Marca de Erik Felipe faz Brasil voltar a sonhar com quebra da barreira dos 10s nos 100m

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Ao completar a prova de 100 metros rasos no último fim de semana, Erik Felipe Barbosa foi abraçado pelos outros sete concorrentes. Todos queriam parabenizar o vencedor do Campeonato Brasileiro sub-23 de atletismo. Mas não apenas pelo título conquistado. Ao atingir 10s01 na prova mais nobre do esporte, o velocista de 21 anos anotou recorde brasileiro e sul-americano da categoria e esteve muito próximo de uma meta buscada pelo Brasil há décadas nesta prova.

Erik ficou a apenas 0s01 do melhor tempo brasileiro da história, anotado por Robson Caetano da Silva na Cidade do México, em 1988. Já faz 33 anos que muitos velocistas tentam — no mínimo repetir, mas sem sucesso — igualar esta marca. Por si só o feito do atleta do Sesi-SP é incrivelmente relevante e digno de aplausos, mas também é uma luz para o atletismo brasileiro. Afinal, estar abaixo da casa dos 10s é fundamental para se ter relevância no cenário internacional.

Os recordes mundial e olímpico até hoje são do astro Usain Bolt. O jamaicano fez 9s58, no Mundial de Berlim em 2009, e 9s63 nos Jogos de Londres-2012, respectivamente. Já o "sucessor" italiano Lamont Marcell Jacobs foi medalha de ouro em Tóquio-2020 com 9s80. Brasileiro melhor colocado nos Jogos, Paulo André Camilo foi eliminado nas semifinais com 10s31.

— Quando vi que fiz aquele tempo, me surpreendi. Fiquei muito feliz. É resultado de muito trabalho, dedicação e esforço. Nós trabalhamos duro todos os dias para que marcas e recordes aconteçam de forma natural. Abaixar da casa dos 10s será algo natural, se acontecer. Tenho que ir plantando sementes — conta Erik Felipe.

Homologar uma marca abaixo da casa dos 10 segundos é um sonho que já quase deixou de ser utopia. Paulo André Camilo chegou a correr os 100 metros em 9.90s, mas contou com o auxílio do vento de 3.2m/s, o que fez a marca não poder ser oficializada — Erik atingiu 10s01 com o limite máximo do vento permitido (2m/s). É mais uma inspiração para o velocista, assim como Robson Caetano.

— O Robson Caetano foi único no esporte brasileiro. Fez história nos 100 metros rasos. Ele, assim como o Paulo André, servem como inspiração para mim e para outros velocistas. É legal ter pessoas assim por perto. Ele [Robson] me mandou mensagem parabenizando, fiquei muito feliz e agradeci. Agora é seguir treinando principalmente na questão de tiro, volume e intensidade. É algo progressivo. Tem dias que treinamos mais forte, tem dias que é mais regenerativo. É o nosso corpo que responde — completou.

Pela pouca idade, Erik desponta como candidato a fazer este sonho se tornar realidade. Para Darci Ferreira, treinador do atleta ao lado Maria Rosana Soares, ele tem potencial para correr mais rápido que dez segundos, assim como outros atletas brasileiros.

— Acredito que se o trabalho seguir sendo feito de forma natural e progressiva, a longo prazo, essa meta será alcançada. Quando as crianças começam a fazer velocidade, elas têm um tempo. Naturalmente com o passar dos anos, ela vai abaixar. Antes existia um distanciamento muito grande da Europa e dos Estados Unidos. Na elite, é normal correr nove segundos. Por estarmos distantes, sonhávamos muito. Acredito mesmo que, se não esse ano, nos próximos, vários atletas irão correr abaixo de 10s. Falo de quatro ou cinco nomes que estão prontos para isso — afirma o treinador.

Outro ponto que anima a comissão técnica é a evolução técnica de Erik. No Troféu Brasil, realizado em maio, foi oitavo colocado com a marca de 10s58. Pouco antes, foi o reserva da seleção no Mundial de Revezamentos, na Polônia. Em pouco mais de três meses, o segundo melhor tempo da história. Entender essa evolução é algo que todos tentam compreender.

— Em 2019, o Erik havia corrido 10s23 e já era o melhor atleta sul-americano. O que aconteceu depois foi que ele teve uma lesão, tratou e voltou ao trabalho. Antes do Troféu Brasil, nós ficamos meses fora do país em treinamento. O Erik quis fazer a prova na força, mas velocidade não é força. Ele estava correndo mal porque estava querendo correr forte do que forma técnica. Quando foi reserva na Polônia (Mundial de Revezamentos), ele ganhou confiança e se preparou melhor. Por isso o resultado (de 10s01) veio naturalmente agora — completa Darci.

Palavras do recordista

Apesar de todo o trabalho feito, Erik Felipe admite que se surpreendeu com a marca obtida. Já quanto ao recordista Robson Caetano, não dá para dizer o mesmo. Ele, inclusive, é um crítico ao tempo de 10s na Cidade do México, onde acredita que foi “roubado”.

— O garoto fez um ótimo resultado e acho que ele tem, como todos os outros, chances boas de correr abaixo dos dez segundos. Nós estamos falando disso, mas eu já corri abaixo. Me garfaram na Cidade do México e colocaram dez segundos. Quem vai correr abaixo dessa marca de novo são eles, garotos que mereçam esse resultado — afirma o ex-atleta.

No entanto, Robson deseja sorte a Erik e a os outros atletas brasileiros que seguem neste objetivo. E aproveitou para dar dicas para o novo recordista brasileiro.

— Falo para o Erik manter o foco, acreditar em Deus, ter fé e treinar bastante — completou.

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