Marcelo Adnet fala de espiritualidade, da vida em família e do trabalho em escolas de samba do Brasil e diz por que crê que o humor na TV definha

Marcelo Adnet vai do sagrado ao profano diariamente. Compositor de escolas de samba e criador de esquetes de que até Deus duvida para a TV, para o streaming e para a internet, o humorista lançou, esta semana, nos cinemas, o filme "Nas ondas da fé", com idealização dele e roteiro de Lusa Silvestre (e pitacos seus). Trata-se da história de um casal evangélico, Hickson (Adnet) e Jessika (Letícia Lima), empenhado em levantar uma grana. Um dos caminhos é ir atrás de bicos. Quando o filme se desenrola, o protagonista vira funcionário de uma rádio gospel. Só que, frisa o ator de 41 anos, não se trata de um filme sobre a igreja, e sim sobre brasileiros. E ele sustenta que a ideia veio do desejo de furar bolhas:

— É uma história especial para a gente porque a ideia é de 2014 e, já naquele ano, eu tinha vontade de contar. Era fascinado por esse universo gospel, que cada vez mais crescia no Brasil. Tenho essa inquietação de não ficar preso a um lugar só. É um fenômeno importante entender além do preconceito básico. Esse fenômeno religioso cresce, e a gente continua sem entender direito. O filme traz um roteiro que respeita a fé e questiona os homens.

Na entrevista, por telefone, Adnet aborda com tranquilidade temas como religião, crenças, espiritualidade, família, política, censura e autocensura. Diverte-se ao contar "causos" de suas andanças pelo Rio; conta que recentemente esteve em São Gonçalo, município do Rio, para compor o samba da Viradouro que chegou às disputas finais das quadras; e que escreveu para escolas de samba da primeira à quarta divisões de carnavais do Sul ao Sudeste. O carioca fala ainda sobre a parceria com a companheira, Patrícia Cardoso, dos passeios da gaúcha topa-tudo e do amor deles pela filha, Alice, de 2 anos.

"Nas ondas da fé" foi idealizado em 2014 e só chega aos cinemas agora, em 2023. É bastante tempo, né?

Em 2018, a gente pensou: "Será que a história está velha?". E depois chegamos à conclusão: "Não. A história está superatual. Está demais. É o momento". E naquela época, durante as filmagens, houve a morte da Marielle Franco (a vereadora do PSOL assassinada em 14 de março de 2018, no Rio). Foram tempos muito violentos e esquisitos política e socialmente. Naquele ano, a gente conseguiu finalizar o longa. Aí, depois, veio a pandemia. Curiosamente, a história permanece atual. Por mais que tenha essa coisa de época, oculta, e que tem tudo a ver com a nossa realidade distópica. Ainda tem a ver com o que a gente está vivendo hoje.

A religião evangélica segue sendo uma das maiores do país...

Segue e seguirá sendo. Tivemos um pastor ali no filme, o José Barbosa, para não cometer nenhum deslize com a religião.

De que forma essa troca de ideias com líderes religiosos é prolífica? Você ajudou a escrever o roteiro também?

Tive a ideia original, mas o roteiro é do Lusa Silvestre. Eu fiz um pouco. Tenho interesse pelo lado de lá do muro, da cidade partida, do país partido. A gente é quase forçado a viver em bolhas muito restritas. Eu acho fundamental entender o que se passa para fora da nossa bolha e não ficar tão dependente delas. É um olhar carinhoso porque todo mundo pode se colocar na pele do Hickson. E tem muitas coisas minhas nele. O que está no filme é da realidade de todo brasileiro. Nós todos estamos esperando o bonde passar para pegar. Estamos sempre atentos, lutando, trabalhando, acreditando. Quando esse bonde passar, temos que pular dentro dele e fazer acontecer qualquer coisa. Não temos o privilégio de ficar escolhendo oportunidades. Todos nós poderíamos estar na pele deste personagem ou da Jessika, que a Letícia Lima faz muito bem.

O filme tem outros temas centrais...

É uma comédia dramática, mas ela comanda um tema complexo, desse casal, desse cara que acaba recebendo uma proposta política no fim do filme. O filme não é sobre a religião. É sobre a jornada da maioria dos brasileiros. É uma história que pode fazer parte do Brasil todo.

O longa também trata de espiritualidade. Como está a sua? O que te faz ter certeza de que Deus existe?

