Marcela Mc Gowan domina as mídias falando de sexo e diz que muitos se intimidam com ela: 'Acham que vou fazer algo mirabolante'

Isabella Cardoso
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Destaque entre as influenciadoras digitais feministas, Marcela Mc Gowan completou 32 anos na última quarta-feira, justamente no Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Médica especializada em ginecologia e obstetrícia, a sagitariana vem colocando o seu nome entre uma das referências dentro do universo feminino ao falar abertamente sobre sexualidade. Um de seus desejos é que as próximas gerações deixem de tratar o tema como tabu. Após se tornar conhecida nacionalmente ao participar do “Big Brother Brasil 20”, a paulista nascida em Rancharia se lançou este ano em diversas plataformas. Às quintas-feiras, ela aparece ao lado de Karol Conká no programa “Prazer, feminino”, que faz sucesso no YouTube do GNT, e já está em sua segunda (e muito pedida) temporada. Aos sábados, solta a voz no seu podcast chamado “Ponto M”, disponível no Deezer, além de participar do programa “Boca a boca”, da também ex-BBB Bianca Andrade, que estreia nova edição amanhã. Fora isso, ela pensa no relançamento do programa “Sextou”, no seu IGTV. E não falta assunto sobre sexo para abordar em todos esses conteúdos. Haja fôlego!

— Que responsabilidade fazer aniversário em uma data tão significativa, né? O meu desejo (ao soprar as velinhas) foi liberdade, para mim e para os outros, menos julgamentos e mais empatia — afirma Marcela, completando: — A ideia é dominar o mundo com a palavra da sexualidade (risos). Desde que eu saí do “Big Brother Brasil 20”, gostaria de ter semanalmente um espaço de discussão com as pessoas sobre o assunto, combinando uma linguagem leve a um respaldo médico, informativo. Queria que o tema não perdesse a seriedade, mas sem ser engessado tipo uma palestra. Comecei misturando as questões que mais apareciam para mim a outras que eram mais tabus, como orgasmo e ménage à trois.

Assim surgiu o “Sextou”, o primeiro programa pós-“BBB” da médica. Mas como seria uma sexta-feira perfeita para Marcela?

— Poucas coisas me fazem tão feliz quanto curtir uma praia. Meu dia perfeito seria no sol, com amigos, principalmente depois de ter tido uma semana intensa de trabalho, para ter aquela sensação de dever cumprido. Ah, e claro, com o “Sextou” no ar, porque falar de sexualidade está no topo de coisas que me divertem.

Enquanto produzia conteúdo para o programa em seu Instagram, Marcela foi convidada para apresentar o “Prazer, feminino” com Karol Conká. Na atração, elas conversam sobre temas quentes com diversas convidadas. A médica elogia a sinergia com a parceira, que a complementa no humor.

— A gente tira o assunto do óbvio e traz um dinamismo muito legal para a conversa. Eu estou apaixonada! Para mim, o programa beira à perfeição — derrete-se Marcela, que se considera uma pessoa regida pelo prazer: — Gosto de viver e desfrutar das coisas com intensidade. Viajar e estar na companhia de pessoas que eu amo são meus maiores prazeres.

Já o “Ponto M” aborda a sexualidade por um lado mais moderno e intimista. O foco da primeira temporada do podcast é o sexo no ano 2020 com pandemia, quarentena, relações a distância.... Tentando atingir públicos diferentes em cada plataforma, a sexóloga já pensa em outras:

— Um livro é o próximo passo, mas ainda está no processo. É o projeto mais desafiador que estou fazendo, para ser bem sincera, porque comunicar através de escrita é bem mais elaborado e difícil — diz a paulista, que continuará no tema da sexualidade na obra: — A pegada de tudo é sempre trazer esse universo do feminino em geral, mas acaba esbarrando na sexualidade porque é um dos lugares em que a gente é mais oprimida mesmo, não tem jeito. É importante discutirmos. Quando falamos disso, vai além de sexo, estamos abordando papéis de gênero e todos os outros rolês que a envolvem.

Apesar de tratar a sexualidade com naturalidade agora, essa nem sempre foi a realidade da ex-BBB. Ela conta que poder falar do assunto publicamente foi uma construção, já que não tinha esse tipo de conversa com os pais em casa.

