Mar caribenho: cristalinas, águas da Praia Vermelha, na Urca, atraem frequentadores e tartarugas

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RIO — Sob um céu azul e limpo, a maré cheia projetou, na manhã desta quarta-feira, um pequeno paraíso aos pés do morro da Urca, na Zona Sul. Cristalinas, as águas da Praia Vermelha vêm chamando a atenção de frequentadores humanos e não humanos, como as tartarugas que se aproximam das pedras costeiras em busca de alimento e outras espécies que também costumam figurar em monumentos naturais cariocas, como as Ilhas Cagarras. Embora integre a Baía de Guanabara, a “PV”, como é apelidada, tem abertura para o alto mar, o que dificulta — mas não impede — a concentração de poluentes aquáticos. Trata-se de um ponto historicamente favorável ao banho. A surpresa, agora, é reconhecer nele uma paisagem caribenha.

— A gente sabia que aqui era limpo. Só não sabia que era tão limpo — diz Mariana Santos, de 22 anos, turista paulistana que desfrutava a praia nesta quarta-feira, acompanhada do namorado. — É diferente, por exemplo, de Copacabana, onde estamos hospedados. Lá é bonito, mas aqui é muito lindo.

Os dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) mostram que a qualidade da água da Praia Vermelha tem melhorado nos últimos anos. De 2000, quando começa a série histórica do monitoriamento de bacteriologia das praias desenvolvido pelo instituto, a 2013, a Praia Vermelha foi classificada como “boa” em nove das análises anuais. No entanto, a partir de 2014, ela obteve o maior grau de qualidade da escala, “ótima”, em todos os anos exceto 2018, quando caiu para “boa”.

As praias “boas” são aquelas que apresentaram um máximo de 1000 nmp (número mais provável) de coliformes fecais por 100 mL, ou 100 nmp de bactérias Enterococcus, presentes nas fezes humanas, por 100 mL em mais de 80% das análises. Já as praias “ótimas” são aquelas que têm um máximo de 250 nmp de coliformes fecais por 100 mL, ou 25 nmp de Enterococcus por 100 mL em mais de 80% das análises. A marca da Praia Vermelha foi superada apenas por Grumari, Prainha e Recreio, na Zona Oeste, que gabaritaram os relatórios dos últimos 15 anos.

Foi exatamente em 2013, um ano antes de a Praia Vermelha entrar em sua melhor forma, que as intervenções do Programa Sena Limpa se encerraram. Desenvolvido pelo governo estadual e a prefeitura, o projeto atendeu às queixas de frequentadores sobre a infraestrutura local de saneamento e a coleta de lixo, dois problemas prementes que ameaçavam a balneabilidade da praia. Iniciado em 2011, o programa foi executado por órgãos das administrações municipal e estadual, como a Cedae, o Inea, a Comlurb e a Rio-Águas, e também abrangeu as praias de Ipanema, Leblon, Copacabana, Leme, São Conrado e Praia da Bica, na Ilha do Governador.

Na Praia Vermelha, cujo entorno só contava com duas velhas redes de tubulação para a coleta do esgoto produzido na Urca, a Cedae instalou canos novos que dão para a Enseada de Botafogo e terminam na Estação Elevatória de Esgoto Urca, outro projeto do Sena Limpa. Ao todo, considerando também os investimentos feitos pela Comlurb e os órgãos de fiscalização contra o combate ao lixo nas praias, as obras da PV custaram cerca de R$ 8 milhões, segundo o coordenador do programa, o então secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, hoje deputado estadual.

— A tubulação da Cedae estava velha e furada, por isso vazava na praia. O lixo também se acumulava, não era devidamente coletado. Uns diziam que o problema era da Cedae, outros diziam que era da Comlurb… Para não ficar nesse empurra-empurra, fizemos um diagnóstico conjunto. Todo o esgoto da Praia Vermelha e da Urca acabou sendo canalizado para a Praia de Ipanema.

Minc, que também é professor de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica, entretanto, que a praia ainda não está completamente limpa:

— Ela faz parte da Baía de Guanabara, que sofre com o problema da poluição. Quando o mar aberto está entrando na Praia Vermelha, ela vira Caribe. Quando a maré está vazando, ou seja, baixando, a água entra num fluxo contrário, e as impurezas do fundo da Baía vão para o mar. Lá na frente, esse material encontra a barreira da corrente marítima e corre o risco de retornar em direção à Praia Vermelha. Mas o maior problema dela hoje não é a poluição de chorume gerado pelo esgoto, e sim a poluição flutuante, que resulta do descarte irregular de lixo nas praias e ruas.

'O Rio tem muita riqueza marítima'

Embora a água da Praia Vermelha permencesse translúcida, as três tartarugas que a reportagem flagrou por lá na manhã desta quarta-feira estavam às voltas com impurezas suspensas no espelho d’água. Instrutora de mergulho, a veterinária Luciana Petry, de 31 anos, afirma que a poluição de lixos flutuantes ainda está longe de virar passado. Acompanhada de sua aluna, a também veterinária Jussara Peters, ela acabava de voltar de um passeio submarino pelos arredores do morro da Urca, um hobby que mantém há anos.

— A micropoluição, que envolve bactérias e outros componentes do esgoto, varia muito aqui, de acordo com as marés. Mas a macropoluição, que vem do lixo mal descartado, é contínua: tem sacola plástica, latinha, e agora até máscara…

Com sua operadora de mergulho, a Mar do Rio, ela desenvolve um projeto de preservação da vida marítima em que fotografa resíduos e poluentes encontrados em cada tour pela Baía de Guanabara. As fotos feitas na Praia Vermelha e nas Ilhas Cagarras mostram redes de pesca perdidas, guimbas de cigarro, canos, garrafas pet e equipamentos eletrônicos.

— O Rio tem uma grande riqueza marítima. Estou aqui desde as 8h e já vi tartaruga, ouriço, cação-viola… À noite, também tem lula e estrela-do-mar. A quantidade de espécies nas nossas praias já é muito grande, e a aparição desses animais chegou a ficar mais frequente durante a pandemia. Por isso devemos fazer de tudo para preservar nossa costa — diz.