Marcas de carnaval se reiventam durante a pandemia

O Globo
·4 minuto de leitura

Se a carne é de carnaval e o coração é igual, não há pandemia que sossegue o facho dos amantes da montação que, a esta altura do campeonato, já estariam colorindo as ruas da cidade. Mas, calma! Esta não é uma matéria sobre blocos secretos ou bailes privados. A folia, por ora, segue suspensa e não há sinal de vacina por aqui. Isso só não significa que os estilistas mais carnavalescos da cidade tenham deixado de criar — e vender.

A Ohlograma lançou uma coleção tinindo de nova com mais de 300 peças saídas da cabeça fervilhante de sua criadora, Clarissa Romancini. Para ela, não fazia sentido esperar a pandemia passar para colocar os produtos à venda, por um motivo simples: “As pessoas passaram o ano todo de pijama. Agora, querem brilhar”.

Entre os itens, há muitas opções de cabeças, óculos (alguns com LED), brincos, máscaras, chapéus e até perucas, formando um combo que dá conta das demandas desses tempos. Como boa parte das festas migrou para o ambiente on-line, o que está acima do tronco anda mais valorizado do que nunca na hora do look. “Pensei nessa moldura das telas”, justifica a criadora, que também levou em conta outros aspectos. Os óculos sem lente, por exemplo, são ótimos para usar de máscara, porque não embaçam. Uma preocupação que vem a calhar: “Percebi que, por terem a boca coberta, as pessoas estão se olhando mais nos olhos quando conversam”.

Desenvolver a coleção num momento como este, ela diz, tem a ver com um desejo de “resgatar a alegria do passado para continuarmos sonhando com um futuro juntos novamente”. Segundo Clarissa, parte dessa demanda foi sentida na virada do ano, quando muita gente já buscou peças irreverentes para as suas pequenas reuniões. “A alegria não é um escapismo, mas uma forma de resistência diante das agruras da vida”, filosofa.

Mestre na arte da montação, Fernando Cozendey também lançou uma coleção recentemente. Com o sugestivo nome de “Escape”, as peças pretendem levar quem as veste para longe do caos. E o estilista descobriu que as pessoas não precisam de uma festa para isso. “Outro dia, um menino usou uma máscara minha para ir ao supermercado. Era o que ele tinha para fazer e transformou isso numa experiência divertida”, conta. A demanda pelas suas roupas, aliás, tem sido reveladora. “Os clientes querem vesti-las mesmo que estejam sozinhos em casa, seja para se divertir ou para ‘se querer’ mesmo. Quem não deseja viver suas fantasias sem ser julgado?”, provoca.

Sem reclamar da clientela, há criadores intrigados com o movimento. Sócia da Folie Carnaval, Ana Regal conta que um dos produtos mais vendidos nos últimos meses foi um top de arame com corações que cobrem os mamilos. “É uma peça supercarnaval. Agora, onde as pessoas vão usar isso é a grande pergunta...”, desconfia, ponderando que ações como a Black Friday acabaram fazendo com que muita gente comprasse para quando o carnaval — finalmente — chegar. E por falar em ação de marketing, a marca também criou, durante a quarentena, a hashtag #EmCasaComFolie, que gerou bastante engajamento quando o isolamento estava mais restrito. “Várias clientes mandaram fotos usando, e isso ajudava a criar uma rotina de animação.”

Se dá para ter alguma esperança de bloco na rua para valer, Ana estima que isso só deve acontecer no meio do ano, numa configuração capaz de juntar carnaval e festa junina. Até lá, seguem os protocolos que incluem as recomendações de distanciamento e o uso de máscaras. E é justamente nelas que essa turma tem encontrado um terreno fértil. A Libertina, por exemplo, tem uma toda trabalhada no strass e na animal print que faria brilhar os olhos de Clóvis Bornay. “É um adereço sombrio e exótico, mas ‘bombou’”, conta a criadora da marca, Clara Andrade Moreira. “As pessoas não estão mais esperando o carnaval para ser quem são.”

Palcos para isso, de fato, não faltam. Clara levanta a hipótese de que fenômenos como TikTok e Reels, do Instagram, estão por trás desse desejo. “Fiquei até chocada com a procura por esses acessórios. Tem muita gente querendo coisa personalizada também.”

A estilista Letícia Bueno, da Skindô Lelê, foi pega de surpresa como as colegas. Tão logo começou a postar fotos com máscaras mais elaboradas que fez para uso próprio, os pedidos pipocaram. “Acabei criando kits que combinam a proteção com faixas de cabelo, chapéus, arcos e presilhas”, lista, prevendo que haverá “lives de blocos”, em que os acessórios certamente cairão bem. “O pessoal não vai deixar passar em branco.” Uma de suas máscaras ganhou um zíper decorativo cujo interesse pelos clientes foi imediato. Mas houve quem se decepcionasse quando soube que não se tratava de um fecho, de fato. Coube à Letícia explicar que isso invalidaria a proteção, contrariando as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Até a montação tem limite.