Manifestantes pelo país fazem 3º ato contra Bolsonaro em 35 dias e destacam denúncias de corrupção; SP reúne 5.500, diz governo paulista

·7 minuto de leitura
SÃO PAULO, SP, 03.07.2021 - PROTESTO-SP: Manifestantes durante ato contra o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na avenida Paulista, região central de São Paulo, neste sábado. Vários movimentos se reúnem em manifestações por todo país, pedindo o impeachment do atual governante do Brasil. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)
SÃO PAULO, SP, 03.07.2021 - PROTESTO-SP: Manifestantes durante ato contra o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na avenida Paulista, região central de São Paulo, neste sábado. Vários movimentos se reúnem em manifestações por todo país, pedindo o impeachment do atual governante do Brasil. (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

RIO DE JANEIRO, RJ, SÃO PAULO, SP, RIBEIRÃO PRETO, SP E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Manifestantes realizaram neste sábado (3) o terceiro ato em 35 dias pelo impeachment do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Todas as 27 capitais registraram a ocorrência de protestos.

Foi a primeira mobilização desde que um superpedido de impeachment foi protocolado na Câmara dos Deputados, na última quarta-feira (30), e após novas denúncias de corrupção na compra de vacinas contra a Covid-19 pressionarem o governo federal.

As revelações de supostas irregularidades ganharam destaque na pauta dos atos, com faixas, cartazes e camisetas afirmando “Bolsonaro corrupto” e “Sua vida vale um dólar”, em referência a pedido de propina de um servidor do Ministério da Saúde em negociação de vacina, conforme revelado pelo jornal Folha de S.Paulo. No ato em São Paulo, foram espalhadas réplicas de cédulas de US$ 1 manchadas de vermelho.

Os atos foram preparados às pressas, depois que as organizações que puxam a iniciativa decidiram antecipar a mobilização. Até então, o ato seguinte seria em 24 de julho, mais de um mês depois do protesto de 19 de junho. A manifestação do dia 24, no entanto, está mantida.

Em São Paulo, o ato deste sábado reuniu 5.500 pessoas na avenida Paulista, segundo estimativa da Secretaria da Segurança Pública do estado. A pasta afirmou que 9.000 pessoas participaram da manifestação anterior, em 19 de junho.

Para efeito de comparação, a motociata que Bolsonaro realizou na capital paulista em 12 de junho reuniu 12 mil motos, também segundo a SSP, enquanto o sistema de monitoramento da rodovia dos Bandeirantes registrou 6.661 passagens de veículos naquele dia.

Segundo os organizadores das manifestações deste sábado, foram realizados 352 atos em 312 cidades do Brasil, em todos os estados e no Distrito Federal, e 35 no exterior em 16 países. Ainda conforme a coordenação, as manifestações reuniram ao todo cerca de 800 mil pessoas.

Em junho, de acordo com os organizadores, houve no total 227 atos, distribuídos em 210 cidades no Brasil e 14 cidades no exterior.

Ao comentar os protestos, o presidente da CPI da Covid, senador Omar Aziz (PSD-AM), disse à reportagem neste sábado que o "gigante está abrindo os olhos". "Quando ele acordar vai ser que nem fogo acima, água abaixo, ninguém segura mais o povo."

A deputada Tabata Amaral (sem partido-SP) e o movimento Acredito distribuíram bandeiras do Brasil no ato em São Paulo. Segundo a congressista, que participa dos protestos pela primeira vez, o objetivo é "tirar o monopólio que Bolsonaro tenta ter sobre os símbolos do Brasil".

Em São Paulo, o ato que teve início por volta das 15h foi em sua grande parte pacífico, mas houve episódios de depredação e confronto entre policiais e alguns manifestantes no encerramento.

No início da noite, um grupo ateou fogo em uma agência bancária no centro. Ao menos outra agência foi depredada, além de dois pontos de ônibus e uma vidraça da Universidade Mackenzie, na rua da Consolação, na região central. Depredadores também entraram em confronto com seguranças da estação Higienópolis-Mackenzie, da linha 4-amarela do metrô.

Segundo a ViaQuatro, concessionária da linha, oito seguranças sofreram escoriações —cinco deles foram levados para a Santa Casa.

Mais cedo durante o protesto, um grupo com cerca de 15 pessoas vestindo camisetas do PCO atacou manifestantes do grupo da diversidade do PSDB com pauladas, além de atirar ovos e tomates, afirmaram testemunhas.