— Depois que entrei na faculdade, comecei a ver a demanda que tinha, o quanto as pessoas não tiveram educação sobre sexualidade, a não ser a parte óbvia de reprodução. E não estamos só falando de gente que não tem informação, não, mas de muitas mulheres que têm acesso a ela. Somos criadas para sermos tão desconectadas do nosso ciclo, das nossas vulvas... É tudo tão errado quando vamos falar sobre isso, que infelizmente não buscamos essas informações, mesmo que elas estejam em algum lugar. É enorme a quantidade de mulheres que desconhecem os próprios corpos — lamenta a ginecologista.

Na missão de justamente fazer com que mulheres se descubram, Marcela enfrentou algumas dificuldades no caminho. Uma delas foi o preconceito enraizado relacionado à educação sexual.

— Eu era casada em 2017, quando comecei a falar de sexualidade no meu Instagram. Ouvi muitos desaforos. “O que você está fazendo falando disso? Você é uma mulher casada!”. E eu pensava: “Meu Deus! Mas não são as mulheres casadas que têm vida sexual? Não é esperado que a gente vai ter que resolver essa questão sexual em algum momento?” — recorda.

Algumas questões demoraram a ser tratadas por ela. No “BBB20”, Marcela se assumiu bissexual e diz que falar sobre isso publicamente a libertou dos tabus.

— Eu já me entendia como bissexual desde a adolescência, já tinha me envolvido com algumas mulheres. Mas eu morava no interior, era médica. Então, essas questões pesavam para mim. Eu nunca tinha trazido à tona, nem me assumido publicamente. Quando eu vim morar em São Paulo, isso começou a mudar, mas foi ter falado lá dentro do “BBB” que realmente me libertou. Agora fico tranquila para viver minha sexualidade do jeito que eu sempre quis — celebra Marcela, que completa: — Procuro me desconstruir sempre. De bate e pronto, diria que já venci meus tabus.

Desde que saiu do “BBB 20”, Marcela está solteira e quando tentou entrar no aplicativo de relacionamentos Tinder para conhecer pessoas novas, a experiência não deu muito certo. A ex-BBB teve a conta excluída após ter sido denunciada por usuários, que pensaram que era algum fake se passando por ela.

— Vou encarar como um sinal divino (risos) — brinca a médica, que continua: — Um monte de gente me perguntou por que eu baixei o Tinder se há flerte no Instagram. Mas eu nunca entendo qual é a real intenção dos outros. Eu não sei se é fã ou se a pessoa está dando em cima de mim.

Apesar de falar abertamente e com propriedade sobre sexo e outros assuntos, Marcela se considera tímida (“Sou muito na minha, estar num ambiente em que não conheço ninguém me deixa quietinha”) e acrescenta que algumas pessoas esperam dela uma atuação enlouquecedora na hora H e chegam até se intimidar em sua presença:

— Ler sobre o tema ajuda, mas é preciso praticar, principalmente o autoconhecimento. Teoria sem prática é só teoria. Química é muito importante, é o que faz pegar fogo, mas estar bem consigo e ter intimidade com o (a) parceiro (a) faz toda a diferença. Muitas pessoas acham que vou fazer algo muito mirabolante no momento do sexo e vejo até que outras se intimidam achando que vou julgá-las, mas sempre tenho esse papo. Cada um e cada relação sexual vai ser diferente. Falar sobre esses assuntos afasta alguns, mas abre espaço para outros se comunicarem melhor comigo — diz Marcela, que não se abala com quem “foge” por isso: — Talvez seja bom porque se a pessoa se sente inibida perante uma conversa que é tão natural para mim, provavelmente teria dificuldade de manter um relacionamento comigo. Falo de sexo o tempo todo para sobreviver, é o meu trabalho.

Se por um lado a participação no “BBB 20” a libertou para viver do jeito que queria e ampliou o seu público, por outro fez Marcela ter que lidar com questões que antes nem passavam por sua cabeça. Como, por exemplo, o cancelamento. Nas redes sociais, há uma linha tênue capaz de fazer qualquer “fada sensata” ser alvo de críticas por um deslize.

