Manifestação de 12/9: Movimentos que ajudaram a derrubar Dilma têm força para impeachment de Bolsonaro?

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Protestos contra Bolsonaro realizados em 30 de junho
Protestos contra Bolsonaro realizados em 30 de junho; analista aponta que a fragmentação da oposição acaba enfraquecendo a mobilização contra o presidente

O Movimento Brasil Livre (MBL) e o Vem Pra Rua lideraram os atos contra a então presidente Dilma Rousseff, que impulsionaram o processo de impeachment em 2016. Quando começaram a protestar no início de 2015, porém, a derrubada da petista ainda parecia improvável.

O Vem Pra Rua, inclusive, não defendia o impeachment inicialmente, embora participasse dos atos contra seu governo. O movimento pela queda de Dilma, no entanto, foi ganhando fôlego, conforme sucessivos protestos atraíram milhares de brasileiros às ruas, em um cenário de crise econômica e escândalos de corrupção que desgastavam o PT após mais de uma década no comando do país.

Neste domingo (12/09), os dois grupos voltam às principais avenidas do país tentando repetir o feito de cinco anos atrás, dessa vez contra o presidente Jair Bolsonaro. Serão capazes de liderar novamente uma escalada pelo impeachment?

Para analistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil, há elementos potencialmente capazes de catalisar um novo processo de cassação presidencial, como a queda de popularidade de Bolsonaro e a piora da economia. No entanto, na visão desses especialistas, MBL e Vem Pra Rua não têm condições de liderar sozinhos esse movimento. Seria preciso, dizem, uma articulação ampla que agregue as forças de oposição da direita à esquerda.

Isso porque a base que esses grupos lideraram em 2015 e 2016 já não existe da mesma forma. Na verdade, ela rachou, nota o cientista político e professor do Insper Carlos Melo.

"Aquela massa que defendeu o impeachment de Dilma se dividiu porque uma parte está com Bolsonaro. Por outro lado, não vai ser fácil o MBL somar com a parte a quem eles enfrentaram em 2016", afirma Melo. "Uma parte da esquerda não petista, como o Cidadania, o PDT etc., até aceita fazer o ato com eles, mas você tem uma parte que é a esquerda petista, alguns movimentos sociais, que não vão nesse domingo."

Para o professor do Insper, a fragmentação da oposição em dois polos acaba enfraquecendo a mobilização contra Bolsonaro. "Provavelmente, o antibolsonarismo vai se articular em manifestações diferentes. É claro que isso tira o potencial da mobilização", avalia Melo.

A avaliação é a mesma do cientista político Antônio Lavareda, presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais Políticas e Econômicas (Ipespe).

"O MBL liderou em 2016 uma massa que ia do centro à extrema-direita. A eleição de Bolsonaro resultou, em certa medida, desses movimentos (contra Dilma). Uma parte dos atores que estavam nas ruas em 2016 estavam nas ruas no 7 de setembro e certamente não vão estar no sábado", afirma. "Enquanto essa centro-direita não tiver capacidade, nas suas iniciativas, de agregar toda a esquerda, me parece que esses movimentos não poderão vir a ter a mesma expressão de 2016."

Protesto pelo impeachment de Dilma Rousseff, no Rio, em 2015
Protesto pelo impeachment de Dilma Rousseff, no Rio, em 2015; movimento pela queda da presidente foi ganhando fôlego até 2016

Atos da esquerda pelo impeachment têm sido realizados desde o início do ano por Frente Povo Sem Medo, Frente Brasil Popular e Coalizão Negra por Direitos — as três reúnem centenas de sindicatos, movimentos sociais e coletivos negros e de periferia, como Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a UNEAfro.

Josué Rocha, da Frente Povo Sem Medo, disse à BBC News Brasil que a decisão foi por não participar dos atos desse domingo e por convocar outros protestos em breve.

