Mandado de prisão contra Anderson Torres é o 1º a atingir ex-ministros de Bolsonaro

Brazil's Minister of Justice Anderson Torres walks before a news conference at Headquarters of the Federal Highway Police in Brasilia, Brazil, Brazil October 28, 2022. REUTERS/Adriano Machado
O ex-ministro da Justiça, Anderson Torres. Foto: Adriano Machado/Reuters

O ex-ministro da Justiça Anderson Torres está prestes a se tornar o primeiro ex-integrante do governo Jair Bolsonaro (PL) a ser preso após deixar o cargo.

No pedido de prisão, aceito pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, ele é acusado de sabotar o sistema de segurança para o qual havia sido escalado desde que voltou a ocupar a secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal.

O despacho de Moraes é o documento mais contundente desde que ele se tornou relator dos inquéritos relacionados a milícias digitais e aos atos antidemocráticos gestados sob o bolsonarismo.

Além de Torres, foi determinada a prisão do ex-comandante da Polícia Militar do DF Fábio Augusto Vieira.

Eles são acusados de se eximir de montar um esquema de proteção capaz e deter a turba que chegou aos borbotões a Brasília em ônibus bancados por empresários golpistas. A conduta, segundo Moraes, expôs não apenas o chefe do Executivo, mas também integrantes do Supremo, deputados e senadores.

“Absolutamente nada justifica a omissão e conivência” da dupla, segundo o ministro, que apontou “fortes indícios de que as condutas terroristas criminosos só puderam ocorrer mediante participação ou omissão dolosa” dos responsáveis pela segurança.

Torres, como se sabe, havia trocado o comando da segurança no DF e viajou para os Estados Unidos. O Planalto foi informado de que lá ele se encontrou com Jair Bolsonaro.

A estratégia para conter os golpistas, que publicizavam o que queriam nas redes sociais e cartazes, foi estranhamente alterada no domingo (8/1), dia da invasão aos prédios dos Três Poderes, de última hora. A mudança tirou do caminho da turba uma barreira que impediria o acesso até o Congresso, o Palácio do Planalto e o STF.

Uma reportagem do jornal O Globo, a partir de análises do passo a passo dos golpistas no domingo, mostrou que eles contaram com a ajuda de policiais em diversos momentos. Foram praticamente escoltados até a cena do crime. Ao menos um soldado orientou um grupo a subir a escada que dá acesso ao plenário da Câmara, um dos muitos espaços públicos destruídos pelos criminosos.

A quebra total de confiança em relação ao comando do DF levou o Senado a aprovar a ordem do governo Lula para decretar intervenção federal na unidade da federação. O governador Ibaneis Rocha (MDB-DF), aliado de Bolsonaro, foi afastado por 90 dias do cargo. O novo chefe das forças de segurança no DF, o interventor federal Ricardo Capelli, contou, em entrevista ao jornal O Globo, que todas as informações que o Ministério da Justiça recebeu dos órgãos até então comandados por Torres indicavam que o esquema de segurança montado para a posse de Lula e seus ministros, no dia 1º, seguiram ativos.

Mas houve um desmonte entre uma semana e outra. Torres, segundo o interventor, exonerou uma série de pessoas da secretaria e foi viajar, mesmo tendo autorização para tirar férias apenas no dia 9 de janeiro. “Há fortes indícios de sabotagem”, disse.

Um desses indícios era que a Secretaria da Segurança estava acéfala no momento da invasão. “O secretário viajou por acaso?”, perguntou Capelli.

É a pergunta que todos se fazem nesse momento.

O entorno de Bolsonaro corre, neste momento, para limpar as digitais do ex-presidente das cenas criminosas que o mundo todo assistiu no domingo.

Torres, com quem teria se encontrado nos EUA, é o elo entre a omissão “estarrecedora” e “potencialmente criminosa”, as palavras de Moraes, e o capitão.

No dia em que a PF cumpriu mandado de busca e apreensão em sua residência em Brasília, Torres, que é policial federal, correu para avisar os seus seguidores nas redes sociais que seu celular havia sido clonado – uma estratégia, segundo investigadores, para justificar um possível apagamento de mensagens e dados no aparelho.

A segurança do DF, ao que tudo indica, estava nas mãos de maus policiais e retomar a normalidade exige também a retomada do comando e da confiança de que gente assim não pode jamais estar à frente de pastas estratégicas, seja no nível federal, seja no estadual.

Vale lembrar que foi sob sua gestão como ministro que órgãos subordinados à Justiça, como a Polícia Rodoviária Federal, promoveu uma vergonhosa operação para dificultar o acesso de eleitores do Nordeste às suas seções eleitorais no dia da votação.

Sob o slogan de um patriotismo artificial, eles se tornaram um risco à segurança nacional. As cenas de domingo estão aí para comprovar.