Política com sangue e fezes: marcas do bolsonarismo levarão anos para serem removidas

Indigenous people take part in a protest against Brazilian President Jair Bolsonaro's government, Brazil's National Indian Foundation (FUNAI)'s President Marcelo Augusto Xavier da Silva, to ask the Supreme Court to define the demarcation of Indigenous lands and to demand justice for journalist Dom Phillips and indigenous expert Bruno Pereira, who were murdered in the Amazon, in Sao Paulo, Brazil June 23, 2022. REUTERS/Carla Carniel
Foto: Carla Carniel/Reuters

Se tudo der certo, daqui uns anos, a maioria dos brasileiros se lembrará dos tempos em que se matava e se mandava matar por política como um quadro desbotado e distante na parede.

Não há mal que dure para sempre, diz o ditado. E nenhuma experiência trágica na história se conservou intacta. Ditadores caem. Governos autoritários se explodem. Regimes escravocratas se esgotam. Não por força da natureza, mas por novas configurações e demandas históricas. E lutas.

O Brasil terá em breve, nas urnas, a chance de mostrar se a opção por um líder tão violento quanto despreparado para lidar com o momento histórico, desafiado por mudanças profundas nas bases sociais e econômicas –e por impactos igualmente profundos na forma como pensamos, agimos e nos entendemos diante do mundo – foi um soluço, resultado de tempos confusos, ou uma guinada. Há tempo para corrigir a rota.

Para muitas famílias, as marcas dos tempos guiados pela estupidez levarão anos para serem removidas ou atenuadas. Muitas dessas manchas serão perenes.

Que o diga a família de Marcelo Aloizio de Arruda, guarda municipal condenado à morte por um seguidor de Jair Bolsonaro por comemorar sua festa de 50 anos com a bandeira do PT.

O crime não brotou do nada. Foi plantado num terreno semeado a ódio e desprezo ao longo dos anos.

Esse ódio transformou um militar violento e indisciplinado em alternativa palatável em um campo político depredado por seus atores. Três anos e meio depois esse país ficou a cara de seu presidente: agressivo, intolerante, incapaz de pensar ou demonstrar solidariedade com quem quer que seja a não ser ele mesmo.

Já foi dito, mas não custa repetir: ninguém está mais seguro em um país governado pelo ódio.

A insegurança alimentar em um país que empobrece é um dos muitos legados visíveis do mapa atual. Em breve os donos do dinheiro perceberão que não é exatamente um bom ambiente para negócios o país em estado de conflito onde todos apontam as armas para todos.

Jair Bolsonaro pode não ser o único, mas inegavelmente é um dos principais antes políticos responsáveis por tirar do armário o que a população têm de pior.

É como definiu o ex-banqueiro Paulo Dalla Nora Macedo, empreendedor social que se mudou para Portugal por não conseguir mais conviver com seus pares idiotizados e tomados pelo ódio em seu país, em entrevista para o UOL: "Aquelas pessoas que saíram do armário, na acepção ruim da expressão, e se sentiram autorizadas a expressar o racismo, a misoginia, o preconceito, a desfaçatez e até a falta de educação sem pudor, elas não vão desaparecer do dia para a noite”.

O relato do empreendedor é o relato de quem observou o fenômeno por dentro. É como se, com um representante de seus desejos mais primitivos no poder, uma multidão se sentisse autorizada a maltratar minorias e subalternos a partir de uma moral elástica, como Macedo define, e que prega o extermínio de “inimigos” para abriga predadores sexuais, torturadores, criminosos ambientais ou gente armada capaz de destruir uma família porque se incomodou com o tema de uma festa de aniversário.

Esse lado perverso sempre existiu. Mas nunca foi tão ostensivo. Basta reparar no discurso de quem está do seu lado e que ontem não tinha recursos ou coragem para defender teses até então indefensáveis.

“Quem tinha um pouquinho de pudor e se continha não tem mais. Isso me incomodava demais”, definiu Nora Macedo, que outro dia ouviu de um (ex) amigo uma sentença: “o bolsonarismo é libertador”.

Pois é. Isso de fato explica muita coisa. “É como se fosse possível voltar a falar e agir como trogloditas impunemente”.

Vai ser difícil convencer os trogloditas a botarem suas armas na caixa novamente. Muitos preferem matar e morrer a ter de viver sob as mesmas convenções sociais de sempre.

O assassinato de uma liderança petista no Paraná mostra que a turma não está para brincadeira.

E que os esforços para limpar o chão de um país tomado de sangue e ressentimento (quando não de fezes espalhadas pela turma em rebelião) não acabam em outubro.

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