Mandetta diz que Bolsonaro tinha aconselhamento paralelo e avaliou mudar bula de cloroquina

Eduardo Simões e Maria Carolina Marcello
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Meeting of the Parliamentary Inquiry Committee (CPI) at the Federal Senate in Brasilia

Por Eduardo Simões e Maria Carolina Marcello

SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta disse em depoimento à CPI da Covid nesta terça-feira que o presidente Jair Bolsonaro se aconselhava com um grupo paralelo sobre o enfrentamento ao coronavírus, e contou ter participado de reunião no Palácio do Planalto onde foi avaliada possível mudança na bula da cloroquina para utilização contra a Covid-19.

Primeiro a depor à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, Mandetta disse ter pedido, em carta entregue a Bolsonaro em março do ano passado, que o presidente revisse o posicionamento contrário às recomendações científicas, além de alertar para o risco de colapso no sistema de saúde, no sistema funerário e a necessidade de cuidados com as equipes de saúde, entre outros pontos.

Ao relatar as audiências no Palácio do Planalto, Mandetta revelou que o vereador pelo Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente, esteve presente em reuniões de Bolsonaro com ministros. Também relatou que em uma delas viu esboço de decreto para incluir na bula da cloroquina, medicamento para malária e doenças autoimunes, a indicação para tratamento contra Covid-19.

"Eu estive dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião de vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que nunca eu havia conhecido", contou Mandetta à CPI.

"Quer dizer, ele tinha um assessoramento paralelo. Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido, daquela reunião, que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação de cloroquina para coronavírus", acrescentou.

De acordo com Mandetta, o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, também presente à reunião, afirmou que a mudança não poderia ser feita. Diante disso, segundo o relato do ex-ministro da Saúde, auxiliares de Bolsonaro afirmaram que tratava-se apenas de uma "sugestão".

O ex-ministro sustentou em seu depoimento ter alertado o presidente "sistematicamente" sobre a gravidade da pandemia de Covid-19 e sobre as consequências de se ignorar recomendações da ciência.

A parlamentares, Mandetta disse ainda que explicava a situação da pandemia a Bolsonaro e apresentava projeções para o futuro. Uma delas estimava que a pandemia poderia resultar em 180 mil mortes ao final de 2020 -- número ainda inferior aos quase 195 mil óbitos registrados pelo país no ano passado pela Covid.

"O presidente, no mais das vezes, ele compreendia, ele falava: 'Então, vamos, vamos... Dê seguimento!'" disse. "Mas passavam-se dois, três dias, e ele voltava para aquela situação de quem não havia, talvez, compreendido, acreditado, apostado naquela via."

O Palácio do Planalto não respondeu de imediato a um pedido de comentário da Reuters sobre as declarações de Mandetta.

MENOR GRAVIDADE

Ao falar sobre o período em que esteve à frente do Ministério da Saúde, Mandetta disse que tinha uma relação distante com o ministro da Economia, Paulo Guedes, e que "havia telefonemas que não eram respondidos".

Para ele, o titular da Economia tinha uma visão "de muito menor gravidade da pandemia" e estimava que o PIB de 2020 passado só cairia 0,5 ponto percentual, de 2,5% para 2% -- ao final, a economia brasileira encolheu 4,1% em 2020.

Mandetta relatou que ideia corrente fiava-se na tese que haveria um "efeito de rebanho" em termos de imunidade, o que levou o governo federal a conceder um auxílio de 600 reais por 3 a 4 meses, na crença de que logo após esse período a doença se "desfaria".

As declarações levaram o vice-presidente da CPI, o líder da oposição, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), a anunciar a intenção de convocar Guedes à CPI.

PODIA MAIS

Exonerado do cargo por Bolsonaro em abril do ano passado, Mandetta externou que o fato de levar informações negativas ao presidente fazia com que ele fosse visto como um mensageiro de notícias ruins.

O ex-ministro também afirmou que jamais pediria demissão do cargo, por entender que médico não abandona um paciente doente, mas afirmou, ao mesmo tempo, que não negociaria seus valores para permanecer à frente da pasta.

Questionado se a situação da pandemia no Brasil, com mais de 408 mil mortes, poderia ter sido evitada, Mandetta disse que o Brasil poderia ter feito mais por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e poderia ter começado a vacinar contra a doença em novembro do ano passado, embora tenha lembrado que ainda não havia imunizantes no momento em que chefiava a pasta.

"Sim, o Brasil podia mais, o SUS podia mais, a gente poderia mais. Poderíamos estar vacinando já desde novembro do ano passado", afirmou ele em resposta a um dos questionamentos dos senadores.

Mandetta foi o único a prestar depoimento nesta terça, depois que a fala do também ex-ministro Nelson Teich foi transferida para quarta-feira. Originalmente a quarta seria dedicada a depoimento de outro ex-ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, mas fala foi adiada para 19 de maio.

Pazuello, cujo depoimento tem o potencial de causar estrago à imagem do governo, informou ao presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), que teve contato com duas pessoas que testaram positivo para Covid e que, portanto, não poderia comparecer ao depoimento.

(Reportagem adicional de Ricardo Brito e Lisandra Paraguassu)