Maitê Proença: 'Temos um presidente atrasado e um ministro anti-meio ambiente'

Maria Fortuna
Maitê Proença no terceiro episódio de 'Entrevista na janela'

Na véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, nesta sexta-feira (5), atriz Maitê Proença diz que não há o que comemorar. Ativista ambiental e conselheira da ONG Conservation International, a atriz chegou a ser sondada por um grupo de ambientalistas que planejavam indicar seu nome para o Ministério do Meio Ambiente do governo Bolsonaro logo após a eleição do presidente. A ideia não chegou a ir para a frente. Agora, Maitê afirma estar "estarrecida" com a postura do atual comandante da pasta, Ricardo Salles, que chegou a sugerir aproveitar que as atenções estão voltadas para a Covid-19 para "ir passando a boiada".

- Temos um ministro anti-meio ambiente, que trabalha contra a própria pasta. Pensa em aproveitar que ninguém está olhando para derrubar a Amazônia, flexibilizar as leis, anistiar as pessoas que cometeram crimes ambientais - critica.

A atriz é a terceira participante do "Entrevista na janela", série em vídeo produzida pelo GLOBO, para este período em que cientistas e autoridades médicas recomendam o distanciamento social — o primeiro, foi o humorista Fábio Porchat, o segundo, o ator Antonio Fagundes. A entrevista foi realizada pela repórter Maria Fortuna por telefone e gravada por um drone.

Maitê chamou atenção para o aumento do desmatamento da Amazônia, que em abril de 2020 foi o maior dos últimos dez anos. Segundo o Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que não é ligado ao governo, a área de desmate aumentou 171% em comparação com o mesmo mês no ano passado.

- E, na calada, eles aproveitam as brechas para passar as leis e derrubar toda uma estrutura que foi construída durante décadas - desabada a atriz. - Como as pessoas são desinformadas sobre a Amazônia, acham que manter a mata de pé é um capricho. Aliás, parece que tudo nesse governo virou um capricho: a floresta, a cultura...

Ela define o Brasil atual como um "manicômio". Diz que este tem sido o pior país para se viver no mundo e destaca a falta de um plano efetivo do governo no combate à pandemia.

- Não há plano para a saúde, para miséria, só plano para destruir. Chamar esse governo de ultra direita é até uma ofensa para a direita. Bolsonaro não é um conservador, é um atrasado, um cara que pensa com a cabeça do avô dele - define. - Estou cada dia mais perplexa, boquiaberta e deprimida, tentando entender esse festival de sandices. Como colocamos no lugar mais alto de liderança uma pessoa que não tem a menor condição de liderar?

Militares no governo

A militarização do governo é outro ponto que preocupa a atriz.- Porque três mil militares estão ocupando cargos? A função deles é garantir a governabilidade dos três poderes para que as instituições democráticas sejam preservadas - afirma. - Essa militarização é um recuo? Pra onde? Nós já vimos esse filme e não queremos ele de novo. Quando as instituições democráticas estão sendo ameaçadas, todo mundo fica num medo profundo. O que vai acontecer com as liberdades individuais? Será que as pessoas que ainda apoiam esses descalabros querem, de fato, calar as instituições. Acham que deve ser todo mundo armado na rua fazendo a lei com suas próprias mãos?

'Se Regina Duarte sentia-se isolada, tinha gente disposta a ajudar'

Um dos poucos nomes da classe artística que defendeu o direito de Regina Duarte pensar diferente quando a intérprete da Viúva Porcina declarou apoio a Bolsonaro na campanha eleitoral - e foi atacada pela classe -, Maitê também deu um voto de confiança à atriz quando ela assumiu a secretaria da Cultura do governo. Pouco antes de Regina deixar o cargo, Maitê acabou se tornando uma voz sensata entre seus colegas ao cobrar, durante entrevista de Regina a uma rede de televisão, explicações sobre uma política de apoio aos trabalhadores da cultura durante a pandemia.

- Também queria saber qual era o plano de voo, já que ela estava há dois meses no cargo. Achei que Regina deveria ter pelo menos conversado com a classe sobre as dificuldades que estava enfrentando. Se ela estava se sentindo isolada, tinha muita gente disposta a ajudar.

Maitê passa o isolamento só, em seu apartamento em Copacabana. Diz que seu lado mais introspectivo até tem gostado de não estar em constante movimento. No entanto, ela conta sentir saudades da vida de bairro.

- Aquele porteiro de um lugar que a gente visita todo dia e pergunta sobre a filha, o cara do balcão da loja com quem engatamos uma conversa que não vai dar em nada... Essas pequenas banalidade que eu achava não ter importância, têm muita! Essa gente do meu cotidiano me faz uma imensa falta - diz. - Quando eu puder voltar pra rua, vou dar um abraço em cada uma.