"Mais uma desse cara, não aguento mais", disse Bolsonaro sobre Ricardo Barros, segundo denúncia

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Brazil's President Jair Bolsonaro speaks during a press conference on the resignation of Justice Minister Sergio Moro, at the Planalto Presidential Palace in Brasilia, Brazil, Friday, April 24, 2020. Moro, who became popular as a crusader against corruption, resigned on Friday, alleging political interference in the federal police force. (AP Photo/Eraldo Peres)
Segundo o relato do deputado, Bolsonaro perguntou a ele e a seu irmão se era possível “precisar” que Barros tinha influência no caso da Covaxin. Eles teriam respondido que não sabiam (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)
  • "Mais uma desse cara. Eu não aguento mais", teria dito o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sobre o deputado Ricardo Barros (PP-PR) e as negociações da compra da vacina indiana Covaxin

  • Segundo o relato do deputado Luis Miranda (DEM-DF) ao jornal Folha de S. Paulo, o presidente da República teria reclamado e se mostrado desapontado novamente com Barros

  • A CPI deverá votar, a partir da terça-feira (29), requerimentos para convocar para depor funcionários do governo e empresários ligados ao esquema de compra irregular da vacina indiana Covaxin

"Mais uma desse cara. Eu não aguento mais", teria dito o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), referindo-se a relação do líder do governo na Câmara dos Deputados, o deputado Ricardo Barros (PP-PR), com as negociações da compra da vacina indiana Covaxin, segundo o relato do deputado Luis Miranda (DEM-DF) ao jornal Folha de S. Paulo. 

Em entrevista publicada na noite deste domingo (28), o deputado que, junto ao seu irmão, Luis Ricardo Miranda, chefe da divisão de importação do Ministério da Saúde, deixou claro a Bolsonaro as suspeitas de irregularidades na compra do imunizante, afirmou que o presidente da República teria reclamado e se mostrado desapontado novamente com Barros.

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Segundo o relato do deputado, Bolsonaro perguntou a ele e a seu irmão se era possível “precisar” que Barros tinha influência no caso da Covaxin. Eles teriam respondido que não sabiam. O encontro aconteceu no dia 20 de março e foi confirmado pelo próprio presidente. 

“Aí ele disse: ‘Esse pessoal, meu irmão, tá foda. Não consigo resolver esse negócio’. Ele deu a entender que sabia de outros problemas, inclusive”, disse Miranda à Folha.

Os irmãos Miranda foram ouvidos pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado na última sexta-feira (25). O deputado narrou uma conversa que diz ter tido Bolsonaro no momento em que foi entregar a denúncia sobre possível corrupção no governo, relacionada ao contrato da compra da vacina Covaxin.

Segundo o parlamentar, o presidente teria dito: "É mais um rolo desse... Você sabe quem", mas Miranda, no primeiro momento, afirmava não se lembrar do nome citado. Horas depois, disse que tratava-se do deputado Ricardo Barros, líder do governo na Câmara.

No domingo (27), Barros divulgou uma nota para rebater suspeitas apresentadas na CPI da Covid no Senado sobre a compra da vacina indiana Covaxin. "Fica evidente que não há dados concretos ou mesmo acusações objetivas, inclusive pelas entrevistas dadas no fim de semana pelos próprios irmãos Miranda", afirmou Barros.

"Assim, reafirmo minha disposição de prestar os esclarecimentos à CPI da Covid e demonstrar que não há qualquer envolvimento meu no contrato de aquisição da Covaxin", disse o deputado.

Deputy Luis Miranda, center, arrives to testify before the Senate for an investigation into the government's management of the COVID-19 pandemic, in Brasilia, Brazil, Friday, June 25, 2021. (AP Photo/Eraldo Peres)
A Global é uma das sócias da Precisa Medicamentos, que fechou o contrato de R$ 1,6 bilhão para venda de 20 milhões de doses da Covaxin ao Brasil mesmo sem a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não tendo aprovado o uso do imunzante no país (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Na entrevista à Folha, neste domingo, Miranda afirmou que no encontro Bolsonaro recebeu recortes de notícias que citavam a Global Gestão em Saúde, empresa que recebeu R$ 20 milhões, em 2017, na gestão de Barros na Saúde, e não entregou os medicamentos prometidos.

“Esse caso aqui o Ricardo Barros está envolvido?”, questionou o presidente, segundo relato do deputado, ao ver as informações sobre a Global.

A Global é uma das sócias da Precisa Medicamentos, que fechou o contrato de R$ 1,6 bilhão para venda de 20 milhões de doses da Covaxin ao Brasil mesmo sem a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) não tendo aprovado o uso do imunzante no país.

Além disso, o embaixador brasileiro na Índia, André Aranha, chegou a enviar um telegrama a Bolsonaro dizendo que havia baixa adesão à campanha de vacinação com Covaxin na Índia. Segundo ele, a vacina foi alvo de críticas dos partidos de oposição devido ao processo opaco de autorização.

"Não sei o que fazer mais"

No encontro com Bolsonaro, Miranda disse que ao confirmar a relação o presidente falou em tom de desabafo: “Não sei o que fazer mais”, teria dito. “Aí a gente fala [ao presidente]: ‘Esse caso é grave, tem de dar uma atenção a isso’. E ele solta que queria encaminhar para o DG [diretor-geral] da Polícia Federal”, disse Miranda.

Na semana passada, reportagem da Folha mostrou que Polícia Federal não encontrou registro de inquérito aberto para apurar a compra da vacina indiana Covaxin.

