Manifestações contra Bolsonaro reforçam polarização para 2022

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Manifestação contra Bolsonaro em São Paulo; manifestantes seguram cartaz 'Fora Bolsonaro!'
Atos contra o presidente Jair Bolsonaro foram realizados no último dia 29 de maio em 24 estados e no DF (Photo by Cristina Szucinski/Anadolu Agency via Getty Images)
  • Especialista avalia que manifestações contra Bolsonaro reforçam polarização para 2022

  • Veja como os protestos repercutiram entre a oposição, aliados do governo e o Congresso

  • Atos contra Bolsonaro aconteceram em 24 Estados e no DF

As manifestações de sábado (29) contra o presidente Jair Bolsonaro em 24 estados do país e no Distrito Federal repercutiram no cenário político nacional. Os atos reuniram, pela primeira vez, desde o início da pandemia do coronavírus, um número significativo de manifestantes contrários à atual gestão.

As manifestações de rua da oposição acontecem num momento em que Bolsonaro se vê pressionado pela queda de sua popularidade e elevada taxa de rejeição nas pesquisas de opinião mais recentes. Além disso, a gestão da pandemia da covid-19 é alvo de investigação pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Senado, que avalia a resposta do governo à crise sanitária que já matou mais de 461 mil pessoas no país.

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People attend a protest against Brazil's President Jair Bolsonaro, in Sao Paulo, Brazil, May 29, 2021. REUTERS/Amanda Perobelli
Protesto contra o presidente Jair Bolsonaro em São Paulo, no dia 29 de maio (Foto: REUTERS/Amanda Perobelli)

Mas de que forma os protestos podem influenciar no jogo político?

Segundo a cientista política e pós-doutora em Comunicação Deysi Cioccari, os atos foram bem significativos e deve acender a luz amarela no Planalto. “Por outro lado, isso é um jogo de xadrez e agora os bolsonaristas têm uma arma narrativa”, avalia.

Para ela, com cerca de 10% da população vacinada, “a esquerda entendeu que era hora de tomar as ruas e organizar um ato contra um governo que vinha desidratando naturalmente”.

“Discurso e atitudes se contradizem”, observa, em relação às críticas da esquerda às manifestações bolsonaristas na pandemia e o fato de terem ido às ruas neste momento.

Eleição presidencial em 2022

A adesão às manifestações contra o presidente deram impulso às articulações na oposição para as próximas eleições presidenciais, mas intensificaram o discurso de polarização entre Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não participou da manifestação, embora Lula já tenha se colocado como candidato a presidente em 2022.

Deysi Cioccari acredita que os protestos mostraram a polarização que deve ocorrer em 2022 e como a esquerda ainda está despreparada para enfrentar Bolsonaro no meio digital.

“Em meio a uma pandemia as pessoas se aglomerarem nas ruas não mostra muita inteligência. 2022 tem um cenário muito diferente. Bolsonaro não tem mais a condução de fatores que tinha em 2018. Mas o que estamos percebendo, ainda que cedo, é que a polarização vem cada vez mais forte. O outro é inimigo, não adversário”, diz.

Ex-presidente Lula e atual presidente Jair Bolsonaro aparecem tecnicamente empatados (Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images/ EVARISTO SA/AFP via Getty Images)
Ex-presidente Lula bate o atual presidente Jair Bolsonaro em um eventual segundo turno (Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP via Getty Images/ EVARISTO SA/AFP via Getty Images)

Conta no Congresso pode ficar mais cara

Na visão de especialistas, os atos podem beneficiar o Centrão, que compõe hoje a base aliada ao governo no Congresso, já que, diante de um aumento no desgaste de Bolsonaro, a fatura de apoio fica mais “cara”.

Deysi Cioccari, que é professora da Faculdade Cásper Líbero, aponta que, sem os mesmos componentes situacionais da eleição de 2018, “Bolsonaro vai ter que rifar e rifar caro seu governo”.

“A gente precisa lembrar que o Centrão, percebendo esse desgaste ocasionado pelas manifestações e pela própria desidratação do governo, vai cobrar mais. Eles vão pela situação. Se a população começar a se indignar demais, o Centrão muda de lado sem nem olhar. A menos que se pague muito por isso. E, sem partido, sem base aliada eficiente e sem a conjuntura de 2018, Bolsonaro que abra a carteira”, afirma.