A presidente do PT, deputada pelo Paraná Gleisi Hoffmann, disse em sua conta no Twitter que está em construção com partidos de esquerda (PT, PDT, PSB, PSOL, PCdoB, PV, Solidariedade, Rede e Cidadania) um ato nacional pelo impeachment de Bolsonaro em outra data. O objetivo, segundo ela, é atrair também outros partidos e movimentos que "defendem a democracia".

"Enquanto construímos esta grande manifestação de unidade pela democracia, pelo Brasil e pelos direitos do povo, incentivamos todos os atos que forem realizados em defesa do impeachment. O país está cobrando a responsabilidade do presidente da Câmara (Arthur Lira) pela abertura dos processos", disse ainda a presidente do PT, na rede social.

À BBC News Brasil o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), uma das lideranças do MBL, reconheceu que é necessário unificar diferentes forças políticas para fazer frente aos atos de 7 de setembro, em que Bolsonaro reuniu grande número de apoiadores em São Paulo e Brasília.

Ele disse que não convidou lideranças do PT porque não viu abertura do partido. Por outro lado, chamou outros políticos do centro à esquerda que confirmaram presença e devem discursar neste domingo no ato da Avenida Paulista, em São Paulo, como o pré-candidato a presidente Ciro Gomes (PDT) e os deputados Orlando Silva (PCdoB-SP) e Alessandro Molon (PSB-RJ).

"A gente quer amplificar o máximo possível a manifestação pra que todos aqueles que queiram o impeachment do Bolsonaro participem. É um ato de defesa da democracia, um ato em contraposição ao dia sete (de setembro) e que por isso precisa ser robusto", disse Kataguiri.

Diferenças e semelhanças entre as crises de Dilma e Bolsonaro

Os cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil notam que há diferenças e semelhanças entre o contexto que permitiu o impeachment de Dilma e o cenário atual.

Bolsonaro chegando à manifestação em São Paulo, em 7 de setembro
Bolsonaro chegando à manifestação em São Paulo, em 7 de setembro; presidente tem o apoio de um quarto da população brasileira e construiu aliança com boa parte do Centrão

Uma diferença importante, dizem, é o papel do vice-presidente: enquanto Michel Temer, vice da petista, era uma antiga liderança política, com apoio no Congresso Nacional, o general Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro, não inspira a mesma confiança entre os parlamentares, o que acaba sendo um fator que reduz o interesse em cassar o atual presidente.

Por outro lado, ressaltam os entrevistados, pesquisas de opinião têm indicado queda da popularidade de Bolsonaro, em meio ao grande número de mortes provocadas pela covid-19 (mais de 580 mil) e a piora da economia, com inflação e desemprego elevados.

Para Carlos Melo, do Insper, se a popularidade do presidente continuar recuando e as mobilizações de rua contra ele ganharem dimensão, como ocorreu com Dilma, é possível que ele sofra um impeachment, mesmo com a aproximação da eleição de 2022.

No momento, Bolsonaro mantém apoio de cerca de um quarto da população e construiu uma aliança com a boa parte do Centrão (grupo de partidos da centro-direita, sendo o principal deles o PP, de Arthur Lira e Ciro Nogueira), a partir da distribuição de cargos e verbas federais para investimentos nos redutos eleitorais de deputados. Com isso, ao menos por enquanto, detém os votos necessários para evitar a abertura de um processo de impeachment na Câmara.

Apesar disso, analistas políticos veem um aumento do risco de impeachment na última semana, depois que Bolsonaro radicalizou ainda mais seus ataques ao Supremo Tribunal Federal durante os atos de 7 de setembro, quando chegou a ameaçar não cumprir decisões da Corte.

Dois dias depois, na quinta-feira, ele divulgou uma nota em tom apaziguador. A manifestação reduziu a temperatura da crise, mas não reverteu o desgaste causado no feriado da Independência, avalia o cientista político Antônio Lavareda.

"O presidente mostrou no 7 de setembro, mais uma vez, que suas iniciativas são imprevisíveis. E termina que o grande mobilizador contra o presidente é ele próprio, através da reação (que ele provoca) aos seus atos. Então, as condições para um impeachment vão depender basicamente dele próprio", avalia Lavareda.

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