Site mapeia histórias e curiosidades do bairro da Glória, que reúne mais de 150 bens preservados e tombados

Ludmilla de Lima
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A museóloga Mariana Várzea, ao se mudar para uma cobertura na Glória, ficou impactada pela vista da sua varanda: de uma ponta a outra, a paisagem é repleta de patrimônios históricos, que vão da Igreja do Outeiro, do século XVIII, às amendoeiras da Praça Paris. Sim, no bairro há até mesmo árvores protegidas em lei. Mariana passou, então, a mapear todas essas joias e chegou à conta de 120 bens preservados e 32 tombados num espaço de 1,14 quilômetro quadrado.

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A partir desse apego pelo ambiente cultural do bairro, ela deu luz um a projeto na internet que é um verdadeiro tour por esse pedaço da cidade. O portal Ó Glória! — www.ogloria.art.br — entra no ar na segunda-feira trazendo à tona um passado que começa pelas aldeias tupinambás da região.

— A Glória é um dos bairros com maior densidade de bens tombados e preservados por metragem quadrada do Rio. Considerando, inclusive, o Parque do Flamengo. E dentro de bens tombados, como a Praça Paris, temos vários outros monumentos — ressalta Mariana, mestre em história da arte e doutora em museologia, contando como surgiu sua ideia. —O projeto nasceu de eu olhar da janela e dizer: a Glória reúne gente do Rio todo, além de turistas, em momento não pandêmicos, seja na famosa feira, seja nos blocos; imagina se essas pessoas conhecessem um bocadinho a mais da história dessa região e desses patrimônios?

A Glória é repleta de histórias marcantes desde os primórdios da cidade. Na área da Praça do Russel, se deu a sangrenta batalha de Uruçumirim (como era chamada uma fortificação localizada onde está hoje o Outeiro), que marcou a expulsão dos franceses do Rio, no dia 20 de janeiro de 1567. Foi lá que Estácio de Sá tomou a flechada que depois lhe tiraria a vida e que milhares de índios acabariam mortos. O curioso é que na praça, onde há monumentos como a São Sebastião e o “cabeção” de Getúlio Vargas, não há nada que lembre os indígenas.

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O historiador Paulo Knauss, professor da UFF e ex-diretor do Museu Histórico Nacional, diz que a Glória guarda camadas de história:

— A Glória é um laboratório histórico da cidade. Ela vai de vila de pescadores com sua via rústica a lugar que vive intensamente toda a modernização do início do século XX, passando pela época dos palacetes no século XIX. Você pode ler grande parte da história do Rio pelo bairro da Glória — afirma Knauss, que chama de “Grande Glória” a região da antiga freguesia da Glória, que ia da Lapa a Botafogo.

O inusitado é que, com as mudanças da cidade, a Igreja Matriz da Glória está localizada hoje no... Largo do Machado. Mas, dentro do bairro, há tesouros a serem explorados. Um pouco conhecido e que Mariana incluiu no Ó Glória! é a construção de pedra de 1864 que abrigou a primeira estação de tratamento de esgoto das Américas (atual sede da Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado), na Rua do Russel. Mais badalada é a Villa Aymoré. conjunto de casas do início do século XX que abriga um coworking e galeria de arte.

Um marco do bairro é o relógio instalado em 1905 pelo prefeito Pereira Passos:

— Foi o primeiro relógio elétrico do Brasil, e na época sequer havia iluminação elétrica nas ruas da Glória. A solução para ligá-lo foi fazer fazer um “gato” na rede elétrica dos bondes da Companhai de Ferro Carril do Jardim Botânico — explica Mariana.

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Ela ressalta que bairro conta com um dos maiores símbolos da belle époque — a Praça Paris, nossa “Versailles” — e também do modernismo.

— Mais da metade do Parque do Flamengo está dentro do bairro, incluindo o Museu de Arte Moderna. E, olha que interessante: grande parte da Glória é de parques e jardins — completa a museóloga, que trabalha há dois anos no portal, viabilizado por meio de lei de incentivo municipal e com patrocínio da Rede D’Or, que hoje restaura o antigo complexo da Beneficência Portuguesa, do século XIX, que vai virar instituto de pesquisa e ensino na área da saúde.

O site também tem informações sobre arquitetos e paisagistas que deram forma a patrimônios importantes do bairro, além de um passeio de drone ao som de um sambinha feito especialmente para a Glória. Uma dica: é possível imprimir na página o mapa e "turistar" a pé pela região; mas, em temposs pandêmicos, o melhor mesmo é viajar pelo passado da Glória em casa.