Mansur: Consagração do Flamengo na Libertadores prova como o futebol é um jogo indomável

Carlos Eduardo Mansur

Por mais surreal que tenha sido o enredo, por mais dramático o desfecho, quando se revê uma partida disputada seja há seis meses ou seis anos, o fator surpresa já não existe. É uma outra experiência, em que a atenção por vezes é despertada por aspectos cruciais que se perdem na efervescência do momento. Ou mesmo por reflexões sobre a natureza do jogo. E é justamente este o primeiro aspecto que vem à mente após rever o Flamengo 2 x 1 River Plate: o quanto o futebol é um jogo de margens pequenas.

Foi possível experimentar esta sensação algumas vezes neste período de quarentena em que as reprises vinham sendo a única forma de combater a abstinência. Por melhores, por mais dominantes que tenham sido as equipes que ficaram na história, o futebol não se permite controlar o tempo todo. Em cada caminhada há um lance, um pormenor, um centímetro para cá ou para lá capaz de determinar quem ganha ou quem perde. A história consagra os vencedores, condena a imensa maioria dos derrotados, mas esquece que a rota poderia ser desviada por um capricho do destino. É uma lição sobre a forma como anlisamos futebol.

A seleção pentacampeã em 2002 viu a Bélgica ter um gol mal anulado nas oitavas e levou uma bola na trave na final com a Alemanha; a de 1970 esteve a ponto de sofrer o 2 a 2 do Uruguai numa cabeçada que parecia gol certo antes de Rivelino decretar o 3 a 1 na semifinal; a de 1982 viu a Itália fazer dois de seus três gols em lances contra a maré do jogo, que não se explicam pelo duelo tático: um passe errado cruzando a frente da área e uma cabeçada para trás que terminou no escanteio fatal.

Deste passeio no tempo chegamos a Lucas Pratto. O local do campo em que recebe a bola a menos de três minutos do fim e a escolha de jogada que faz não se explicam pela situação da partida, tampouco por suas próprias características como jogador. Não fosse aquele passe errado e a condução equivocada de bola, muito provavelmente a taça da Libertadores não tivesse viajado para o Rio. Ter construído um grande elenco, ter um time tão acima da média do continente, ter o trabalho espetacular de Jorge Jesus, ser a melhor equipe em desempenho na América do Sul na temporada, nada disso teria sido suficiente. Porque de futebol se trata. Mas teria sido justo, num outro desfecho, dar menos reconhecimento ao trabalho feito pelo Flamengo? Obviamente que não. Mas quase todos os campeões, por melhores que tenham sido, em algum momento pisaram a fronteira entre a consagração e o desapontamento.

Outra questão que salta aos olhos revendo o jogo é o quanto os momentos mais agônicos do duelo de Lima pareceram pouco com o que nos habituamos a ver em decisões nas quais um time tem vantagem e outro corre contra o tempo atrás de um gol. Não havia mais aquela concentração de jogadores por metro quadrado, um time defendendo sua área e outro alugando a metade de campo rival. Especialmente nos últimos sete ou oito minutos, já não existia meio-campo, havia uma ida e volta de uma área a outra.

Hoje técnico do Santos, Jesualdo Ferreira, que à ocasião era comentarista no Canal 11, de Portugal, usou uma expressão para definir o que o Flamengo e Jorge Jesus tentaram fazer naqueles minutos finais: "partir a equipe". A sua e, por consequência, o oponente.

A pressão sufocante sobre a bola que fizeram o River Plate superar o Flamengo em grande parte do jogo deixara de existir. Até então, em dificuldade para ter sequências de passes em sua construção de jogadas, o rubro-negro era descontínuo, não tinha fluência. Não encontrava seu jogo numa partida picotada. Até os argentinos sentirem tanto esforço mas, mesmo cansados, recusarem-se a abdicar de sua identidade. Seguiram apostando na marcação no campo ofensivo, por vezes expondo seus zagueiros ao mano a mano.

Jesus primeiro colocou Diego no lugar de Gérson. Depois, perto do fim, Vitinho na vaga de Arão. Abrira mão de volantes de origem, tentava melhorar o passe, mas também acumular jogadores com capacidade de decisão na frente. Aos poucos, havia mais razões para o River, que já acrescentara um homem mais defensivo na lateral esquerda, ter mais precauções. O próprio posicionamento do Flamengo, com todos os riscos envolvidos, abria e descongestionava o jogo. A partida se espaçava mais. O rubro-negro teve chances de fazer gol antes, mas também poderia ter sofrido. O risco era inerente à ocasião.

Mas tornou-se uma curiosa decisão em que a bola apenas viajava pelo meio-campo, raramente se detinha ali em longas disputas. E o jogo direto, tão característico do River Plate, terminou por servir ao Flamengo - como ilustram os dois gols da virada. Onde em tese faltaria campo, acabou sobrando.

E assim, o futebol mostrou como por vezes é decidido por uma complexa mistura de fatores. O jogo era terrivelmente difícil para o grande time que o Flamengo levou a Lima. Até que, com o passar do tempo, a estratégia passou a encaixar, o físico jogou a favor, a qualidade técnica transbordou no lance do gol de empate, o destino fez sua parte... Não se explica esse jogo indomável de uma única maneira. Mas o melhor time que a América do Sul viu jogar em 2019 levantou o troféu.