Mali, cenário de crimes de guerra e contra a humanidade

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Soldados do Mali durante cerimônia de 60 anos da independência do país africano, em 22 de setembro de 2020, em Bamako

As forças de segurança do Mali e os grupos independentistas e jihadistas cometeram crimes de guerra e contra a humanidade - afirma uma comissão da ONU que investigou a violência no país africano.

As acusações estão registradas em um relatório de 338 páginas compilado pela Comissão Internacional de Investigação, um painel integrado pela sueca Lena Sundh, o camaronês Simon Munzu e o mauriciano Vinod Boolell, que investigou os eventos no Mali entre 2012 e 2018.

A investigação, cujas conclusões ainda não foram divulgadas oficialmente, recomenda a criação de um tribunal especializado em processar crimes internacionais.

Ao contrário de outros relatórios da ONU, as conclusões da Comissão Internacional de Investigação podem ser usadas como base jurídica para um possível julgamento.

"A Comissão tem motivos razoáveis para acreditar que as forças de segurança e de defesa do Mali cometeram crimes de guerra, incluindo violência contra a vida e a pessoa de civis fora de combate, suspeitas de serem afiliadas ou de cooperar com grupos armados extremistas", afirma o relatório, ao qual a AFP teve acesso.

- Revolta independentista e jihadismo -

Sem saída para o mar e localizado na região do Sahel, o Mali foi cenário de violência em 2012 quando os separatistas da etnia tuaregue se revoltaram no norte do país, provocando uma campanha armada de grupos jihadistas.

Em 2012, os militares malineses deram um golpe de Estado para conter a derrota do Exército ante os rebeldes separatistas e jihadistas do norte, o que de fato acabou acontecendo de maneira precipitada, levando o país a uma crise.

A França, potência colonial, iniciou uma operação militar em 2013 que dispersou os jihadistas. Depois, eles se reagruparam e expandiram a campanha para o centro do Mali, inflamando uma região com rivalidades étnicas, antes de avançar para os vizinhos Burkina Faso e Níger.

As forças de segurança e de defesa malinesas foram culpadas de "assassinatos contra membros em particular das comunidades tuaregue e árabes", os quais associavam com os rebeldes separatistas e os jihadistas, afirma a comissão, que apresentou o relatório ao secretário-geral da ONU, António Guterres.

A investigação, que detalha a escala do banho de sangue e da violência étnica no país, foi enviada na semana passada ao Conselho de Segurança.

Milhares de pessoas morreram, e centenas de milhares fugiram de suas casas.

Após o surgimento em 2015 de um grupo jihadista liderado pelo pregador fulani Amadou Koufa, esta comunidade da região central do Mali foi vítima de "assassinatos cometidos pelas Forças Armadas malinesas", diz o texto.

Vários signatários do acordo de paz, incluindo ex-rebeldes do Movimento Nacional para a Libertação de Azawad (MNLA) e o grupo pró-governo Gatia também são responsáveis por "crimes de guerra", segundo a comissão.

O painel acusou ainda outros atores do conflito de "crimes contra a humanidade", em particular os grupos jihadistas armados, cuja influência e violência continuam na sub-região. Inclui também a milícia Dan Nan Ambassagou, que surgiu como defensora dos Dogon no centro do Mali e é acusada de massacrar aldeões fulani.

O relatório destaca um ataque em 17 de junho de 2017, no qual Dan Nan Ambassagou aplicou represálias pela morte de um de seus integrantes e avançou contra várias aldeias fulani, também chamadas de peuls, e matou pelo menos 39 civis, incluindo crianças.

Esta ofensiva marcou o início dos ataques "sistemáticos" contra os fulani em Koro, segundo o documento.

"A comissão tem motivos razoáveis para acreditar que estes atos constituem um crime contra a humanidade", indica o relatório.

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