A própria vida, o mistério da vida... Isso é eterno, né? A gente nunca vai entender exatamente o que está fazendo aqui, o que é o universo, o que é o tempo, como as coisas vêm, como eu posso ter uma fiha tão incrível? Nossa, não pode! Semelhanças tão grandes... Tem o pé igual ao meu, é tudo muito mágico. Então, se a gente considerar que Deus é o mistério da vida, de todas as coisas fantásticas para que a gente não consegue uma explicação lógica, eu acho bonito, faz sentido existir um deus. Num conceito simbólico memso. Eu não acredito num deus punitivo, num deus que anota coisas, que vê o que você faz, que te cobra, num Juízo Final, em céu e inferno... Em nada disso. Eu sou um estudioso, adoro conhecer as religiões. Mas o que eu tenho mais interesse é na fé. Ela, sem uma religião, é muito bonita, não importa. Eu não tenho uma religião porque não consigo seguir um ritual. Se eu tivesse uma religião, seria um religioso meia-boca porque não ia realmente frequentar todas as reuniões. Mas eu sou um estudioso. Até para o samba eu preciso saber de todos os orixás, o que eles representam. E eu preciso achar isso bonito. Senão como eu vou fazer poesia com algo de que não gosto? O samba fala de orixás, mas também da beleza do Catolicismo, do Cristianismo em si. A história de Jesus é linda. Tem exemplos fantásticos, maravilhosos... Mas o homem pode pegar tudo isso e transformar em algo totalmente questionável, sujeito a críticas. Fazemos essa separação: a fé é a fé, poderosa, bonita. A religião também tem que ser respeitada sempre. Mas, livres de críticas, os homens, os líderes, as autoridades, não. Como assim? O que é isso? Não há nada de divino, de autoridade divina nos homens. Então, eles não devem se meter em se comparar a Deus Isso é que é perigoso. Esses homens não devem ser canonizados. Essa separação, para mim, fica clara. Por isso, no fim do filme, a igreja se chama "Deus é você". Porque ela pretende cortar o intermediário que acaba se dando importância demais. E ele é apenas o evangelizador, que espalha a Palavra.

Você cresceu na Zona Sul do Rio, com certas doses de privilégios. Aí hoje circula por bairros da Baixada Fluminense, das Zonas Norte e Sul... Isso te dá mais ideias para colocar e tirar do papel?

O samba, sim. Porque é uma experiência muito intensa, muito verdadeira. Neste ano compus, no Rio de Janeiro, quatro sambas para escolas do grupo de acesso, mais um samba para a quarta divisão. Estou com samba em São Paulo, no Rio Grande do Sul também. É uma coisa que eu vivo de verdade. E o que você vive de verdade, obviamente, mesmo que não racionalmente, acaba introjetando, aprendendo. Para mim, o samba é uma academia. E não à toa eles são chamados de acadêmicos. Ali mora uma sabedoria muito especial, peculiar, de gênios brasileiros. Para citar um só, tem o Cartola, para falar de alguém mais conhecido.

E o que mais você aprende nas quadras?

É um lugar em que se constrói uma ilusão de que... Ilusão de propósito, claro, de que a nossa igualdade não existe. Naquele sonho de carnaval, o poder está com os passistas. Não está com a celebridade, com a pessoa conhecida. O gari tem um destaque brilhante, num palco gigante. É um fenômeno interessante de frequentar, estar de folga ali, no dia a dia. Eu adoro, gosto muito. Teve um dia que virei para a minha esposa, Patrícia. Era um sábado chuvoso e falei: "Vamos lá comer num restaurante nordestino, em Bonsucesso?". E ela: "Vambora". Foi um dos melhores almoços que tive na minha vida. Foi feliz. Comemos tão bem. É bom estar na cidade. Vou bastante ao Complexo do Alemão visitar o Renê Silva, do Voz das Comunidades. Acho ele brilhante, além de ser meu amigo, é brilhante em muitos sentidos.

Quando foi a última vez que visitou o Complexo do Alemão?

