Marcelo Dias inaugura obra de ONG três anos depois de ter sido preso injustamente

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Marcelo Dias estende uma pá como símbolo para o início da obra na ONG da qual é fundador | Foto: Guilherme Canton
Marcelo Dias estende uma pá como símbolo para o início da obra na ONG da qual é fundador | Foto: Guilherme Canton

Por Jeniffer Mendonça

Marcelo Dias, 42, não conseguia conter a felicidade. A sede da ONG Novos Herdeiros Humanísticos, da qual é fundador e presidente há 23 anos, passaria por uma reforma pelos próximos 45 dias depois de um intenso trabalho de movimentação nas redes sociais e no bairro do Cursino, na periferia da zona sul da capital paulista. “Há três anos eu estava organizando um bingo para arrecadar R$ 500 para a ONG, hoje eu estou conseguindo reestruturar o projeto: vai ter aula de dança, muay thai, apoio jurídico, psicológico, curso de inglês”, enumera.

A data, 9 de junho, para comemorar a arrecadação de R$ 120 mil não é por acaso. Em 2018, o educador social carregava cadeiras emprestadas de uma escola do bairro para levar para a sede, na Rua Mário Granzini, número 100. Na ocasião, dois homens haviam jogado uma sacola de dentro de um carro enquanto outros três estavam em um táxi próximo. Marcelo estava em seu veículo e sinalizou a policiais militares que passavam pelo local sobre o objeto deixado, mas acabou detido junto com os cinco por tráfico de drogas, já que a sacola tinha 5 kg de pasta base de cocaína. Marcelo foi acusado e ficou preso durante seis meses até ser libertado e depois inocentado, em abril de 2019, por falta de provas. “A data eu escolhi para ressignificar esse dia, mostrar para a quebrada que aqui também tem potência positiva”, afirma.

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Uma delas, inclusive, voltou à sede da ONG em dezembro de 2020: o volante Rafael Sabino, que atua no Lviv, time de futebol da Ucrânia, começou a jogar na escolinha de futebol de Marcelo. “Torço para que outros garotos possam trilhar o mesmo caminho que eu. Nunca será a regra, mas é possível que mais jovens tenham a oportunidade de chegar aos clubes através de parcerias com instituições como esta. O trabalho que se faz aqui é exemplar e prepara a criança para o que vem pela frente”, declarou na época.

Voluntários e crianças do bairro do Cursino comemoram início da reforma da ONG Novos Herdeiros | Foto: Guilherme Canton
Voluntários e crianças do bairro do Cursino comemoram início da reforma da ONG Novos Herdeiros | Foto: Guilherme Canton

O educador inscreveu, em 2019, a Novos Herdeiros em um programa para capacitar e acelerar projetos sociais da ONG Gerando Falcões e acabou selecionado em um processo seletivo. “Eu passei por uma formação e depois foram escolhidas cinco ONGs em todo o país para participar da parte de aceleração com aporte financeiro”, conta. De acordo com Marcelo, a entidade embolsaria R$ 60 mil se a Novos Herdeiros conseguisse arrecadar em 30 dias R$ 120 mil para custear a obra. As formações aconteceram em 2020 e a campanha ocorreu neste ano. “A gente conseguiu R$ 70 mil com uma galeria de arte e o restante foi com a nossa mobilização na comunidade, com as pessoas, com as empresas por causa da credibilidade do nosso trabalho”, prossegue.

Com a meta alcançada, o espaço, que tem uma sala, uma cozinha e dois banheiros será adaptado para conseguir manter as demais atividades e a aceleradora vai manter um contrato de cinco anos para auxiliar financeiramente a Novos Herdeiros. “A gente vai conseguir contratar pessoas para trabalhar aqui porque a maior parte do trabalho é voluntário e com o apoio da comunidade”, diz Marcelo. Durante a pandemia, os atendimentos foram readaptados. “A gente conseguiu doação de celular e notebook usados para algumas crianças fazerem as aulas, atendimento psicológico, mas a maior parte do trabalho foi fazer entrega de cesta básica para as famílias”, detalha.

O educador criou um projeto para acompanhar casos de pessoas presas sem provas, a SOS Forjados, e chegou a denunciar casos como o de Rogério Ferreira Silva Jr., assassinado por um PM em agosto de 2020, no Parque Bristol, próximo de sua casa. Agora tem tentado auxiliar as famílias dos presos principalmente com as cestas básicas na pandemia. “Mas eu ainda continuo me comunicando com os presos, por cartas, para saber como estão”, afirma.

Marcelo conta que também atende as comunidades vizinhas, como Monsenhor, Bronks e Boqueirão. Elas ainda não têm uma sede física da ONG, que é um dos sonhos do educador. “Nesses locais a gente atua da maneira que a gente começou: ocupando espaços públicos, praças, para fazer as atividades e estamos buscando parcerias e editais para conseguir expandir”, conta. “A pandemia revelou muita desgraça, uma desigualdade social muito triste, mas continuamos na luta.”

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