‘Malasartes e o Duelo com a Morte’: Jesuíta Barbosa é a cara do Brasil em novo filme

Caio Delcolli
Jesuíta Barbosa e Isis Valverde são Pedro Malasartes e Aurea em obra dirigida por Paulo Morelli.

Pedro Malasartes herdou do pai uma dívida que o obriga a trabalhar na roça para Próspero, um patrão longe de ser empático ou cordial. Sem um tostão no bolso, Malasartes é o perdedor que quer se tornar vencedor — e isso exige dele esperteza e agilidade. Literalmente, pois o personagem passa quase todos os 108 minutos de duração do filme Malasartes e o Duelo com a Morte (2017), que chega aos cinemas nesta quinta-feira (10), correndo de um lado para o outro, escapando de confusões e em busca de seus objetivos.

Qualquer semelhança com o povo brasileiro nesses tempos difíceis não é mera coincidência. Malasartes, figura clássica do folclore íbero-americano e vivido por Jesuíta Barbosa, é pobre e espera que sua vida dê um salto para algo melhor. O personagem é atemporal e familiar, mesmo que localizado sob o sol escaldante do interior brasileiro. Ele já foi vivido por Mazzaropi em As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), fez aparição em Sítio do Pica-Pau Amarelo, a antológica série da TV Globo, e até óperas protagonizou.

Para o diretor Paulo Morelli (Entre Nós, Cidade dos Homens), embora o personagem viva dos pequenos golpes que dá em outras pessoas e fuja de muitas responsabilidades, ele tem bom coração e um quê de ingenuidade em suas ações, além de espiritualmente ser parecido com os brasileiros.

"O Malasartes improvisa, vai vivendo o dia a dia com esperança de que vai acontecer alguma coisa, de que ele vai ganhar algo incrível, mas de repente, como acontece na nossa vida contemporânea, a gente leva rasteiras. E do próprio Brasil", diz em entrevista ao HuffPost Brasil.

"Você acha que o país vai dar certo e, de repente, você vai 'do alto do céu para o fundo do poço no tempo em que estoura um pum'."

A frase é dita por Malasartes no longa-metragem dirigido e escrito por Morelli e, além de parecer sintetizar o que o país tem vivido nos últimos tempos, expressa também a experiência de vida do próprio personagem.

Espécie de herói pouquíssimo convencional, Malasartes, ao completar 21 anos, descobre que é afilhado da Morte (Julio Andrade), que está implacável em sua busca por férias. Sim, férias. Ela está cansada de ocupar o posto há milênios e contar com a ajuda do cabeça-de-vento Esculápio (Leandro Hassum).

Para complicar a vida do protagonista, a bruxa Parca Cortadeira (Vera Holtz) quer aproveitar a situação para ter o posto de Morte de volta para ela, que lhe foi roubado pelo atual ocupante. Tudo que ela faz agora é varrer sua moradia com as assistentes Tecedeira (Luciana Paes) e Fiandeira (Juliana Ianina). As três são responsáveis por tecer os fios de cada vida humana na Terra.

Seja no mundo mágico dos personagens de Andrade e Holtz ou no caipira, Malasartes está em uma enrascada: na Terra, sua namorada Aurea (Isis Valverde) quer se casar com ele, enquanto o irmão dela, Próspero (Milhem Cortaz), quer acabar com a união de ambos, crendo que Malasartes é pouco confiável para ser esposo de sua adorável irmã. Haja esperteza para se livrar da confusão.

Divulgação/André Brandão

O diretor geriu o projeto por 30 anos — a grande produção que seria necessária para realizar o roteiro não foi fácil de ser financiada. As filmagens começaram em 2015, em Jaguariúna, interior de São Paulo, após Morelli definir que não esperaria mais e faria o longa. A produção é fruto da união de forças da produtora 02 Filmes com a Universal, Paris Filmes, Globo e Spcine — dos R$ 9,5 milhões investidos, quase metade foi dedicada aos efeitos visuais.