A última vez foi no Dia das Crianças. Na saída, uma mulher grávida estava passando muito mal. Alguém disse: "Meu Deus, chama um Uber". E eu falei: "Vamos comigo, no meu carro". Ela vomitou no chão da UPA. Ainda bem que não foi no meu carro (risos). Acompanhei até lá. Você pensa: "Que inusitado! Estou na UPA de Del Castilho, no Dia das Crianças". A gente acaba vivendo um pouco. Enfim... Tenho o maior carinho por esse lugar e por essas pessoas que às vezes são tão maltratadas e mal faladas. Existe tanta gente boa, talentosa, genial. Tanta coisa para aprender.

Mas você rejeita muitos convites também...

Sou pai, me dedico totalmente à minha filha, tenho uma ótima desculpa para ficar em casa.

Você fez um samba para a Viradouro. Quais são as outras escolas?

Adnet: Na Viradouro, a gente ficou em segundo. Fomos para a final. Foi quase. Inclusive, adoro a escola que ganhou. Conheço os compositores. Com os vencedores da Viradouro, compus para a Unidos da Tijuca. Tem muito disso. As escolas em que a gente levou (o primeiro lugar) foram São Clemente, que é minha do coração e tem um enredo maravilhoso sobre o achamento do Velho Mundo. São os nativos brasileiros descobrindo a Europa. Tem também Acadêmicos de Niterói, tem a Unidos da Ponte, de São João de Meriti, e a Vigário Geral. Também estou na Boi da Ilha do Governador, que é da quarta divisão. E sou carnavalesco enredista da Botafogo Samba Clube. Ou seja: faço a parte da escrita, da concepção. É ali ao lado de Engenhão. A gente vai contar a história do Engenho de Dentro. Em São Paulo, na primeira divisão, estou na Dragões da Real e sou padrinho do enredo da Estrela do Terceiro Milênio, que é sobre humor. Inclusive, tem uma escultura minha sendo feita (risos). E a gente fica assim: "Meu Deus...".

Você vai levar a escultura para colocar em casa, depois do carnaval?

Vou trazer aqui para casa, botar no jardim. Eu quero muito estar lá com este time de São Paulo. E no Rio Grande do Sul. Para a Realeza, a gente fez o samba que nos convidaram para fazer. Eu estive na Realeza. Estive na Encruzilhada do Samba, no Morro da Conceição, no dia que estava previsto o ciclone, no ano passado. "Vai ter um ciclone, vai ter um ciclone". Eu estava lá no Rio Grande do Sul conhecendo a família da minha esposa. E eles falaram: "Chega aí". E eu fui lá conhecer. Eles não têm quadra. É uma coisa linda. A cultura negra é forte. Com gente tão orgulhosa, bacana. Porque você pensa em Porto Alegre e imagina outra coisa. Pensa em migração europeia. Não pensa no carnaval. Mas tem muita coisa aí: Lupicínio Rodrigues... Estou muito ansioso por esse desfile de Porto Alegre também. Não importa o tamanho. O grupo especial e a quarta divisão têm respeito.

Você citou a sua mulher, Patrícia, que está no filme "Nas ondas da fé". Foi uma participação afetiva?

Com certeza. Ela formou em teatro, fez Tablado (curso da Zona Sul do Rio), alguns cursos preparatórios e fez o filme. Um papel, uma participação "superafetiva". Eu me cerquei de amigos, comediantes. Isso acaba mostrando o seguinte: nós, comediantes, também podemos fazer drama. Não é porque a gente é comediante. A gente é ator. No filme, alguns comediantes fazem papéis cômicos, outros, não. Então, acho que é uma vontade minha ter essa galera que há mais de 20 anos eu acompanho. Desde adolescente, tem toda uma coisa afetiva, sim.

Você disse meses atrás que o humor estava morrendo. Ainda acredita nisso? A que humor se refere?

É um momento difícil porque a gente passa por uma adaptação das mídias. O problema não é o humor, é onde o humor vai estar. As pessoas não vivem sem humor. Ele ficou diluído entre tudo. A publicidade tem humor, muitas vezes o próprio jornalismo, mais descontraído. Eu falo do formato, dos programas, esse espaço na própria TV aberta só caiu. Ainda tem um programa ou outro, mas é bem menor o movimento. É menos gente fazendo humor na televisão. E mais gente fazendo humor na internet. Mas aí ele é muito guiado por algoritmos e por fazer muito conteúdo, aí tem um público infantil muito maior. E humor fica infantilizado. O humor de Tik Tok, do Kwai, por exemplo. É uma coisa surreal e, por que não dizer, de baixa qualidade? É até esperado porque não há uma estrutura profissional. São pessoas com telefone. E cada internauta tem o seu humorista preferido em algum perfil, alguma arroba. E tudo isso acaba diluindo o humor. Por exemplo: Chico Anysio dava 80 pontos na televisão em algum momento. E isso não vai mais acontecer na televisão. Para nada. Nem se for exibida uma luta de boxe entre Lula e Bolsonaro para decidir quem ganha. Não vai ter 80 pontos (risos). Vai ter o streaming. Nada mais terá 80 pontos de audiência. Porque tem outras mídias. E isso é saudável. Mas a produção fica para trás porque ninguém entende qual é a produção do humor.

