Marca de roupas rememora, em coleção, era de ouro dos inferninhos mais fervidos de copacabana

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Se esta matéria fosse publicada num domingo de dez anos atrás, seriam grandes as chances de o estilista Leo Muqui ter passado a última madrugada num inferninho em Copacabana, em meio a fumaça de gelo seco e suor de gente fervida. Ele e a turma do coletivo de moda Gema TV, do qual era integrante, fizeram e aconteceram na noite carioca em meados dos anos 2000, com festas como a Buati, que rolava no clube Erótika, na Avenida Prado Júnior. De lá para cá, porém, o Rio viveu o declínio das festas em locais fechados e, mais recentemente, a pandemia esvaziou, de uma vez por todas, as pistas de dança. Motivos mais do que justos para se resgatar as melhores lembranças de toda essa cena na nova coleção da Perigo, marca criada por Leo e pelo sócio Pedro Igor.

“Sabe aquela sensação de abrir um livro antigo, e o cheiro remeter a algo? A ideia é um pouco essa”, conta o estilista, sobre as novas criações que viajam por diferentes décadas. A marca buscou referências em casas noturnas extintas como Barbarella e La Cicciolina, voltadas ao público adulto com shows de striptease, mas também na Help, hit dos anos 1980, definida por Leo como “a boate mais linda que já existiu”. Reduto de saideiras depois de uma noite quente, a Pizzaria Guanabara também entrou na lista. Tudo isso aparece de modo literal, como nas peças em que os icônicos letreiros em neon desses lugares viraram estampas, e em algumas modelagens. É o caso das calças jogging bem ao estilo Sônia Braga em “Dancin Days”.

A ideia, segundo os sócios, é reviver também uma visão por vezes negligenciada do Rio, associado com mais frequência ao dia e à praia. “Temos uma estampa que é uma vista de Copacabana, mas mirando o asfalto, e não o mar”, descreve Pedro. Desconstruir estereótipos, aliás, tem tudo a ver com o mote da marca, que foi criada há três anos e aposta no linho como carro-chefe. A ideia é explorar novos usos para o tecido, a partir de uma abordagem contemporânea. “O linho bombou nos anos 1980 e, na década seguinte, deu uma caída. Agora, ficou restrito a roupas que usamos só quando vamos à praia. Queremos mudar isso”, diz Leo.

Esta é a sexta coleção da marca (à venda no site perigo.online e na Casa Soma) e foi batizada com o sugestivo nome de Exocet, em alusão à mítica Kátia Flávia da música de Fausto Fawcett. A própria louraça belzebu aparece na campanha de divulgação personificada por Letrux. “Pensamos em como Marina Lima e Fernanda Abreu são componentes desse imaginário que retratamos e achamos que Letrux dialoga muito bem com a cena”, conta Pedro.

Os sócios definem a coleção como um abraço em quem está com saudade da ferveção, mas concordam que é cedo para prever como se dará a retomada da agenda noturna diante da pandemia. “Ainda acredito na potência dos inferninhos e sinto que temos uma vontade latente de viver o underground”, profetiza Pedro. Leo completa: “Eram espaços onde todo o mundo vivia feliz, se agarrando, dançando junto a noite inteira. Havia as prostitutas, a galera descolada e até gente caretinha, que ia só por curiosidade. Espero que a noite no Rio volte a ser legal novamente”. Que os deuses e as deusas da pista de dança os ouçam!

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