— Eu não vivia nesse mundo da internet, então não sabia o que era cancelamento. Tive que entender esse processo. É difícil. Todo mundo tem uma opinião sobre tudo, pautada no mínimo do que sabe sobre você. Comigo foi o tempinho que me observaram dentro de um reality show. Lá não mostrei todo a experiência que tenho de vida, tudo o que passei. Foi doloroso sair e encarar isso — afirma Marcela, que continua: — Nós, seres humanos, não queremos nunca ver alguém pensar algo negativo sobre nós. Queremos mudar essa opinião. Numa escala mínima, às vezes você consegue até transformar o que alguém acha de você, mas, quando está numa escala macro, é quase impossível. Tem gente que não gosta de você de graça, independentemente do que você fizer. É bem angustiante lidar com isso pela primeira vez. Além disso, tem a questão de as pessoas quererem saber com quem você se relaciona, onde você está, o que faz ou deixa de fazer. Eu gosto muito de liberdade, então na hora que saí eu pensei: “Meu Deus, como assim tão querendo controlar tudo o que eu faço?”. Estou aprendendo aos poucos a levar.

Hoje, a ginecologista diz que evita entrar em polêmicas e segue em dia com a terapia:

— Agora penso muito antes de opinar sobre determinados assuntos ou entrar numa discussão. Quando é relacionado a meu trabalho, geralmente não me sinto podada porque estudo muito, então sei que tenho respaldo para falar sobre aquilo. Mas, quando é algo tipo “A fazenda”, ninguém vai me ver comentar nada, jamais. Se eu disser qualquer coisa vai ser só para levar porrada.

Assim como nas fotos deste ensaio, Marcela tem seu lado mulherão e também o meio moleca. Quem a acompanha nas redes sociais já está acostumado a ver a médica posar deslumbrante, mas também se depara com seus posts de “expectativa X realidade” da vida.

— Perdemos a mão na internet. Às vezes, só nos reconhecemos quando estamos montadas ou photoshopadas e perdemos a referência do real. Para mim, está sendo um processo terapêutico. Como eu já fui para o “BBB”, todo mundo me viu 24 horas por dia, tem GIFs meus de todos os tipos... Pensei que era um bom momento para trabalhar essa realidade comigo e com outras mulheres. Tenho a consciência de que não vou ser a produzidona da internet sempre. Na minha rotina, estou 99% do tempo de moletom e sem pentear o cabelo — revela Marcela, que ressalta a dificuldade de desconstruir as cobranças estéticas: — Continuamos inseridas num contexto que nos cobra isso. Estou longe de falar que sou alguém superlivre e não sigo padrões, mas tento diariamente me desapegar um pouco e ter mais senso crítico. Numa foto, pensamos em todos os ângulos, maquiagens e cabelos possíveis para ficar lindo. A imagem que veem na internet é irreal. Meu valor não está nisso, é só uma faceta do que sou como mulher.

Apesar de todos os projetos na comunicação, Marcela não pretende deixar os consultórios. Após sair do confinamento do “BBB 20” em meio à quarentena, a ginecologista diz que foi muito doloroso encarar a situação do país e não poder ajudar.

— Vi meus amigos trabalhando na linha de frente, mostrando tudo o que estava acontecendo. Foi horrível. Eu não tinha nem saúde mental para auxiliar, mas fiquei pensando: “poxa, me formei nisso e o que vou fazer para contribuir agora?”. Naquele momento, não havia condições de voltar aos consultórios, até porque ninguém estava atendendo pessoalmente. Então, tirei esse ano para mergulhar nesse outro universo que ganhei, que é a visibilidade on-line — diz Marcela, que pretende mais para frente colocar outro plano em prática: — Tenho muita vontade de ter um espaço meu, onde eu possa reunir outros profissionais que tenham a mesma linha de pensamento. Quero oferecer um atendimento de qualidade, sem preconceitos, que atenda a todos, com um olhar integral sobre a sua saúde. Eu sou da linha slow medicine, que é também entender o estilo de vida da pessoa, não só tratar doenças. A gente tem, hoje em dia, uma medicina muito focada em diagnóstico, doença, o que é importante, mas não pode ser só isso. Muitas coisas têm a ver com questões emocionais.

Falou a doutora!