Mau tempo não dá trégua, e maré alta gera temor em Veneza

Por Sonia LOGRE con Kelly VELASQUEZ en Roma
Praça São Marcos da cidade italiana de Veneza, inundada em 15 de novembro de 2019

O mau tempo não dá trégua em Veneza, e novas marés altas são temidas depois da registrada nesta sexta-feira, que obrigou as autoridades a fechar por horas a praça São Marcos - devastada pela inundação excepcional há três dias.

"Me vejo forçado a fechar a praça São Marcos para proteger os cidadãos de riscos sanitários. Um desastre", anunciou o prefeito Luigi Brugnaro, no meio da tarde.

Não eram registrados picos consecutivos tão elevados de marés altas desde 1782, o que levou as sirenes a continuar tocando três dias depois das inundações que provocaram danos materiais à cidade e que obrigaram o governo a declarar estado de emergência.

Segundo o centro de monitoramento, por volta de 11h20 locais foi registrado um pico de 154 centímetros, mais alto que o calculado, mas mais baixo que os 160 centímetros temidos de manhã.

As sirenes começaram a soar por volta de 6h50, com o céu escuro e pesado e um forte vento - que, com o passar das horas, se acalmou.

A maré começou a baixar no meio da tarde, segundo informaram unidades de controle em mar aberto e o serviço de transporte público - os famosos vaporetti - foi retomado.

Contudo, as autoridades declararam alerta vermelho para sábado em toda a região pelas chuvas intensas. São esperadas marés altas pelo menos até domingo.

- Museus e escolas fechados -

Pelo quarto dia consecutivo, as escolas e universidades permaneceram fechadas, assim como importantes museus e instituições culturais, entre eles o Guggenheim e o Teatro La Fenice.

Na noite de terça, a cidade, joia da arquitetura bizantina, registrou sua pior maré alta em 53 anos.

A água inundou igrejas, lojas, museus e hotéis, causando inestimáveis danos ao patrimônio artístico e imobiliário.

Os 50.000 habitantes do centro histórico temem agora que o fenômeno da "acqua alta" se torne mais frequente, já que aumentou nos últimos anos devido às mudanças climáticas e ao aquecimento do mar Adrático, segundo especialistas.

Há três dias, chegou ao nível de 187 centímetros, o segundo recorde histórico, após o registrado em 4 de novembro de 1966 (194 centímetros), deixando 80% da cidade coberta pela água.

Os prejuízos chegam a "centenas de milhões de euros" e o governo autorizou o uso de um fundo imediato de 20 milhões de euros para reativar os serviços essenciais e indenizar a população.

"Esse primeiro fundo é apenas para as necessidades urgentes. Vamos pedir uma lei especial com cifras muito altas", comentou o ministro da Cultura, Dario Franceschini.

"Mais de 50 igrejas sofreram danos e foram inundadas. A situação é mais grave do que se vê na televisão", admitiu.

Uma onda de solidariedade tomou conta da península italiana, com doações e contribuições para ajudar os residentes e proprietários de atividades comerciais a recuperar boa parte de seus bens perdidos.

A Prefeitura abriu uma conta corrente para todos os que quiserem contribuir com a recuperação de uma das cidades mais belas do Velho Continente, declarada patrimônio da Humanidade.

Centenas de jovens se mobilizaram através das redes sociais para protestar contra a mudança climática, mas também para recuperar livros, mosaicos e partituras antigas de bibliotecas, conservatórios e templos.

Falta pão nos restaurantes entre Rialto e San Marco, e a padaria de Emilio Colussi, fundada em 1840, ficou submersa.

Sete de cada dez lojas estão fechadas, entre elas o célebre Caffè Florian, em plena praça São Marcos e o American Bar, a poucos passos.

Segundo o jornal La Stampa, 3 milhões de euros são perdidos diariamente.