Maracanã une estratégias de Flamengo, Fluminense, Ferj e governo do Rio

Igor Siqueira

A assinatura de uma nova permissão de uso do Maracanã prorrogou por mais 180 dias uma relação que tem sido vantajosa entre clubes e governo do Rio. Flamengo e Fluminense terão até novembro para gerirem o estádio, por mais que a pandemia impeça a repetição do desempenho financeiro alcançado em 2019.

Com o estádio cheio em um ano histórico, o Flamengo arrecadou R$ 109 milhões em bilheteria ao longo da temporada. O Fluminense teve R$ 16 milhões.

Somando as outras duas permissões passadas, os clubes ficarão com o Maracanã por pelo menos um ano e meio. Essa foi a forma de dar uso ao estádio enquanto se articula um processo de licitação, visando à concessão do complexo por 35 anos. Além disso, evita-se que o estado assuma a manutenção e as contas do Maracanã.

A nova permissão foi publicada na quinta-feira passada no Diário Oficial. Na mesma edição, o governo prorrogou por mais 20 dias o prazo para recebimento dos estudos técnicos relacionadas à Proposta de Manifestação de Interesse (PMI) da gestão do complexo.

Desde janeiro, o Flamengo está autorizado a realizar o estudo técnico. Latin United Participações e Operações Esportivas e a RNGD Consultoria de Negócios também têm o aval. O documento rubro-negro está pronto, mas, por estratégia interna, a entrega vai levar em conta o aumento do prazo.

O Flamengo é o titular da permissão de uso, e o Fluminense aparece no contrato como interveniente anuente — por conta das exigências financeiras.

Ter o Maracanã é estratégico para os programas de sócio-torcedor, que já sofreram um golpe com a paralisação do futebol. Em 2019, a receita do Flamengo no quesito foi R$ 61 milhões. A diretoria do Fluminense enxerga com a mesma lógica. O rendimento tricolor foi de R$ 5,3 milhões. As metas de crescimento da base atual de 24 mil adesões estão relacionadas aos jogos no Maracanã.

O Flamengo ainda lançou no balanço a arrecadação de R$ 4,7 milhões com o estádio. É que o clube tem direito a explorar direitos comerciais e espaços publicitários do local, assim como as receitas do museu do estádio. Na prestação de contas de 2019, o clube da Gávea registrou um adiantamento de R$ 1,3 milhão referente à venda de camarotes que seriam usados em 2020.

Os rendimentos nos jogos fazem sentido até para a Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj), já que a entidade tem direito a um percentual do valor bruto arrecadado nas partidas — no Maracanã, 5%. Em 2019, a entidade registrou um superávit de R$ 2 milhões. Isso só foi possível porque a bilheteria rendeu R$ 9,6 milhões, aumento de 76% nesse item em relação a 2018. Ao todo, a Ferj fechou o ano com receita bruta de R$ 31,6 milhões.

Na nova permissão de uso, não houve mudança nos termos financeiros. Flamengo e Fluminense criaram uma empresa, uma sociedade de propósito específico (SPE), para gerir o estádio.

A cada jogo, é cobrado R$ 90 mil de aluguel. Quando a operação dá negativa, o clube em questão tem que ressarcir a SPE. No caso do Fluminense, o presidente Mário Bittencourt diz não dever nada neste momento, embora, no passado, quantias tenham ficado em aberto.

No primeiro contrato, os clubes assumiram os custos de manutenção, estimados em R$ 2 milhões mensais, além de seis parcelas de R$ 166,6 mil a serem repassadas ao governo — montante que após 180 dias totaliza R$ 1 milhão.

O Maracanã receberá a final da Libertadores, um compromisso do governador Wilson Witzel com a Conmebol.