Mais de três toneladas de peixes são removidas de lagoa na Barra da Tijuca

Cerca de 20 garis removeram mais de 3 toneladas de peixes mortos do Canal Marapendi, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, na manhã deste sábado. Além da quantidade de animais mortos por conta da poluição no local — que ocasionou o mau cheiro em parte do trecho que ficam na altura do Pier 2, nas proximidades do Parque das Rosas, a companhia também precisou usar redes e um caminhão compactador para transportar os componentes e resíduos, acumulados na encosta do canal desde sexta-feira.

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Ontem, moradores que frequentam a região denunciaram a concentração de milhares de peixes que boiavam às margens das águas. No entanto, o cenário de devastação por conta do acúmulo de lixo na água não é novidade. Recém-chegados ao Rio, o casal Eduardo Silva, 50 anos, e a servidora pública Ana Lucia, 50, passaram cerca de 2 anos morando em Pequim, na China. Há dois meses, voltaram para o antigo apartamento no Parque das Rosas, ondem vivem há 12 anos. O choque com as mudanças ocorridas pela poluição que cada vez mais tomam conta do canal os fizeram repensar a rotina.

— A gente tinha o costume de sempre passear aqui pela ciclovia. Tomei um susto quando resolvi passar hoje por lá e vi aqueles peixes todos mortos. Percebi que parte da vegetação daquela região morreu. A impressão que tivemos é que a vegetação de mangue está bem menor. O cheiro hoje está muito forte porque morreram muitos peixes. Parece que o canal está mais poluído de lixo não biodegradável. Mesmo antes das chuvas, a gente via os lixos boiando. Lembro ter uma estação de tratamento ali perto que foi fechada. Espero que os órgãos competentes pensem em políticas públicas que possam ajudar a trazer a vegetação de volta — afirmou o Militar.

Em nota, a Comlurb informou que apesar de atuar constantemente na remoção dos resíduos que chegam às areias das praias, ressaltou que gestão ambiental tanto da Lagoa de Maranpendi, quanto de demais lagoas da Barra e Jacarepaguá são de responsabilidade do Instituto Estadual do Ambiente - Inea.

A mortandade dos peixes é relacionada à diminuição do oxigênio na água, que, por sua vez, está ligada à decomposição de matéria orgânica (esgoto). As chuvas recorrentes nos últimos dias podem ter aumentado a concentração desse material, já que carregou lixo e esgoto da cidade para dentro dos rios e, consequentemente, às lagoas e canais. As altas temperaturas também contribuem para a decomposição do esgoto nas águas, o que "rouba" o oxigênio, provocando asfixia dos peixes.

A poluição, efeito direto da ocupação desenfreada às margens do sistema lagunar, é uma das principais críticas feitas pelos especialistas. A época de maré alta ainda contribui para dificultar o escoamento.

‘Consequência de 40 anos de esquecimento’

O biólogo Mário Moscatelli à frente de diversas pesquisas ambientais das lagoas e baías do Rio de Janeiro, afirmou que o cenário visto neste final de semana na Barra da Tijuca é uma pequena parte da consequência histórica de 40 anos de esquecimento em políticas de saneamento e ordenação do solo na região.

— O que a gente viu sexta foi a consequência desses 40 anos de desatenção. É importante esclarecer que há 30 anos a Lagoa era considera irrecuperável. Particularmente não compartilhei dessa ideia e briguei pela Lagoa Rodrigo de Freitas. E hoje ela é um ecossistema em progressivo equilíbrio. O que eu quero dizer é que ecossistemas degradados historicamente do Rio de Janeiro poderão, de fato, ser tecnicamente recuperados — afirmou o especialista, que já tem planos de acompanhar o processo administrativo das empresas que ficaram responsáveis pela concessão do esgoto.

— Isso exigirá saneamento e ordenação do solo. O saneamento está por conta das novas empresas de concessão de água e esgoto. Essas empresas têm contrato e deverão aportar recursos. Eu acredito que nos próximos 5 anos teremos novidades. Resta saber se ordenação do uso do solo vai ser de fato executada pelo poder público.