Mais vulneráveis ao coronavírus, idosos resistem à quarentena

Marcelo Antônio Ferreira* e Rafael Galdo
Idosos se reúnem em Copacabana, bairro que concentra população com mais de 60 anos: as amigas vão para a rua, mas se cumprimentam com os pés

RIO - Para convencer Dona Doroti Ribeiro, de 80 anos, a ficar em casa em meio à pandemia do coronavírus, o analista financeiro Raphael Fernandes teve que radicalizar: inventou uma fakenews e passou um trote para a avó, como se fosse um servidor do INSS, para ameaçá-la com a perda da aposentadoria caso ela continuasse com suas "voltinhas" pela rua. É que ela insistia numa rebeldia que tem levado muitos idosos às praças, filas de banco e mercados, apesar dos apelos para que façam quarentena, já que são grupo de risco para a Covid-19.

Eles andam tão resistentes que, em bairros com maior proporção de idosos, como Copacabana, há carros de som circulando com alerta especial para que eles cumpram o isolamento. Na Praça Saens Peña, na Tijuca, onde grupos costumam se reunir para bater papo e jogar cartas, a saída foi interditar a área com uma fita preta e amarela usada para indicar zonas de perigo. Adiantou só ali, porque outros pontos do bairro estão cheios de "cabeças brancas" como Dona Doroti, que mora em São Gonçalo.

— Ela queria dar os parabéns a meu tio pelo aniversário dele. Pedimos que ela não saísse, mas ela respondeu que tinha um médico. Ligamos para o doutor e, de fato, ela tinha a consulta. Mas, à noite, quando telefonei para meu tio, escutei uma voz ao fundo. Quem estava lá? Ela — contou Fernandes.

De acordo com ele, Doroti é muito ativa e teve agenda intensa no o carnaval. Independentemente da circunstância, mesmo quando há notícias de tiroteio na região ou chove, ela sempre sai de casa. Foi por isso que ele decidiu adotar a estratégia mais austera.

— Quando ela atendeu o telefone, eu disse: 'A senhora foi vista circulando por Alcântara'. Ela perguntou de onde eu era. Eu disse que do INSS e continuei: ‘esse é o último aviso. Caso desrespeite, a senhora será bloqueada no INSS e vai ficar seis meses sem receber’ Ela pediu pelo amor de Deus que não, porque tinha contas a pagar. Agora, não sai de casa de forma alguma. Não vamos falar a verdade, até essa onda passar — afirma o analista.

No WhatsApp também viralizaram mensagens atribuídas à Previdência Social, que citam até uma suposta medida provisória do governo federal determinando que pessoas com mais de 60 anos que estiverem nas ruas a partir do dia 20 deste mês tenham a aposentadoria suspensa. A notícia, que até dava conta de uma multa para os filhos de R$ 1.045, não é verdadeira.

Jogo com amigos

O que há de verdade em toda a história é a luta das famílias para proteger seus idosos do coronavírus. Aos 82 anos, o aposentado João Lopes de Araújo tem plena consciência de que os mais velhos estão suscetíveis à pandemia. Apesar disso e dos pedidos do filho, nesta sexta-feira, ele estava com os amigos jogando cartas no Largo do Machado.

— Para me proteger, uso todos os métodos que são ensinados na TV. Não toco no rosto de forma alguma. E, quando chego em casa, lavo bem as mãos. É isso — dizia Seu Lopes, contando que na juventude ouvia histórias “piores” que as do coronavírus. — Na gripe espanhola, no início do século passado, um amigo me disse que passavam caminhões carregando os cadáveres.

Também nesta sexta idosos caminhavam pelos calçadões de Copacabana e do Leblon. Outros descumpriam todas as orientações para ir à feira livre da Praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Alguns tinham ido às compras. Outros estavam ali por necessidade, como Seu Jorge Xavier da Silva, feirante de 63 anos:

— Não tenho outra fonte de renda. Minha mulher, de 52, está desempregada. Além disso, criamos o nosso neto, de 3 anos. É daqui que sai o nosso sustento, embora o movimento na feira esteja horrível. Hoje (ontem), vendi 50% menos que num dia normal.

Mentir não é indicado

Vários órgãos dos governos, como o próprio Ministério da Saúde, têm reiterado os cuidados com os anciãos. Até as escolas de samba entraram na campanha. O departamento cultural da Mocidade, por exemplo, publicou recomendações para sua comunidade. "Sambista cuida da velha guarda dentro e fora da avenida", diz uma delas. "A Lua não está chamando ninguém para a rua, segura a tua onda, malandragem", orientava outra.

Em Copacabana, na semana passada, as amigas Maria Helena Manhambusco, de 81, Fátima Somavilla, de 63, e Vilma Maanick, de 88, ainda estavam na rua. Mas já tinham mudado os hábitos: cumprimentavam-se apenas com os pés. Todo cuidado, de fato, é pouco, afirma a gerontóloga Carolina Ruiz. Ela reconhece que muitos idosos resistem a mudanças drásticas, como as atuais. Mas dá dicas a filhos e netos na hora de convencê-los a permanecer em casa:

— É preciso diálogo. Perguntar a eles o que entendem disso tudo e tentar entender os motivos que os levam a não cumprir o isolamento. A partir daí, é quase uma terapia, com argumentos e orientações.

A especialista, porém, alerta que o uso de mentiras ou fakenews não são aconselháveis.

— Quando essa situação passar, queremos que os idosos estejam lúcidos e mentalmente saudáveis. Mas, quando usamos esse terrorismo, podemos gerar uma ansiedade que não é bem-vinda. E se eles descobrirem que não é real, pode haver uma ruptura na relação entre pais e filhos — afirma.

*Estagiário sob supervisão de Leila Youssef