Março já é o mês mais mortal da pandemia e cientistas falam em 'crise humanitária'

Bruno Alfano
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RIO - Faltando 12 dias para o fim do mês, março já acumula o maior número de mortes no Brasil desde o início da pandemia. São 35.507 óbitos até agora. E o ritmo só tem acelerado: a média móvel bate recordes há 21 dias seguidos e ultrapassou a marca de dois mil nesta semana. No atual ritmo, serão mais de 57 mil vidas perdidas até 1º de abril.

A explosão — só na última semana foram mais de 15 mil mortes — levou ao colapso nacional do sistema hospitalar, de proporções inéditas na história brasileira segundo a Fiocruz.

Até agora, julho havia sido o mês com o maior número de mortes, com 32.912 vidas perdidas para a doença. Marcelo Mendes Brandão, do Laboratório de Biologia Integrativa e Sistêmica da Unicamp, ressalta que desde dezembro o Brasil vem facilitando a vida do vírus.

— E a nossa bomba foi montada em fevereiro. Ali acendemos o pavio para a explosão de março, com a combinação de negacionismo ao extremo, hospitais começando a lotar por conta de infecções crescentes desde o Natal, Carnaval com políticas de fechamento relaxadas, cepas novas, isolamento baixíssimo e fluxo de pacientes entre regiões — afirma.

As projeções do pesquisador da Unicamp, considerando a quantidade de pacientes que ainda aguardam na fila, apontam que o colapso do sistema de saúde deve persistir pelos próximos 21 dias — e não cairá caso o nível de contaminação permaneça alto. Na quarta-feira, o número de casos registrados foi recorde.

— E quanto mais a gente incrementar o número de doentes, mais para frente vamos empurrar o fim do colapso — analisa.

Em seis estados, Bahia, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia e Santa Catarina, o número de mortes em março já é maior do que em qualquer outro mês da pandemia.

Outros 12 estados, Acre, Alagoas, Ceará, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, São Paulo e Tocantins, além do Distrito Federal, já têm mais mortes em março do que em janeiro ou fevereiro desse ano.

A maior explosão de mortes foi no Rio Grande do Sul. Antes de março, o mês com maior número de óbitos no estado havia sido em janeiro desse ano, com 1.797 casos. A 12 dias do fim do mês, 4.115 gaúchos já perderam a vida em março, mais do que o dobro da marca anterior.

E março também tende a ser recorde em número de diagnósticos positivos. O mês já possui 1,237 milhão de infecções registradas. O recorde de contaminações foi em janeiro, com 1,527 milhão de infecções no mês. No atual ritmo, março pode terminar com até 2,130 milhões de casos.

Para os especialistas ouvidos pela reportagem, apesar de a vacinação ser essencial no combate à Covid-19, a campanha atual deve ter pouco efeito na crise imediata da epidemia.

As mortes que devem ocorrer nas próxímas duas a três semanas são consequencia da transmissão desenfreada que ocorreu no período anterior a hoje. Mesmo que o governo consiga ampliar bastante o ritmo de vacinação a partir de abril, quando o volume de produção da Fiocruz deve aumentar, o efeito disso só se dará, gradualmente, de maio em diante.

O Observatório Covid-19 BR, um dos maiores coletivos de cientistas criados no país para subsidiar o poder público na resposta a pandemia, fala agora não apenas em "catástrofe sanitária", mas também "humanitária".

— Essa crise humanitária se colocou quando os cidadãos de um país não podem usufruir de um recurso ao qual têm direito, é pelo direito à saúde — afirma a epidemiologista Maria Amélia Veras, da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, integrante do grupo.

No documento, os cientistas afirmam que a crise agora não deve ser encarada apenas do ponto de vista de provisão hospitalar.

"Além de assegurar a expansão de leitos de UTI equipados, com profissionais adequadamente treinados de modo a reduzir a letalidade, o governo deve implementar e reforçar ações coordenadas nacional e regionalmente de redução drástica da circulação de pessoas, com fechamento de estabelecimentos que prestam serviços não essenciais e restrição de viagens não essenciais entre municípios e estados", afirmam os pesquisadores, em carta aberte divulgada nesta semana.

Para o físico Roberto Kraenkel, da Unesp, que realiza trabalhos de modelagem epidemiológica para o Observatório Covid-19 BR, os dados mostram um cenário que poderia ter sido evitado, caso gestores públicos tivessem sido mais cautelosos.

— A ação dos prefeitos e outros governadores só se dá quando a casa já caiu, quando já lotou hospital, como em Riberão Preto e Araraquara — afirma.

Além das medidas emergenciais, o grupo também pede ao governo que busque retomar um programa de auxílio emergencial com valores mais altos por pessoa, na faixa de R$600, para que grupos mais vulneráveis possam aderira as medidas de isolamento.

Os cientistas também pede que governos estaduais e prefeituras ajam de maneira mais independente da União. "Na irresponsável ausência de coordenação por parte do governo federal frente à calamidade que vivemos, é necessário que os governadores e prefeitos ajam de acordo com as melhores informações e evidências científicas disponíveis", afirmam.

Além de pedir medidas duras de isolamento, os signatários do grupo, afirmam que é preciso o país adotar uma estratégia mais robusta de vigilância sanitária, rastreando contatos dos infectado-os e colocando-os em isolamento. A criação de leitos e recrutamento de profissionais de saúde é necessário, dizem, mas essas medidas não interferem na taxa de crescimento da epidemia, que só cresce em razão da negligência ao isolamento social e outras medidas eficazes.

"Esta situação foi antecipada, e medidas para evitá-la poderiam ter sido adotadas há meses, quando já se sabia que as ações vigentes eram insuficientes ou inadequadas e não tiveram a adesão necessária", completam os pesquisadores.

Outro coletivo de cientistas, a Rede Análise Covid-19, concentrada na região Sul, também alerta para um cenário ainda pior do que o atual.

— Esse colapso em castata no país inteiro aumenta a mortalidade a ponto de, se continuar tudo como está, podermos chegar em 4 mil óbitos diários no fim de abril — diz o cientista de dados Isaac Schrarstzhaupt, que coordena projeções e modelos epidemiológicos para o grupo.

— Sabemos que quando há colapso do sistema de saúde temos aumento da mortalidade, que foi o que aconteceu aqui no Rio Grande do Sul e está começando a acontecer em São Paulo.

Segundo o cientistas, as projeções de dados feitas em outros países indicam que medidas para conter a transmissão comunitária essenciais na resposta à atual situação.

— Precisamos de medidas que restrinjam a mobilidade no mínimo 60% a menos do que vinha ficando, para começar a ter alguma redução.