Marcas investem R$ 530 milhões no BBB 21 e quase nada em ações contra o racismo

Alma Preta
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Programa com nove participantes negros nesta edição arrecadou 350 vezes mais do que a premiação de R$ 1,5 milhão; patrocinadores e Globo, por outro lado, têm poucas iniciativas contra o racismo (Foto: Reprodução/Rede Globo)
Programa com nove participantes negros nesta edição arrecadou 350 vezes mais do que a premiação de R$ 1,5 milhão; patrocinadores e Globo, por outro lado, têm poucas iniciativas contra o racismo (Foto: Reprodução/Rede Globo)

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões 

No Brasil, o Estatuto da Igualdade Racial, que em 2020 completou 10 anos, determina que governo e empresas privadas têm o compromisso de atuar na luta antirracista, promovendo programas de ações afirmativas e contra o racismo. Atualmente, na televisão aberta, o foco da discussão racial gira em torno do Big Brother Brasil 21, da Rede Globo, que começou com nove pessoas no elenco, o maior número de participantes negros desde a estreia do reality show, em 2002.

As oito marcas que contrataram as maiores cotas de patrocínio do BBB 21 investiram cerca de R$ 530 milhões na atração, que passa na TV aberta e também com conteúdo exclusivo para assinantes. São elas Americanas, Amstel, Avon, C&A, McDonald 's, P&G, PicPay e Seara. O retorno desse investimento para as empresas e para a emissora não é divulgado. Por outro lado, as empresas que anunciam no programa e a própria Globo investem pouco em ações de igualdade racial.

“Não existe, atualmente, uma agenda de ações afirmativas. Se as empresas incluíssem a questão da promoção da igualdade racial, iria ter um resultado muito positivo nos seus negócios porque a população negra é a maioria da população brasileira. É urgente que existam programas robustos de igualdade racial, principalmente as grandes empresas que têm influência na cadeia produtiva e na economia do Brasil e geram um lucro muito grande”, diz a gestora pública Gabriela Cruz, presidente do TucanAfro, núcleo de militância negra do PSDB.

Entre os patrocinadores do BBB 21, a Heineken, dona da marca Amstel, destacou que possui um programa interno de ações afirmativas, o Gupo Origens, “que atua de forma propositiva no estabelecimento de novas diretrizes e metas de contratação, desenvolvimento e retenção de pessoas pretas”.

Sobre o conteúdo do programa, a empresa afirmou à Alma Preta que “não teve acesso prévio à lista dos participantes”. No entanto, ressaltou que as marcas do grupo não “compactuam com comportamentos que levam à exclusão e desrespeito e que possam gerar situações de extremo estresse psicológico. Por isso, ainda que os patrocinadores não tenham interferência na condução do BBB 21, temos trabalhado em parceria com a emissora para rever suas ações dentro do programa”.

Todas as marcas foram procuradas pela Alma Preta, mas não responderam se têm algum tipo de programa de combate ao racismo como estabelece o inciso sexto do artigo primeiro do Estatuto da Igualdade Racial. Nos sites das empresas e nas redes sociais, não existem informações em destaque sobre ações de promoção da igualdade racial ou contra o racismo.

O que diz a Globo

Em resposta à Alma Preta, a Rede Globo disse que “a seleção do elenco do BBB – e de todos os programas da Globo – tem como objetivo a busca contínua por uma representação do Brasil”. Segundo a Globo, a definição da programação leva em conta a diversidade “olhando para diferentes regiões do país, histórias de vida, gêneros, sotaques, etnias, classes sociais e experiências diversas”.

A emissora também comentou sobre o conteúdo do BBB 21. “Entendemos que os comportamentos e as discussões geradas no reality refletem questões em pauta na sociedade brasileira, provocando reflexão e sendo capazes de impulsionar movimentos de conscientização e mobilização para mudanças”.

Sobre as políticas afirmativas para combater o racismo estrututal, a Globo citou que, nos últimos cinco anos, triplicou a “contratações de talentos artísticos negros”. Também foram criados grupos de trabalho interno para discutir uma política inclusiva. A emissora também criou o Laboratório de Narrativas Negras para o Audiovisual, projeto de formação e inclusão no mercado de novos roteiristas autodeclarados negros.

Em 2020, a Rede Globo iniciou um censo entre os seus 15 mil colabores. “Com essa iniciativa da área de Diversidade e Inclusão, a Globo será capaz de alimentar as estratégias e os planos de ação de diversidade e inclusão, nos pilares de gênero, étnico-racial, LGBTQIA+ e de pessoas com deficiência”, diz a resposta da emissora.

Polêmica e pauta racial

A edição do BBB 21 com mais participantes negros causou polêmica e desinformação sobre as bandeiras históricas de luta o movimento negro, conforme lembra a gestora pública ouvida pela reportagem.

“Essa emissora está causando um desserviço. Essas posturas individuais de cada um, em busca de prêmio, está causando ruído numa luta muito maior que iniciou com a Frente Negra Brasileira, com o Teatro Experimental do Negro, com marchas, ações afirmativas que implementaram coisas importantes como a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a Fundação Cultural Palmares, cotas no mercado de trabalho e o programa de saúde para a população negra, entre outras agendas”, considera Gabriela, que lamenta o programa não aproveitar a audiência que tem para debater o racismo estrutural e o racismo institucional.

O ativista e educador Douglas Belchior escreveu um artigo onde compara a atração com os eventos e massacres do coliseu romano. “O BBB nunca foi um programa de entretenimento apenas, assim como nada na TV o é. Eu nunca entendi a alegria de muitos colegas em comemorar a presença de um ou outro irmão preto na jogatina. Mas não acho que devemos criminalizar, criticar e muito menos romantizar seus participantes”, escreveu Belchior.