Malafaia usa culto para criticar restrições por coronavírus: 'Quem pode fechar igreja é juiz'

João Paulo Saconi

RIO - Líder de 116 congregações Brasil afora, o pastor Silas Malafaia tem utilizado cultos da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo para repetir que não pretende suspender cerimônias religiosas enquanto autoridades não restringirem lotações em transportes públicos diante da crise do novo coronavírus. Alvo de ação do Ministério Público do Rio (MP), conforme adiantou o blog do jornalista Ancelmo Gois, Malafaia esteve reunido com fiéis nesta quinta-feira à noite, na sede da igreja na Penha, Zona Norte do Rio, onde há capacidade para 6 mil pessoas. O MP pede à Justiça que ele seja obrigado a suspender atividades coletivas nos templos em território fluminense, sob pena de multa diária de R$ 10 mil.

Na última terça-feira, diante de fiéis que lotavam o local, Malafaia chamou de "asneiras" as críticas que têm recebido por não evitar aglomerações conforme recomendado pelo poder público e defendeu que apenas o Judiciário poderia determinar a suspensão de encontros religiosos.

— Eu vim hoje para a igreja e passei pelas estações de BRT e vi o ônibus. É uma afronta. Estações lotadas e ônibus apinhados — relatou Malafaia, referindo-se aos coletivos como "latas de sardinha": — Se fechar tudo, parar ônibus, transporte, fechar tudo... Os cultos vão estar suspensos e eu vou estar aqui com uma portinha aberta. Porque isso aqui (a igreja) é o último lugar da fé e da esperança.

Durante 18 minutos de pregação, disponibilizados pelo próprio Malafaia no Youtube, ele fez elogios aos governadores de Rio e São Paulo, Wilson Witzel (PSC) e João Doria (PSDB), por terem anunciados medidas de restrição de aglomerações que não mencionavam cerimônias religiosas. Doria, no entanto, anunciou nesta quinta-feira uma recomendação para que igrejas suspendam cultos e missas. Em sua pregação, Malafaia criticou a decisão do governador da Bahia, Rui Costa (PT), por restringir a realização dos cultos. Ele questionou a atribuição de governadores para tomarem decisões neste sentido.

— Na Bíblia, os profetas e homens de Deus repreendiam as pragas. Hoje, eles fecham as igrejas, vão para as redes sociais para falar asneiras e atacar a igreja que tá aberta. Eu não tô criticando que pastor, que ovelha não tem fé porque não vem pro culto. Agora, ficar ouvindo asneira de liderança por falar que igreja está aberta... Dizendo que é desobediência civil. Colega, vai primeiro aprender Direito. No Brasil, quem pode fechar igreja e impedir culto é a Justiça. Ordem de um juiz. Nem governador, nem prefeito tem poder de fechar igreja. Desobediência civil uma vírgula — disse Malafaia.

Malafaia foi procurado por meio da secretaria da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, mas até a publicação desta reportagem não comentou a ação do MP e suas falas no culto de terça-feira.

Cronograma inalterado

Em comunicado divulgado por meio das redes sociais, a Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo informou na quarta-feira aos fiéis da capital fluminense que o prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), "não decretou estado de emergência, mas sim situação de emergência" e que por isso os cultos no município estão mantidos. Crivella, no entanto, disse mais cedo em entrevista ao "RJ1", da TV Globo, que as igrejas também devem evitar aglomerações. O próprio governador Witzel decretou estado de emergência no estado desde segunda-feira.

Ainda na Penha, Malafaia referiu-se a si mesmo como uma "autoridade espiritual" e comparou pastores a médicos em relação aos riscos do coronavírus. Ele também chamou de "covarde" a decisão de pregar "atrás de uma câmera", como outros líderes religiosos têm feito para preservar a saúde de seus fiéis.

— Médico corre risco de pegar coronavírus e eu também, ok? Porque eu não sou covarde e não fui chamado para ficar atrás de uma câmera pregando para o povo. Sou pastor na bonança e sou pastor na tempestade. Tenho um compromisso com essa nação como uma voz profética — disse o pastor.

Enquanto Malafaia discursava na sede de sua igreja,o Ministério da Saúde confirmava na noite de terça-feira que o país havia registrado 349 casos de coronavírus. O número cresceu desde então: até a tarde desta quinta-feira, no balanço mais recente, constam 428 infectados. O avanço da doença, no entanto, ainda não modificou a decisão do pastor.

O GLOBO entrou em contato com a sede da igreja na Penha e recebeu uma confirmação de que há culto hoje à noite e de que não houve mudança no cronograma das 92 congregações localizadas em território fluminense. Em São Paulo, onde o governador João Doria (PSDB) recomendou oficialmente a suspensão, ainda não houve orientação para os fiéis das três unidades: até agora, os cultos marcados para o próximo domingo não foram cancelados.

Em sua publicação mais recente nas redes sociais, um vídeo divulgado por volta das 17h desta quinta-feira, Malafaia não falou em cancelamento de cultos para seus seguidores. Ele se limitou a repetir que "se tudo fechar" ele estará na igreja para atender fiéis.