Maré humana na cidade iraniana de Ahvaz para o adeus ao general Soleimani

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Caixões de Qassem Soleimani e de Abu Mehdi al-Mouhandis em caminhão em Ahvaz, Irã, em 5 de janeiro de 2020

Uma maré humana tomou as ruas de Ahvaz neste domingo (5), no primeiro de três dias de homenagem nacional no Irã ao general Qassem Soleimani, morto na sexta-feira (3) num ataque americano no Iraque.

Colocados no teto de um caminhão florido e cobertos com uma manta representando a Cúpula da Rocha de Jerusalém, os caixões de Soleimani e de Abu Mehdi al-Mouhandis, chefe militar iraquiano pró-Irã morto no mesmo ataque, percorreram muito lentamente o centro de Ahvaz, segundo imagens da televisão estatal iraniana.

Cidade no sudoeste do Irã, com uma grande minoria árabe, Ahvaz é a capital do Khuzistão, uma província mártir da guerra Irã-Iraque (1980-1988), durante a qual o general começou a brilhar.

A televisão estatal iraniana transmite ao vivo desde o início da manhã um programa especial sobre a homenagem nacional, que deve continuar neste domingo em Machhad (nordeste), em Teerã, domingo e segunda-feira, depois em Qom (centro), antes do enterro previsto para terça-feira em sua cidade natal, Kerman (sudeste).

As autoridades declararam três dias de luto nacional. A morte do general Soleimani também parece ter adiado o anúncio de uma nova redução dos compromissos internacionais do Irã em seu programa nuclear, que poderia ter sido anunciada nos primeiros dias de janeiro.

A multidão em Ahvaz carrega bandeiras vermelhas (cor do sangue dos "mártires"), verdes (cor do Islã) e brancas decoradas com dizeres religiosos, além de retratos do general que comandava a força Al Qods, uma unidade de elite da Guarda Revolucionária, o exército ideológico da República Islâmica.

A agência Isna falou de uma multidão "inumerável", a agência Mehr, próxima dos ultra-conservadores, de um "número incrível" de participantes e a televisão estatal de uma "multidão gloriosa".

- "Seu sonho" -

Homens e mulheres choram enquanto batem no peito ao som de um canto xiita: "Você alcançou seu sonho, encontrou o imã Hussein".

Neto de Maomé, o imã Hussein é uma das figuras sagradas mais reverenciadas do xiismo, a quem os fiéis costumam se referir como o "senhor dos mártires".

Gritos de "Morte à América" também são repetidos com veemência.

Soleimani, responsável pelas operações externas do Irã e arquiteto da estratégia do seu país do Oriente Médio, e Mouhandis foram mortos na sexta-feira em um ataque americano com drone nos arredores do aeroporto de Bagdá.

A morte de Soleimani, que o Irã prometeu vingar, chocou a República Islâmica e levantou temores de outra guerra no Oriente Médio.

O presidente americano Donald Trump, que ordenou o assassinato do general, anunciou no sábado que os Estados Unidos selecionou 52 alvos no Irã e que os atacará "muito rapidamente e com muita força" se a República Islâmica atacar pessoal ou locais americanos.

Alguns desses locais "são de alto nível e muito importantes para o Irã e para a cultura iraniana", escreveu Trump no Twitter.

"Se eles atacarem novamente, o que eu recomendo fortemente que não o façam, nós os atacaremos com mais força do que nunca!", acrescentou o presidente americano.

- "Presença maligna" -

Trump ressaltou que o número de 52 alvos iranianos corresponde simbolicamente ao número de americanos mantidos reféns por mais de um ano a partir do final de 1979 na embaixada dos Estados Unidos em Teerã.

"Visar locais culturais é um crime de guerra", disse o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, no Twitter.

"Tendo violado seriamente o direito internacional" com os "assassinatos covardes" de Soleimani e Mouhandis, Trump "ainda ameaça cometer novas violações (...) das normas imperativas do direito internacional", para cruzar novas "linhas vermelhas", acrescentou Zarif.

Citado pela agência oficial Irna, o general de divisão Abdolrahim Mussavi, comandante em chefe do Exército iraniano, disse duvidar que os Estados Unidos "tenham a coragem" de cumprir suas ameaças.

As facções pró-Irã no Iraque aumentaram, no sábado, a pressão sobre as bases que abrigam soldados americanos ao final de um dia de enormes manifestações em homenagem ao general Soleimani.

Foguetes e morteiros caíram quase simultaneamente na Zona Verde de Bagdá, onde está localizada a embaixada americana, e em uma base militar mais ao norte, onde soldados americanos estão destacados, sem causar vítimas.

O próximo ato pode acontecer no Parlamento iraquiano, onde os pró-Irã poderiam obter neste domingo uma votação ordenando a saída dos soldados americanos do país, o que provavelmente seria seguido pela expulsão de todas as tropas estrangeiras da coalizão anti-jihadista liderada por Washington.

"Contra sua vontade, o fim da presença maligna dos Estados Unidos na Ásia ocidental começou", disse Zarif no Twitter.