Possível caso de corrupção

Antes de ser ouvido na CPI, o deputado disse, no Twitter, ter alertado Bolsonaro sobre um possível caso de corrupção envolvendo a compra de vacinas Covaxin. Segundo o irmão do parlamentar, Luís Ricardo Miranda, ele estaria sendo pressionado para aprovar com mais rapidez o uso do imunizante no Brasil.

“Presidente Jair Bolsonaro, você fala tanto em Deus e permite que eu e meu irmão, sejamos atacados por tentarmos ajudar o seu governo, denunciando para o Senhor indícios de corrupção em um contrato do Ministério da Saúde! Sempre te defendi e essa é a recompensa?”, escreveu o deputado no Twitter.

Na publicação, Miranda ressaltou que, na ocasião, Bolsonaro deu o “devido tratamento ao caso” e disse que repassaria o caso à Polícia Federal no mesmo dia. Os dois irmãos serão ouvidos na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid nesta sexta-feira (25).

BRASILIA, BRAZIL - NOVEMBER 19: Ricardo Barros, government leader at Brazil's Lower House, and Paulo Guedes, brazilian Minister of Economy, talks before Commemorates Brazilian Flag Day amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on November 19, 2020 in Brasilia. Brazil has over 5.945,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 167,455 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
No domingo (27), Barros divulgou uma nota para rebater suspeitas apresentadas na CPI da Covid no Senado sobre a compra da vacina indiana Covaxin (Foto: Andressa Anholete/Getty Images)

Convocação da CPI da Covid

A CPI da Covid deverá votar, a partir da terça-feira (29), requerimentos para convocar para depor funcionários do governo e empresários ligados ao esquema de compra irregular da vacina indiana Covaxin.

Omar Aziz (PSD-AM), que preside a comissão, a maioria destes nomes não eram conhecidos pelos senadores até o depoimento do deputado Luís Miranda (DEM-DF) e de seu irmão, o servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, que na sexta-feira (26) disseram ter alertado o presidente Jair Bolsonaro sobre as irregularidades.

"Provavelmente vamos aprovar novos requerimentos, terça ou quarta, porque eles falaram em alguns servidores e deram detalhes que não eram do nosso conhecimento", disse Aziz ao portal UOL. "Eu sempre tenho precaução para fazer as coisas sem politizar. Mas os fatos que eles trouxeram são graves", completou.

O nome de maior interesse do colegiado é de Ricardo Barros (PP-PR), líder do governo na Câmara e, segundo os irmãos Miranda, pessoa que Bolsonaro disse estar ligado à compra fraudulenta do imunizante indiano.

Ele já tem um pedido de convocação que ainda não foi votado pela CPI, de autoria de Jorginho Mello (PL-SC), que é um senador governista. Ele emitiu o pedido no dia 24 para Barros explique alterações feitas na Medida Provisória 1026, que regulou a compra das vacinas contra a Covid-19, que permitiu o contrato da Covaxin.

Fisacl de contrato com a Bharat Biotech

Outros nomes citados por Luis Ricardo Miranda também deveram ser chamados. Entre os possíveis convocados está Regina Célia Silva Oliveira, fiscal do contrato com a Bharat Biotech, fabricante da Covaxin, e a Precisa Medicamentos, representante do laboratório no Brasil.

O senador Humberto Costa (PT-PE) apresentou ainda na sexta um pedido de convocação de Regina, que deve ser votado esta semana. Luis Ricardo revelou que foi ela quem autorizou a transferência de R$ 45 milhões à Madison Biotech, empresa offshore de Cingapura que também está sendo investigada no caso da Covaxin.

O deputado Barros foi às redes sociais negar as acusações e negou ter indicado Regina Célia ao cargo, conforme foi fito por Randolfe Rodrigues (Rede-AP) durante a sessão. Ela é servidora de carreira desde 1995, mas foi Barros, quando era ministro da Saúde, que a nomeou para o cargo atual, em fevereiro de 2018, de acordo com o Diário Oficial da União.

Outro possível convocado, também a pedido de Humberto Costa, é Roberto Ferreira Dias, diretor do Departamento de Logística do Ministério da Saúde. Ele foi a pessoa que assinou, em nome do governo, o contrato com a Precisa Medicamentos. Luis Ricardo disse que ele foi um de seus superiores que o pressionou para liberar a importação da vacina.

Secretário de Pazuello

Outros superiores do servidor que possivelmente serão convocados são Élcio Franco, secretário-executivo da pasta na gestão de Eduardo Pazuello, e o tenente-coronel Alex Lial Marinho, ex-coordenador-geral de aquisições e insumos do ministério.

A CPI poderá aprovar também a convocação de Rodrigo de Lima. "O Ministério estava sem vacina e um colega de trabalho, Rodrigo, servidor, me disse que tinha um rapaz que vendia vacina e que esse rapaz disse que os seus, alguns gestores, estavam pedindo propina", disse Luis Ricardo sobre ele. Lima, no entanto, já negou ter ouvido este pedido de propina.

Em relação à convocação de empresários, serão levantados nomes ligados a Francisco Maximiano, sócio da Precisa Medicamentos. Ele deveria haver falado ao colegiado em 23 de junho, mas ele pediu adiamento por ter voltado recentemente da Índia e precisaria cumprir quarentena.

Os nomes ligados a Maximiano que vieram à tona no depoimento dos irmãos Miranda são os de Danilo Fiorini, ex-diretor executivo da Precisa e da Global Gestão em Saúde, outra empresa suspeita, e Wellyngton Ferreira Gonçalves, sócio na Global e na Rompro Participações, companhia que também deve ser investigada.

O Ministério Público Federal (MPF) denunciou Barros em janeiro de 2019 por improbidade administrativa depois que a Global recebeu R$ 20 milhões do governo por remédios para doenças raras que não foram entregues.

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