Mapa de detratores é atestado de estupidez com dinheiro público

Matheus Pichonelli
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Brazil's Minister of the Secretariat of Government Luiz Eduardo Ramos, Brazil's Economy Minister Paulo Guedes, Government Secretary Jorge Antonio de Oliveira Francisco and Brazil's President Jair Bolsonaro talk during a ceremony at the Planalto Palace in Brasilia, Brazil November 26, 2020. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro com seu ministro Paulo Guedes. Foto: Adriano Machado/Reuters

Em seu discurso de posse, em 1º de janeiro de 2019, Jair Bolsonaro prometeu lutar por uma sociedade sem discriminação, sem divisão e sem “amarras ideológicas”.

Quatro meses depois, ele fez o que pode para barrar uma propaganda do Banco do Brasil que falava sobre diversidade. “A linha mudou, a massa quer respeito à família. E nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira”, justificou.

Antes da metade de seu mandato, o governo Bolsonaro achou que seria uma boa ideia destinar dinheiro público para contratar uma empresa de comunicação para fazer um “mapa dos influenciadores” nas redes sociais. O mapa fazia exatamente o que o presidente prometia não fazer em sua posse: discriminava e dividia influenciadores a partir de amarras ideológicas.

Pela régua, os influenciadores eram discriminados entre “apoiadores”, “neutros” e “detratores”. A lista de quem era quem poderia ser feita por qualquer estudante minimamente alfabetizado em troca de um salgado no fim da aula. Mas foi feita por uma empresa de comunicação que tem contrato de R$ 2,7 milhões com o Ministério da Ciência e Tecnologia --e produziu o relatório de inteligência (sic) ao Ministério da Economia por um termo de execução descentralizada.

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O episódio é grave em diversos aspectos. O maior deles, claro, é o uso explícito da máquina e da linguagem típica de regimes autocráticos para monitoramento de opositores. É o que fazia o extinto Serviço Nacional de Informação (SNI), instrumento da ditadura usado para perseguir quem afirmava em voz alta que o rei, no caso os generais, estava nu. Isso hoje é feito diariamente no Twitter por quem, em muitos casos, passa longe de vestir a fantasia de comunista.

Mas há um aspecto também no episódio que deveria fazer corar aquela prima patriota que bateu no peito em janeiro de 2019 para dizer que a boquinha acabou, que as decisões agora seriam pautadas pela competência técnica e pela isenção e que as tais amarras ideológicos eram coisa dos governos que avacalharam com tudo, inclusive o respeito ao dinheiro público.

A lista de “detratores” do regime -- digo, do governo-- é um entre tantos exemplos de ações concretas que desmentem as expectativas por alguém eleito para “mudar tudo isso que está aí”. O trabalho feito a custo de dinheiro público é caro, mal feito e até agora não tem nada que o justifique.

Em sua página no Facebook, o jurista e professor de Direito Constitucional da PUC-SP Pedro Serrano afirmou ser óbvio que tanto o contrato quanto o relatório são inconstitucionais e tipificam improbidade, “além do fato de que evidenciam uma imensa burrice de quem teve a ideia de realizar a contratação”.

Em meio a tantas lendas da mitologia bolsonarista --que tem, por ironia, um autodenominado “mito” como personagem principal --está a ideia de que, entre tantos nacos do governo oferecidos à chamada ala ideológica, ruim de ideias e ruim de serviço, havia ilhas de excelência cercadas de mediocridade por todos os lados. Paulo Guedes seria um dos notáveis de um governo que, como Elio Gaspari lembra sempre, acredita ser possível transmitir energia elétrica sem fio, aposta na jogatina para alavancar a arrecadação e que queria comprar 117 laptops para cada um dos 255 alunos de uma escola pública num edital até hoje não explicado.

Para quem já percebeu que ali a notoriedade é bem outra ainda dói ouvir o Posto Ipiranga detalhar na reunião de 22 de abril sua ideia para botar adolescente para cantar o hino e construir estrada no intuito de levantar a economia já sob impacto da pandemia.

Não tem relatório sobre o que dizem os influenciadores no Twitter que dê conta de refluir a má fama.

Nesta quinta-feira 3, o IBGE informou que o PIB do terceiro trimestre cresceu 7,7%, índice abaixo da expectativa do governo e de analistas diante da base deprimida do período anterior.

Em relação ao mesmo trimestre de 2019, a queda foi de 3,9%.

Dias antes, Guedes disse que em 2021 será possível crescer de 3% a 4% “se não fizermos besteira”.

Besteira por besteira, o ministro pode começar explicando o que justifica usar dinheiro público para pagar um relatório que poderia ser feito por ele mesmo com dez minutos de pesquisa.

Vai ter tempo para isso caso seja aprovada a CPI que a deputada Jandira Feghali (PCdoB) pretende instalar no Congresso.

A comissão, segundo disse ela ao blog do jornalista Rubens Valente, o primeiro a noticiar o relatório, deve apurar, além dos valores gastos, quais agentes políticos estão envolvidos neste tipo de monitoramento e para quê. Detratores ou não, todos queremos saber.