. Ainda assim, há relatos de que as declarações de Esper desagradaram o presidente a ponto de a saída do secretário ser especulada.

Enquanto isso, milhares de pessoas voltaram às ruas em Washington, Nova York, Los Angeles, Boston, Minneapolis, entre outras cidades, em reação à brutalidade policial que levou à morte de Floyd em 25 de maio, em Minneapolis. Ele foi asfixiado pelo policial Derek Chauvin, que manteve o joelho sobre o seu pescoço por mais de oito minutos.

Demitido da polícia e inicialmente acusado de homicídio em terceiro grau, Chauvin será processado também por homicídio em segundo grau, anunciou a Promotoria. A acusação anterior era de assassinato em terceiro grau, quando o indivíduo não tem a intenção de matar, mas age com desprezo pela vida humana — o equivalente a homicídio culposo. Já o assassinato em segundo grau é quando a morte é intencional, ainda que não premeditada. Com a nova acusação, que se soma à anterior, Chauvin, preso desde sexta-feira, pode receber uma sentença de até 40 anos de prisão.

Obama se dirige a jovens

Além disso, os outros três policiais que participaram da ação e também foram demitidos — Thomas Lane, J. Alexander Kueng e Tou Thao — serão acusados de ajudar e favorecer o assassinato. A Promotoria expediu um mandado de prisão contra o trio. O procurador-geral de Minnesota, Keith Ellison, pediu que se estabeleça uma fiança de US$ 1 milhão para cada.

Advogado da família Floyd, Benjamin Crump disse que a notícia é “um importante passo no caminho da justiça”.

Já o primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama, falou ontem pela primeira vez ao vivo sobre os protestos. Obama pediu que os prefeitos promovam reformas nas polícias. Dirigindo-se aos jovens, ele disse que o movimento atual é diferente de tudo o que viu antes:

— A mobilização de tantos jovens me dá esperança. Vocês ajudaram a fazer o país sentir que precisa melhorar.