Marcelo D2 fala de saudade da mãe, futuro dos herdeiros e fé: 'Sou um homem de família'

Quando subir ao palco do Circo Voador na noite desta sexta-feira será inevitável para Marcelo D2 não se lembrar da sonora gargalhada de dona Paulete e da disposição que ela tinha para a vida. Das recordações de casa, no Andaraí, Zona Norte do Rio, dos papos, do repertório, do colo da mãe, que morreu em fevereiro de 2021. Num sopro, aos 76 anos, de um infarto fulminante. Ao olhar para a coxia, no entanto, o futuro lhe reserva outras tantas histórias a serem contadas através de Maria Isabel, a Bebel, a filha caçula, que chegou ao mundo pouco antes de a avó partir.

"A chegada da Bebel no momento da partida da minha mãe foi algo tão simbólico, tão marcante... (pausa) Me fez enxergar outros ângulos... Nossa, eu tô falando isso e vai me dando vontade de chorar. Eu entendi onde era meu lugar quando eu estava no enterro da minha mãe, e percebi que todos ali dependiam dela para se manterem unidos e senti que essa era a minha missão dali para frente", conta o cantor, que está lançando um novo álbum, desta vez de samba, numa grande homenagem à sua ancestralidade.

Aos 55 anos, D2 estreia o projeto "Marcelo D2 e um Punhado de Bamba” num lugar onde já cantou mais de cem vezes e que virou uma extensão do próprio lar. Bota também nas plataformas digitais o single "Povo. De. Fé", em que revisita e homenageia o dia a dia no subúrbio carioca, onde nasceu, mas pouco se lembra. Tudo isso exatos 20 anos depois de lançar "À procura da batida pefeita". "Eu descobri que a busca por essa batida é maior e mais importate do que encontrá-la. A graça está no processo", avalia.

O cantor, originário do rap com o Planet Hemp, se cercou de sambistas tarimbados, os chamados ambas, de um historiador, o parceiro Luiz Antonio Simas, de muita pesquisa e de um paredão de som daqueles que são uma febre no Pará. Tudo isso está misturado no novo trabalho. "Tem referências a Jovelina Pérola negra, por exemplo, essa mulher gigante que resistiu com o samba, até ao pagode que toca em todo lugar no Rio de Janeiro, com essa mistura de um batidão forte", explica.

Marcelo D2 também vai voltar a dividir o palco com o filho Stephan, agora Sain, com carreira sólida no rap nacional, repetindo a dobradinha de 2003, quando o então garoto começava a cantar "Eu me desenvolvo e evoluo com meu pai", em "Lodeando". "Vai ser demais ver meu filho ali abrindo meu show, num palco só dele, mas vou lá invadir, claro, e ele também o meu", se empolga. Stephan se diz admirado com o novo trabalho do pai: "Me sinto muito feliz de levar o trabalho dele como meu legado também. Não consigo ter a dimensão desses 20 anos de carreira já, porque passaram muito rápido, e de forma muito natural. A música, a arte sempre foram a minha vida"

É ao falar de filhos e netos (ele tem dois, Giovana, de 9 anos, e Kaiki, de pouo mais de 1 ano) que a entonação de D2 muda e, como qualquer pai/avô coruja, discorre sobre as gracinhas da caçula, dos questionamentos da neta mais velha, das peripécias do neto. "Ter sido pai após os 50 foi algo incrível, porque é a chance de recomeçar. Sempre fui presente para meus filhos, mas a maturidade me trouxe coisas que antes não tinha", descreve.

No novo disco, surge um D2 que também fez as pazes com a fé após a morte da mãe. "A Luiza (sua mulher, produtora, cantora e sócia) tem muita fé. Minha mulher mudou muito a minha vida, os meus conceitos, o meu olhar. Procurei o Ifá (um oráculo divinatório que tem origem na etnia iorubá), me reconectei. Isso foi determinante também para esse trabalho de resgate da ancestralidade, que já busco há um tempo", conta ele, que perdeu as contas de quanto já rebateu ofensas pelo posicionamento político ou pela postura em relação às drogas: "Esses caras acham que me ofendem me chamando de maconheiro. Tenho muito orgulho disso e ainda sou um homem de família".