Major disse que nada aconteceria com ele, conta doméstica agredida no Rio

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Sentada na sala de reuniões do escritório de seus advogados, numa rua erma do bairro Taquara, zona oeste do Rio, Patrícia Peixoto da Silva, 33, disse que foi xingada antes de ser agredida por Bruno Chagas e que o policial afirmou que nada aconteceria com ele por ser "major da PM".

Ele está sendo investigado após aparecer num vídeo agredindo a sua ex-funcionária na última segunda-feira (25) dentro do elevador do prédio em que ele e a mulher, que também é policial militar, moram, na Barra da Tijuca.

Mãe de três filhos (com 17, 15 e 1 ano), Patrícia é casada com um manobrista e reside em Sepetiba, também na zona oeste.

A reportagem não conseguiu localizar a defesa do PM.

Leia, a seguir, trechos da entrevista à Folha.

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Pergunta: Como a senhora conheceu o major?

Patrícia Peixoto da Silva: Através de uma conhecida que fez o plano de saúde da minha neném e fez o dela [a mulher do major] também. Ela sabia que eu estava precisando de emprego e que ela [a mulher do major] estava precisando de uma funcionária.

P.: Como era a rotina antes do acontecimento?

PPS: Fui contratada para ser empregada doméstica, mas fazia de tudo. Era babá, levava o menino ao médico, escola, ia ao supermercado. Às vezes, ficava até as 17h. Às vezes, eu dormia lá, porque eles queriam sair à noite e eu tinha que ficar com o neném.

P.: Isso era acordado antes? Tinha folga depois?

PPS: Folga não, nem dinheiro extra. Eu pegava das 9h às 15h e, mesmo sendo sem carteira assinada, eles falavam que eu estava sempre devendo hora. E por estar devendo horas eu tinha que dormir ali para não ficar mais devendo.

P.: O major já tinha demonstrado algum comportamento mais agressivo com a senhora?

PPS: Logo no início, ele gritou comigo por causa de um rapaz que foi botar uma persiana, mas botou errado. Chorei bastante, não respondi nem nada, precisava do emprego. No outro dia ele me pediu desculpa, falou que estava com problema no batalhão em que trabalhava, aí acabou descontando em mim. Sempre quando queria alguma coisa, era com ela que eu falava.

P.: Ela nunca teve um comportamento igual ao dele?

PPS: Nunca tinha tido, até um dia em que ela [a mulher do major] veio me cobrar de eu levar o filho dela ao médico, e falei que não daria. Ela insistiu, mas eu falei que não dava porque eu tinha que levar meu filho pro aeroporto, porque ele ia viajar pra Bahia. Ela começou a falar que eu tinha que levar porque estaria devendo as horas. Então eu questionei a questão da minha carteira. 'Pois então, já que a senhora quer tudo certinho, dentro da lei, a senhora assina a minha carteira. Eu não tenho carteira assinada aqui'. Daí ela começou a gritar que eu estava questionando ela sobre a carteira e me mandou embora. Demorou uns dois dias, ela me ligou pedindo para voltar, dizendo que não via mais a vida dela sem mim. Aí eu voltei.

P.: Isso se repetiu?

PPS: Não, de nenhum dos dois. Até porque ela precisava de mim de alguma forma. Para levar o menino ao médico, na escola. Ela tinha me prometido, quando voltei, que ia aumentar salário, dar cesta básica, prometeu várias coisas, mas não deu nada.

P.: A senhora consegue recapitular o dia do tapa?

PPS: Cheguei pra trabalhar com 20 minutos de atraso, eles estavam dormindo. Estava na cozinha, lavando louça, quando acordaram e ela veio questionar o horário. Expliquei que meu neném estava com pneumonia e eu tinha passado a noite acordada. Quando ela [a neném] pegou no sono, eu peguei no sono também e acabei perdendo a hora.

Logo atrás veio ele me questionando sobre algo que eu tinha postado no status do WhatsApp, uma frase sobre empregada doméstica. Ele veio mostrando na minha cara: 'que porra é essa que você tá postando no status?'. Olhei no meu telefone e perguntei 'o que que tem?' Ele perguntou: 'tá direcionando isso pra mim?'. Eu falei: 'Tá seu nome? Alguma vez o senhor falou isso de mim?' Aí ele disse que não interessava e começou a me xingar de filha da puta; e eu dizia que filha da puta era ele.

Quando ele veio bem perto de botar o dedo no rosto, eu disse para tirar o dedo da minha cara. Como sabia que ali eu ia ser mandada embora, saí da cozinha e fui pra perto da mesa, que era onde estava a chave do meu carro, que estava emprestado com eles. O deles tinha batido o motor.

Aí ele [Bruno] falou assim: 'Sai da minha casa, sai da minha casa agora'. Eu falei 'eu vou sair da sua casa, não precisa botar a mão em mim, mas eu vou sair com a chave do meu carro'. Quando olhei pra mesa, ela tinha sumido com a chave do carro. Aí ele mandou ela me entregar a chave, e ela disse que precisava tirar as coisas do carro. Foi quando ele desceu pra tirar as coisas e eu fui junto. Foi quando aconteceu a cena do elevador. O tempo todo me xingando, eu falei que ia dar parte nele.

P.: O que ele te falou?

PPS: 'Filha da puta, sua safada, sua piranha, você tá achando que é quem? Eu sou major da PM, nada vai dar pra mim', porque eu dizia que ia dar parte nele, né. E ele falando que não ia dar nada pra ele. Quando ele se aproxima bem perto de mim, me acuando pro cantinho do elevador, eu empurrei e disse 'sai de perto de mim', aí foi quando ele me deu um tapa no meu rosto.

P.: Houve alguma reação da vizinhança ou dos porteiros?

PPS: Quando o elevador chegou no térreo, a moradora ouviu a gritaria, meu pedido de socorro, abriu a porta e me puxou para o apartamento dela. Ela me ajudou, me deu água, eu estava com meu marido no telefone, falei que só ia sair de lá quando meu marido chegasse.

P.: Desde que o caso veio a público, a senhora recebeu alguma ameaça?

PPS: Quando eu dei parte, ele ficou ligando pra mim e pro meu marido, só que a gente não atendeu. Ele ligou na segunda até de noite. Ligando insistentemente, depois mandou mensagem, mas também não respondi, disse que era a respeito da rescisão, alguma coisa assim.

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