Malasartes e o Duelo com a Morte já é considerado o filme com mais efeitos especiais da história do cinema brasileiro; mais de 50% das cenas foram geradas em computadores, em extenso e trabalhoso processo de pós-produção. O mundo mágico da Morte e das bruxas tem escopo gigantesco, como nada apresentado pelo cinema brasileiro antes.

"O talento dessas equipes de pós-produção me surpreendeu muito. Eles entregaram muito mais do que eu podia imaginar", conta o diretor. Foi uma experiência nova para todos.

"Nunca tinha feito nada parecido com isso antes. Gostei muito de fazer, mas é bem trabalhoso. Quero que meu próximo filme seja um drama, câmera na mão, sem nenhum efeito especial", brinca.

"Para mim foi muito desafiador fazer um personagem e trabalhar com aquele fundo verde. Eu lembro que, no quarto dia, isso já até me dava uma coisa na cabeça, 'tá tudo verde! Tô daltônico!'. Dá um barato estranho, aquele negócio", ri-se Julio Andrade.

"Mas eu queria passar por essa experiência que o Paulo me proporcionou. É uma coisa que eu nem imaginava que ia fazer, pelo menos não agora, porque é tão difícil, e no Brasil é ainda mais. Foram dois anos para o filme ficar pronto. Nem quando era película a gente esperava tanto."

Para Andrade, que já havia trabalhado com Morelli no drama Entre Nós (2013), a abordagem que Malasartes faz da morte é incomum, pois vai na contracorrente da visão negativa do mundo ocidental sobre ela. Sua Morte é lúdica e dividida entre duas personalidades.

"Fazer isso foi bem minucioso", conta o ator. "Foi difícil encontrar o tom, para não ficar uma caricatura da própria personagem. Na nossa visão uma personalidade é otimista e, a outra, pessimista."

Foram necessárias duas semanas de ensaio para chegar ao ponto de equilíbrio para viver o personagem, e mais preparação para gravar pendurado em cabos, nas cenas em que a Morte flutua pelo cenário.

"Essa questão da dualidade tem função dramatúrgica", diz o diretor. "Serve para contar ao público coisas que não teria como contar de outra maneira, pois a Morte não tem com quem conversar. E também acho que a morte, de certa maneira, tem uma dualidade, porque a vida é uma unidade. A morte é uma coisa quebrada."

O trabalho de Andrade é um exemplo do quão diversificado é o elenco de Malasartes e o Duelo com a Morte. Todos os atores vêm de experiências distintas, desde o cinema até novelas, comédia stand-up (no caso de Hassum) e teatro. Augusto Madeira também trabalha no filme, como Zé Candinho, que leva uma das rasteiras dadas pelo protagonista.

"Valeu apena esperar 30 anos só pelo elenco", orgulha-se Andrea Barata Ribeiro, que produziu o filme com Morelli, Bel Berlinck e Fernando Meirelles (Cidade de Deus).

Jesuíta Barbosa encarna o personagem com carisma, leveza e bom humor — tudo na medida certa para mostrar o bom coração que Malasartes tem por trás de tantas pequenas trapaças. Ele aparece garantindo risos em quase todas as cenas.

"Acho que esse filme é um divisor de águas em vários aspectos, por ter tantos efeitos especiais e por ser tanto para as crianças quanto para os adultos. Isso é maravilhoso, porque aqui no Brasil a gente tem poucos filmes assim", conta Andrade.

Morelli, que decidiu fazer o filme após pesquisar sobre personagens do folclore mundial, diz que o que o atraiu a Malasartes é justamente a brasilidade dele.

"Essa história tem um cheiro de terra, algo bem nosso, da nossa cultura. Apesar de ser super esperto, malandro, Malasartes tem bom coração", diz. "Ser brasileiro não é fácil. A gente leva rasteira, tem que dar um jeitinho e foi esse espírito nosso que me atraiu a esse projeto."

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