São Paulo, Minneapolis: o grito de quem não quer morrer sufocado pelo joelho do supremacismo

Protesto de torcidas organizadas contra governo Bolsonaro em SP. Foto: Andre Lucas/picture alliance (via Getty Images)

“Eu não consigo respirar”.

Rendido, com o rosto no chão e o joelho de um policial sobre o pescoço, o pedido de clemência de George Floyd não foi ouvido. O homem negro de 46 anos morreu diante das câmeras. Morreu sem ar, acusado de usar uma nota falsa de 20 dólares.

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Febre, tosse e cansaço são os sintomas mais comuns da síndrome respiratória aguda grave 2, a Sars-CoV-2, na sigla inglês.

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Como o nome sugere, dor e pressão no peito, dificuldade para respirar, perda de fala ou dos movimentos são os efeitos mais graves provocados pelo coronavírus no corpo da pessoa infectada.

A pandemia anunciada pela Organização Mundial da Saúde mudou a rota expansionista do planeta em direção ao confinamento. Deixamos de circular.

No Rio, um jovem negro de 14 anos chamado João Pedro brincava no quintal de uma casa em quarentena quando foi baleado em uma ação policial. Também no Rio, uma iniciativa de voluntários para entrega de alimentos na Cidade de Deus precisou ser interrompida durante um tiroteio. Um jovem de 18 anos, também negro, morreu na operação.

Nos EUA, a morte do homem negro rendido em Minneapolis foi o estopim para uma onda de revolta que parece transformar o filme “Coringa”, de Todd Phillips, em prenúncio. “Vidas negras importam”, voltaram a gritar os manifestantes no país onde as disparidades raciais permeiam todas as áreas do sistema de justiça criminal, inclusive a aplicação das leis de drogas. Segundo a Human Rights Watch, pessoas negras representam 27% de todas as prisões relacionadas a drogas no país, mesmo sendo 13% da população americana e 13% de todos os adultos usuários de drogas. O encarceramento de uns é quase seis vezes maior que a de outros.

Em um relatório recente, a entidade registrou que os indivíduos mais susceptíveis aos abusos nos Estados Unidos são, muitas vezes, menos capazes de defenderem seus direitos nos tribunais ou mesmo por meio da política..

No relatório, a entidade destaca que a gestão de Donald Trump é marcada por ataques a refugiados e imigrantes, chamados de criminosos e de ameaça à segurança, pelo encorajamento a uma política racista por sua ambiguidade no tratamento de manifestações pró-supremacia nacionalista branca e por posições e políticas anti-islâmicas. Sua administração adotou políticas que comprometerão o acesso de mulheres à saúde reprodutiva; defendeu alterações no sistema de saúde que podem deixar mais americanos sem acesso a cuidados de saúde de baixo custo; e enfraqueceu mecanismos que promovem a responsabilização da polícia por abusos. “Trump também expressou desdém pela mídia independente e pelos tribunais federais que têm bloqueado algumas de suas ações. Ele tem repetidamente demonstrado afeição por líderes autocráticos e mostrado pouco interesse ou liderança no avanço dos direitos humanos no exterior”, diz o relatório.

Com tantos joelhos e tantos rostos no chão, os que gritam para respirar lançam chamas ao país há quase seis dias.

O slogan é combatido pelas milícias do cinismo. Em Salt Lake City, um homem branco usou um arco e flecha para mirar em outras vidas e dizer que “todas as vidas importam”. Teve o carro revirado e incendiado como resposta.

No Brasil, as populações historicamente sufocadas assistem há quase dois meses a escalada de tensão entre o governo Bolsonaro e seus ministros, os governadores, o Congresso e, agora mais fortemente, o Supremo Tribunal Federal.

Das janelas de casa surgiam aqui ou ali os primeiros sinais de descontentamento com os esforços de combate à pandemia chamada por ele de "gripezinha".

Perto do Palácio do Planalto, grupos extremistas, um deles armado, chamam ministro do STF para a porrada, pedem prisão de opositores e levantam a bandeira da intervenção militar que daria carta branca para o presidente governar como quer sem ser incomodado -- nem pela imprensa, nem por manifestantes, nem pela Polícia Federal à qual ameaçou interferir e interferiu, causando a demissão de seu ministro da Justiça, Sergio Moro.

“Tão loucos e, ainda bem, tão poucos”, disse o agora ex-ministro diante da mais assustadora das manifestações contra o Supremo, em que integrantes de um grupo extremista promoveu um cosplay da Klu-Klux-Klan em frente à corte, com direito a tochas e máscaras brancas. Foi a mesma Corte que reconheceu, há dois anos, a constitucionalidade das cotas raciais.