Presidente Jair Bolsonaro, o presidente da Câmara, Arthur Lira, líder do Centrão, e o presidente do Senado Rodrigo Pacheco
Presidente Jair Bolsonaro, o presidente da Câmara, Arthur Lira, líder do Centrão, e o presidente do Senado Rodrigo Pacheco (Photo by Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)

Oposição ganha fôlego

Os partidos de oposição veem nas manifestações uma maneira de fortalecer um eventual processo de impeachment contra Jair Bolsonaro. De olho em 2022, os líderes partidários também ficaram animados com o número significativo de manifestantes, mas evitaram utilizar os atos como instrumentos de campanha.

Em seu discurso durante a manifestação em São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL) defendeu o ato como uma forma de pressionar pelo afastamento de Bolsonaro.

"Chegou a hora de a gente dar um basta, tirar o Bolsonaro do governo porque nós não vamos esperar sentados até 2022. Não vamos esperar ver nosso povo morrendo, sangrando. Vamos seguir até derrubar o genocida Jair Bolsonaro", afirmou Boulos.

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Partidos de centro-direita em silêncio

Já os partidos que buscam viabilizar uma candidatura de “centro”, como uma alternativa de terceira via para o eleitor, comemoraram a mobilização contra Bolsonaro, apesar de não se manifestarem publicamente, principalmente porque os atos foram organizados, em sua maioria, por partidos de esquerda e entidades ligadas à esquerda.

Os políticos desse espectro que deram declarações públicas fizeram questão de criticar aglomerações em um momento em que especialistas alertam sobre riscos de uma terceira onda da covid no Brasil.

Nas redes sociais, o presidenciável e apresentador Luciano Huck escreveu: “O Brasil do bem precisa retomar as cores da sua bandeira. As manifestações de hoje, mesmo inadequadas por estar em meio à pandemia, tinham que ser verde e amarela”.

Luciano Huck se manifestou em uma rede social (Foto: Reprodução)
Luciano Huck se manifestou em uma rede social (Foto: Reprodução)

Aliados minimizam mobilização

O presidente Jair Bolsonaro, nas redes sociais, minimizou os atos e apareceu segurando uma camiseta com a mensagem “imorrível, imbroxável, incomível” - termos usados por ele quando atribuiu a Deus a exclusividade de poder tirá-lo do cargo.

Publicação de Bolsonaro em uma rede social
Publicação de Bolsonaro em uma rede social

Os aliados aproveitaram para acusar a oposição de promover aglomerações, enquanto criticam Bolsonaro por esse motivo.

Para a deputada Carla Zambelli (PSL-SP), a adesão foi baixa em muitas cidades, menos São Paulo, que teve uma quantidade expressiva de manifestantes. 

"A narrativa de que o presidente e seus aliados são "genocidas" caiu por terra com a própria movimentação deles, uma vez que eles sempre nos criticaram por nossos atos, e agora quem aglomerou foram eles. Detalhe: sequer se preocuparam em falar das ações dos governadores, o que é, no mínimo, estranho", avaliou.

No entanto, a parlamentar não acredita que as manifestações possam levar ao impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

"Para afastar um presidente da República é preciso mais que isso. Precisa ter crime de responsabilidade confirmado pelo TCU, além de vontade política. E nada disso existe, nem existirá, pois temos um presidente honesto e atento às necessidades da Nação", concluiu.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) ironizou, nesta segunda-feira (31), as manifestações contra o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) realizadas em todo o país, no último fim de semana. Questionado, Mourão indagou: "Tem aglomeração do bem agora?".

“A gente sabe que tem oposição. Tem um núcleo duro aí que não gosta do nosso governo. Agora, foi aglomeração, né? Tem aglomeração do bem agora? Não tem! Distanciamento nenhum ali”, disse o general, na chegada ao Palácio do Planalto.

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também se manifestou em seu perfil em uma rede social.

"O tal #29M serviu para comprovar o que sempre falamos aqui: a esquerda só critica aqueles que vão as ruas porque não consegue levar quase ninguém para as ruas. Daí restava a eles mentir dizendo que não o faziam por conta da pandemia. Ontem mais uma máscara caiu...", escreveu.

No entanto, dizem nos bastidores que Bolsonaro sentiu o golpe. A última pesquisa Datafolha mostrou que Lula aparece em vantagem para a disputa ao Palácio do Planalto em 2022.

Em entrevista, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), importante líder do Centrão, admitiu o mau momento de Bolsonaro. “Hoje, Bolsonaro não seria reeleito”. Ele, porém, acredita que a retomada da economia pode melhorar a aprovação do presidente.

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