Como você percebe isso no dia a dia?

Normalmente se faz essa produção (de programas de humor) com a lógica da dramaturgia: os cenários, a iluminação, os câmeras, os profissionais... Aí o que acontece? O humor fica muito caro. Existe um abismo grande entre o cara que está em casa, fazendo uma personagem mulher com uma camiseta na cabeça, que acontece muito, e uma produção em estúdio com profissionais. E o cara vai bater quase um milhão (de visualizações) em algumas edições, em alguns dias, digamos assim. E então o humor fica perdido: como incluir (o humor) numa grande mídia? É um desafio, para mim, mais logístico para a mídia. É um desafio de formato (para a TV). Ninguém entende qual é a produção do humor.

Mas na pandemia você também fez humor, em casa, com vassoura... E, agora, fez humor no estúdio, no "Central da Copa" (TV Globo).

Pois é. Aqui em casa, na pandemia, com telefone eu acho que fez todo sentido. Era um momento que pedia que alguém fizesse isso. E foi uma jornada bacana e com estrutura zero. Por outro lado, fazer a Copa foi com bastante estrutura. Mas o que a gente estava fazendo ali estava colando na estrutura da Copa. Aquela não era "para mim". Era tudo emprestado. Quando não tinha ninguém ali, eu entrava no cenário e fazia os quadros que eu tinha que fazer. Então, não é que teve um invetimento grande. Não teve. Mas funcionou muito bem porque as pessoas gostam do humor, precisam de humor. E de um humor não-político numa época em que o Brasil está dividido politicamente, que a gente está precisando rir da mesma coisa juntos. Também tinha isso de importante. E eu, como comunicador, ator, preciso falar com todo mundo. Ou quase todo mundo. Com todo mundo, é impossível. Preciso falar com bastante gente, independentemente das crenças pessoais de cada um. O esporte proporciona isso. Copa do Mundo, mais ainda. Mas o humor mesmo, como era no "TV Pirata", no "Casseta & Planeta", como foi o "Zorra", o "Tá no ar", isso não rola mais. Espero que role, em breve, um programa de humor de trupe. De galera.

Existe saudosismo com sua trupe do "Comédia MTV", por exemplo. Atualmente, Tatá Werneck, Dani Calabresa, Paulinho Serra, muitos deles já está bem colocados profissionalmente.

Saudosismo, não. Foi maravilhoso enquanto rolou, mas é aquela coisa. Não tem como voltar àquele tempo. A MTV fechou as portas. O Grupo Abril não se interessava pela MTV, não dava a mínima. Ele dava mais atenção à revista "Veja". É verdade: o grande projeto do Grupo Abril era a revista "Veja". Eles não davam muita atenção ao restante. Quando eles começaram a encerrar as atividades, o Grupo Abril logo caiu. "Ah, volta para a MTV". Não tem nem como voltar. Enfim. Essa coisa de nostalgia, voltar no tempo... Os tempos são outros. As coisas mudaram. Foi muito bom. A gente fez muita coisa de trupe lá. Foi bacana. E hoje, como você falou, as pessoas estão bem colocadas. Mas falta um programa de humor de trupe. É a minha opinião. E acho que há este desafio. E sou eu que estou falando, não foi ninguém que me falou. É uma percepção minha, é claro. De que há este desafio de produção. Como botar isso numa grade numa maneira que não seja caro demais? E sem perder a qualidade. Esse é o desafio. E a gente estava e está vivendo uma época em que tudo é perigoso, de tensões fortes. E o humor fica perigoso também. Você acaba, em vez de gerar gargalhadas, gerando gargalhadas e ameaças de morte. Aí é um clima ruim para se fazer humor.