Bolsonaro, ídolo da seita, tenta se esquivar, mas até agora não deu uma mensagem clara de seu repúdio aos símbolos supremacistas que pipocam nos atos em sua defesa -- e que ele saúda como um ato dos verdadeiros brasileiros.

Quer transformar em acidentes de percursos os sinais que estão escancarados nas referências a Joseph Goebbels do ex-secretário da Cultura, na minimização da tortura de sua substituta já devidamente fritada, nas insígnias neonazistas que proliferam nas manifestações, no branco do leite que entendedores entenderão das transmissões online, nos recursos (públicos) direcionados a sites aliados que alimentam fake news e paranoias e até na fala do filho sobre rupturas.

A linha da obediência está traçada, e quem não colocou o pescoço à disposição de seu joelho está fora, inclusive dois ministros da Saúde que lembravam diariamente que o capitão não era médico para querer prescrever medicamentos cujos efeitos milagrosos já foram devidamente negados por especialistas.

Na revolução bolsonaristas, nem especialistas nem quem transmite a mensagem de especialistas terão vez.

Até domingo passado, as ruas eram territórios de apoiadores inflamados que confiaram na palavra do líder e desdenhavam os riscos de aglomeração.

Perto das 30 mil mortes, só nas contas oficiais, parte da população sufocada pela falta de auxílio, pelo desdém e pelas ameaças de ruptura ainda teme a pandemia, mas já identificou que ela não será debelada enquanto Jair Bolsonaro for o presidente.

“E daí, o que eu posso fazer?”, escafedeu-se o presidente enquanto prometia churrasco, andava a cavalo ou de jet ski para provar que está com o povo. Que povo?

Na fictícia Bacurau do filme de Kleber Mendonça Filho, os habitantes da localidade prestes a ser apagada do mapa demoram a perceber que estão sendo encurralados, sufocados, com as armas e as tochas apontadas em sua direção. Demoram a ligar os pontos entre a fila de caixões que chega à vizinhança, a aliança de conterrâneos com quem venera a morte e as armas e o desaparecimento paulatino de amigos e familiares.

“São somos com eles”, dizem os colaboracionistas da savana humana do filme.

“Nós somos diferentes”, disse o ministro da Economia na reunião de 22 de abril, sob olhar atento dos colegas que queriam “passar a boiada” na floresta ou que manifestam ódio a termos como “povos indígenas e “povo cigano” -- e que contra eles lançavam slogans do tipo “quer, quer. Não quer, sai de ré".

No filme, os sinais dos ataques um dia deixam de ser paranoia e se tornam cristalinos. A resposta para fugir do cerco está na história dos que lutaram contra os joelhos que agora querem estrangular pescoços sem serem incomodados.

Na vida real, este resgate está hoje na reelaboração de bandeiras das Diretas Já, embora o impasse atual seja resultado de uma eleição direta, mal feita, marcada por tentativas de assassinatos e redes de mentiras cuja origem começa a ser esclarecida.

Está também nos alertas de paralelos históricos, como fez o ministro Celso de Mello ao falar a um grupo de amigos do “ovo da serpente” a ser chocado pelo governo Bolsonaro.

Bolsonaro avisa que a crise se aproxima, ameaça não obedecer as leis do país e deixa claro para todos os comandados que se a justiça não existe, tudo é permitido na lei do mais forte que tem as armas ao seu lado.

Diz que está onde o povo está, mas escolheu um lado do cordão que separava muito mais do que afetos na avenida Paulista.

A resposta à escalada autoritária ensaiada pelo governo foi elaborada por meio de torcidas organizadas, que deixaram de lado inimizades futebolísticas para se unir no mesmo grito pela democracia.  Por “organizadas”, as torcidas são hoje um catalisador de afetos em uma sociedade fracionada e de laços esgarçados pelas relações de trabalho que engoliram sindicatos, por sistemas de ensino a distância que minguaram uniões estudantis e por um sistema pluripartidário que pulverizou a capacidade dos partidos de articularem respostas a impasses contemporâneos.

A primeira marcha acabou em pancadaria, e com o velho ferrolho da criminalização operando de cima a baixo, a começar pelo anúncio de Donald Trump, endossado por Bolsonaro, de transformar grupos anti-fascistas em associações terroristas.

Com tantos gritos antidemocráticos do outro lado da linha, os líderes que apostaram no caos para debelar a crise mostram mais uma vez de que lado estão.

Uns usam a morte, inclusive caixões, como símbolo. Outros dizem que não querem mais morrer.

Este lado pede para respirar. Nem que para isso precise gritar cada vez mais alto. Hoje são a maioria. São quase 70% que perderam o medo de dizer o nome das coisas.

Não querem morrer sufocados nem pelo vírus nem pelos joelhos do supremacismo que já não se envergonham de dizer a que(m) servem.