Marcelo Crivella, um falso profeta atrás das grades

Matheus Pichonelli
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RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 14: (L-R) President of Brazil Jair Bolsonaro and the Mayor of Rio de Janeiro Marcelo Crivella stand for the national anthem during the opening of the Escola Civico-Militar General Abreu on August 14, 2020 in Rio de Janeiro, Brazil. The civic-military school inaugurated by the city of Rio de Janeiro has a capacity for 500 students. Two other units will be added to the complex, which will be launched by the end of the year. Civic-military schools are non-militarized institutes with retired military agents as tutors, a model advocated by the government of Jair Bolsonaro. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)
O presidente Jair Bolsonaro durante evento com seu aliado Marcelo Crivella. Foto: Buda Mendes/Getty Images

É possível, provável até, que a prisão do prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), seja revertida assim que bata nas instâncias superiores.

Parece fazer sentido, agora, a presença de mais de um ministro plantonista no Supremo Tribunal Federal neste fim de ano. Os dias já prometiam ser animados, apesar do recesso. E, pelas colunas de bastidores, eram favas contadas que haveria trabalho extra a partir do Rio, capital do estado onde um governador foi abatido em voo e uma deputada pastora é suspeita de usar os filhos adotivos em práticas sexuais e planos para matar o próprio marido.

O que poucos poderiam apostar é que neste tabuleiro o próximo a cair era o bispo.

Crivella foi preso pela manhã desta terça-feira 22, a três dias do Natal.

Menos de um mês atrás, quando até as pedras do Arpoador sabiam que não seria reeleito após quase quatro anos de gestão desastrosa à frente da prefeitura do Rio, Crivella promoveu uma das campanhas mais desonestas da história política recente.

Falando, quase sempre, em nome de Deus, Crivella praguejou como pode contra a TV Globo e seu adversário na disputa, o prefeito eleito Eduardo Paes (DEM), a quem acusava de planejar liberar a “pedofilia” nas escolas.

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Em seu auxílio, botou em campo a primeira-dama para dizer que a linha direta com o divino fez o alcaide se adiantar e preparar a fortaleza do castelo, na área da saúde, antes mesmo da pandemia. Como o seu maior apoiador, Jair Bolsonaro, distorcia os fatos batendo no peito para dizer que lidou muito bem, obrigado, com o coronavírus, que logo após a eleição levou o sistema ao colapso em razão do aumento das internações e infecções.

Crivella também levou ao ar uma lista de celebridades e subcelebridades esquecidas dizendo que votar no atual prefeito era votar contra a ideologia de gênero, a corrupção e outros males seculares.

Sabendo da derrota, Crivella foi ao ar relativizar o tombo. Dizia ter cabeça erguida e consciência limpa. Como falso profeta, dizia saber que seu inimigo seria punido pelo Pai Eterno no futuro. “Você será preso”, vaticinou.

Pouco depois, a profecia se voltou contra o falso profeta.

Crivella é suspeito de comandar o chamado QG da Propina, como o Ministério Público do estado batizou o suposto balcão de negócios na prefeitura do Rio para a liberação de verbas a empresas mediante pagamento por fora.

Era o prefeito quem estava do outro lado da linha, em setembro, quando um delegado atendeu uma ligação para o celular do empresário Rafael Alves, pivô do escândalo e suposto operador de um esquema de desvios na RioTur, durante a primeira fase da Operação Hades.

Antes de se explicar ao Divino, terá de se explicar aos doutores e homens da lei, a quem acusa de perseguição por querer fazer a coisa certa.

Das profecias que prometia encarnar, a mais plausível delas é a que está em Mateus, capítulo 24, versículos 5 e 6. “Muitos virão em meu nome. E ouvireis de guerras e de rumores de guerras; olhai, não vos assusteis, porque é mister que isso tudo aconteça, mas ainda não é o fim”.