Em Brasília, participantes do ato pediam que o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), abra um dos processos de impeachment protocolados na Casa. "Lira, tira a bunda de cima do impeachment", gritavam os manifestantes.

Havia cartazes classificando o governo como corrupto, pedindo a ampliação da vacinação contra Covid-19 e lembrando familiares ou amigos que morreram por complicações decorrentes da doença.

No Rio de Janeiro, o protesto durou aproximadamente três horas. Começou por volta das 10h e ganhou mais participantes por volta das 11h30, chegando a ocupar três das quatro pistas da avenida Presidente Vargas, no centro. Apesar de aglomerações em alguns momentos, foi mais esvaziado do que o do dia 19.

Camisetas de apoio ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) eram vendidas no ato carioca.

No Recife, palco de forte repressão policial no protesto de 29 de maio, o ato transcorreu sem incidentes. Além de pedir o impeachment de Bolsonaro, os manifestantes na capital pernambucana empunhavam cartazes pedindo a aceleração da vacinação contra a Covid. Uma das faixas exibia a mensagem “Ninguém aguenta mais! Fora Bolsonaro e seus generais”.

Em Belém, o ato contou com a presença do prefeito Edmilson Rodrigues (PSOL). "Participei das manifestações democráticas contra a política genocida do governo Bolsonaro e em homenagem às mais de 520 mil vítimas da Covid-19 no Brasil. Por vacina para todos e todas e comida no prato do povo", disse.​

Em Porto Alegre, o protesto teve como um dos alvos a suspeita de cobrança de propina na negociação para compra de vacinas contra a Covid-19, revelada pela Folha de S.Paulo.

"Nós todos temos um compromisso. Quando genocídios acontecem, cabe a nós que sobrevivemos sermos a memória dos que se foram. São 520 mil brasileiros e brasileiras, são pais, são mães, são avós, são filhos que não contarão a sua história", disse na concentração do protesto Manuela D'Ávila (PC do B).

Em Maceió, manifestantes carregaram um caixão no ato contra Bolsonaro. Uma faixa foi estendida com dizeres “Fora Bolsonaro. Por vacina no braço e comida no prato”.

Manifestantes também foram às ruas de Ribeirão Preto (SP) neste sábado pedindo impeachment, vacinação em massa e a não privatização dos Correios. Eles utilizaram máscaras e ao menos um voluntário distribuía álcool em gel, mas houve aglomerações em alguns momentos.

Em Campinas (SP) e em Franca (SP), grupos saíram em passeata pelas ruas, enquanto em Tatuí (SP) os manifestantes fizeram uma carreata com centenas de veículos decorados com balões e bandeiras, a maioria na cor vermelha.

As manifestações foram convocadas por movimentos sociais e partidos de esquerda, que têm buscado ampliar a adesão de alas da direita e do centro contrárias a Bolsonaro. Embora não seja a posição majoritária, parte dos líderes resiste à entrada de novas cores ideológicas.

Os organizadores atribuem a diminuição no número de atividades ao prazo curto que tiveram para preparar a nova rodada. De maio para junho, a quantidade de atos tinha quase dobrado.

Partidos como o PT do ex-presidente Lula —hoje o maior adversário de Bolsonaro para as eleições de 2022—, o PSOL e o PC do B estão envolvidas na organização desde maio, em conjunto com frentes como a Povo sem Medo, a Brasil Popular e a Coalizão Negra por Direitos, que reúnem centenas de entidades.

No lado dos mobilizadores, uma das principais novidades foi a entrada do diretório municipal de São Paulo do PSDB, anunciada ao longo da semana por seu presidente, Fernando Alfredo. O diretório nacional do partido, no entanto, manteve a decisão de não participar ativamente da convocação.

Setores ou dirigentes de siglas como PSL, PV e Avante decidiram endossar os atos, uma novidade em relação a junho. Já estavam nessa situação: PDT, PSB e Rede Sustentabilidade. O Cidadania é o único partido mais ao centro que decidiu, em ato do presidente nacional, Roberto Freire, apoiar os protestos.

A avaliação geral é a de que o presidente da República perdeu de vez um fundamento estruturante de seu discurso, o de que seu governo não tinha casos de corrupção —embora a tese já fosse contestada a partir de investigações de ministros e de filhos por suspeitas da prática de “rachadinha”.

Grupos à direita, como o MBL (Movimento Brasil Livre) e o VPR (Vem Pra Rua), que capitanearam manifestações contra governos do PT e em favor da Operação Lava Jato, até aqui se mantiveram fora da convocação, apesar de assinarem pedidos de impeachment de Bolsonaro.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos