Manter calendário de vacinação contra outras doenças é 'dilema cruel' em meio à pandemia da Covid-19, diz especialista

Audrey Furlaneto

RIO - “Um dilema cruel.” É como Thabani Maphosa, diretor da Aliança Global de Vacinação (Gavi), define a situação que enfrentam organizações internacionais de imunização em meio à pandemia de coronavírus. Manter os programas de vacinação em massa para controlar doenças pode dissemar ainda mais a Covid-19. “Encerrá-los”, por outro lado, é “arriscar mais mortes por doenças evitáveis, como sarampo, poliomielite e febre amarela”, alerta Maphosa.

O dilema ganhou corpo quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou, em 26 de março, que os países suspendessem temporariamente campanhas de vacinação durante a pandemia, exceto em casos de doenças em surto. Dias antes, a Iniciativa Global para a Erradicação da Poliomielite já havia recomendado que fossem suspensas as campanhas até o segundo semestre.

Em sua recomendação, porém, a OMS pediu que os países mantivessem suas vacinas de rotina, priorizando crianças e, no caso da influenza, adultos. No Brasil, o Ministério da Saúde suspendeu a imunização de rotina brevemente, entre 23 de março e 15 de abril, durante a primeira etapa da vacinação contra a gripe, a fim de evitar a exposição de crianças nos postos de saúde.

Nesta terça-feira, a Opas, divisão da OMS para a América Latina, emitiu um alerta para que os países mantenham seus calendários da vacinação em meio à pandemia do coronavírus.

"Se falharmos com a imunização de rotina, sobretudo em crianças, corremos o risco de outros surtos, sobrecarregando ainda mais hospitais e clínicas com casos de doenças que podem ser prevenidas", disse a diretora da Opas, Carissa Etienne.

Para Maphosa, que coordena os programas da Aliança Global de Vacinação em 73 países, “o dilema central agora é como responder à Covid-19 sem perder os ganhos obtidos contra doenças evitáveis por vacinas”.

Como o senhor descreve o dilema da imunização para doenças evitáveis em meio a uma pandemia?

Este é o maior teste que os sistemas de saúde enfrentaram na História. é um dilema cruel: manter os programas de imunização em execução e arriscar a disseminação da Covid-19, ou encerrá-los e arriscar mais mortes por doenças evitáveis, como sarampo, poliomielite ou febre amarela. O dilema central é como responder efetivamente ao coronavírus sem perder os ganhos obtidos contra doenças evitáveis por vacina. Algumas das medidas para o combate à Covid-19, como os lockdowns, não são apenas difíceis de implementar, mas também dificultam a sustentação da imunização de rotina. Por outro lado, tem um ponto positivo: em lockdowns, a transmissão de algumas doenças pode ser interrompida.

As campanhas de vacinação em massa são a única chance para muitas crianças em países pobres serem alcançadas pela vacina. Quais as consequências de suspender isso?

O pior cenário é que países com sistemas de saúde já esgotados acabem combatendo mais de uma epidemia ao mesmo tempo. É por isso que trabalhamos duro para manter a imunização de rotina. No entanto, se as taxas de cobertura caírem, temos que aceitar que há um risco muito real de ressurgirem picos de doenças como sarampo, poliomielite e febre amarela. Nesses casos, é absolutamente essencial que possamos reiniciar as imunizações o mais rápido possível.

É possível manter a imunização de rotina de crianças, tendo em vista que os sistemas de saúde em vários países já estão sobrecarregados pela pandemia?

Embora alguns países com poucos casos (de coronavírus) continuem a imunização de rotina, com diretrizes adicionais quanto à lavagem das mãos e o distanciamento físico, precisamos reconhecer que isso não é possível em países com lockdowns totais. No caso desses países, já estamos trabalhando para ajudar a garantir que, assim que a crise terminar, possamos reiniciar as campanhas e recuperar o tempo perdido. A Aliança Global de Vacinação, em parceria com a OMS, Unicef e o Banco Mundial, disponibilizou US$ 200 milhões em fundos emergenciais para ajudar 23 países a combater a pandemia e apoiar os sistemas de saúde.

No Brasil, o Ministério da Saúde chegou a recomendar que os pais deixassem de levar seus filhos aos postos de saúde para vacinar (até 15 de abril). Mas o país vive um surto de sarampo. Qual é o risco de se adiar a vacina para essa doença?

O sarampo é uma das doenças mais contagiosas que conhecemos. A sociedade precisa de cobertura vacinal de até 95% para eliminar efetivamente a doença por meio da chamada imunidade do rebanho. É por isso que é crucial que, mesmo que o país precise interromper os programas de imunização a curto prazo, esteja pronto para reabrir esses programas assim que for seguro fazê-lo e com campanhas para garantir que as crianças que perderam as vacinas as recebam assim que a crise imediata terminar.

Quantos países já suspenderam suas campanhas de vacinação contra o sarampo?

A Iniciativa contra o Sarampo e a Rubéola, financiada pela Aliança Global de Vacinação, estima que 117 milhões de pessoas em 37 países, muitos dos quais vivem surtos de sarampo, correm o risco de perder as vacinas contra a doença devido à Covid-19.

A vacinação contra o sarampo continua, por exemplo, no Congo, onde ocorre o maior surto de sarampo do mundo. É possível fazer a vacinação de forma segura?

De fato, a República Democrática do Congo atualmente enfrenta o pior surto de sarampo do mundo, com mais de 300 mil pessoas infectadas. Dada a escala deste surto, o governo merece elogios por continuar vacinando contra o sarampo, apesar da pandemia do coronavírus. E, sim, eles estão fazendo isso com diretrizes firmes sobre distanciamento físico, lavagem das mãos e equipamentos de proteção, quando disponíveis.