Mamífero mais antigo da Terra é identificado no Rio Grande do Sul

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um pequenino animal de 20 cm de comprimento, semelhante a um ratinho, crânio menor de 4 cm e dentes com cerca de 2 mm, que andava pela região central do Rio Grande do Sul, é considerado, hoje, o mamífero mais antigo do planeta.

A descoberta foi feita por pesquisadores da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), com base em análises de microscopia das mandíbulas e dos dentes de fósseis encontrados em Faxinal do Soturno, a cerca de 50 km de Santa Maria (RS).

A cidade é um dos 22 municípios gaúchos situados na área de ocorrência da chamada Formação Santa Maria, uma unidade geológica conhecida mundialmente há mais de um século pela presença de fósseis de vertebrados.

No caso dos "ratinhos" fósseis, acredita-se que esses animais, de nome científico Brasilodon quadrangularis, tenham vivido entre 225 e 220 milhões de anos atrás, no final do período Triássico (que durou de 250 a 200 milhões de anos).

Realizada em conjunto com duas pesquisadoras inglesas do King's College e do Museu de História Natural de Londres, a pesquisa foi publicada na última terça (6) no periódico inglês Journal of Anatomy.

Na verdade, os fósseis foram encontrados em 2003, quando Brasilodon foi descrito na literatura internacional. Naquela época, todavia, ele ainda não era considerado um mamífero.

Mas como é possível saber se um fóssil era de um animal que mamava ou não?

Brasilodon não era considerado um mamífero porque o critério usado pelos paleontólogos para fazer essa determinação não levava em conta se o animal se alimentava ou não de leite -até porque nunca tinha sido possível demonstrar isso em um fóssil-- e sim a presença dos três pequeninos ossos, que transmitem o som para o nosso ouvido (o martelo, a bigorna e o estribo), os quais não estavam ainda diferenciados no fóssil gaúcho.

O dentista Sergio Cabreira, nascido em Faxinal do Soturno, decidiu, em 2004, estudar os dentes desse animal em seu projeto de doutorado, no Programa de Pós-Graduação em Geociências da UFRGS.

Cabreira analisou um conjunto de três mandíbulas de espécimes de Brasilodon de diferentes tamanhos, portanto, em etapas de crescimento distintas, para determinar como se dava o desenvolvimento da dentição daquele animal.

As imagens obtidas por ele em microscópio evidenciaram que Brasilodon tinha apenas uma substituição dentária, com dentes "de leite" que depois eram substituídos por dentes permanentes.

Essa característica, chamada de difiodontia, está presente exclusivamente em mamíferos, o que indica que eles já habitavam o planeta há mais de 20 milhões de anos antes do que se pensava.

Dentista de formação, o paleontólogo Sergio Cabreira, 65, afirma que a descoberta é uma quebra de paradigmas. "Porque é a primeira análise puramente biológica que fez um escrutínio desse arcabouço osso-dentário das mandíbulas desses animais", diz.

Na sua avaliação, a vida biológica não cabe dentro de um algoritmo matemático.

"Ela é mais complexa para classificar seres vivos", diz ele. "O mundo acadêmico jamais imaginou que seria possível fazer esse tipo de trabalho dessa forma. Criamos um novo método direto e objetivo e que, diferentemente da cladística, é totalmente verificável e falseável. Ou seja: nosso método é ciência pura."

Para o geólogo e paleontólogo Cesar Schultz, 61, professor da UFRGS, orientador de Cabreira e que também assina o trabalho, a grande novidade nessa descoberta é que "estamos trazendo evidências de que já existiam animais com uma dentição tipicamente mamífera (e precisavam se alimentar de leite para produzi-los), muito antes do desenvolvimento dos três ossos do ouvido, o que muda a maneira de interpretar os mamíferos fósseis".

De acordo com Schultz, a descoberta é um marco, porque esse mesmo método, baseado na dentição, deverá ser estendido a outros fósseis, o que poderá revelar mamíferos ainda mais antigos no mundo.