Marcelo Freixo errou em debater com Janaína Paschoal?

Marcelo Freixo e Janaína Paschoal em debate promovido pela página Quebrando o Tabu


Fiz essa pergunta no Facebook, pouco antes de começar o texto. Tinha acabado de assistir ao encontro do projeto Fura Bolha, série de bate-papos promovida pela página Quebrando o Tabu entre pessoas conhecidas na sociedade brasileira por pensarem diferente.

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Da minha “bolha” pouca gente se manifestou, e os que me escreveram pareciam estarrecidos pelo fato de Marcelo Freixo (PSOL-RJ) ter topado trocar ideias com a deputada estadual de São Paulo Janaína Paschoal (PSL), mais conhecida como autora do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

Um dos argumentos é que o parlamentar havia dado palanque para uma golpista. Outros marcavam território ao associar o diálogo a um sintoma da tal “esquerda cirandeira”, em alusão à ala “paz e amor” do campo progressista que prega deixar as desavenças para trás em nome do diálogo. Pois é. Quando o apelido pega, é difícil se desvencilhar - mesmo se tratando de um deputado que peitou criminosos na CPI das Milícias, no Rio.

Tenho dito, e não é de hoje, que é um erro básico de leitura afirmar que o país está polarizado. A polarização pressupõe a existência de dois polos bem definidos e um certo equilíbrio entre eles.

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No resultado e nas ações, não há radicalismos simétricos quando um “extremo” defende pautas identitárias, ações afirmativas, proteção a crianças, adolescentes, minorias, povos indígenas e meio ambiente, combate a desigualdades, distribuição de renda e o outro e outro faz apologia a tortura e sonha em passar um trator contra quem estiver à frente de suas ideias.

Entre uns e outros há um mundo, e eles parecem perder capacidade de aglutinação política, sobretudo nas eleições, justamente por se unirem em valores e se afastarem em estratégia. Na última eleição, por exemplo, havia muito mais em comum entre Marina Silva, Geraldo Alckmin e Ciro Gomes, por exemplo, do que divergências, mas o lançamento de candidaturas na mesma disputa pulverizou os votos e a capacidade de um deles chegar sequer ao segundo turno. Um dos pontos em comum é que nenhum deles chamaria Brilhante Ustra de herói depois de eleito.

Dito isso, é preciso algum esforço para entender o que têm em comum dois parlamentares eleitos por supostos partidos “radicais”.

Uma das maiores aberrações do governo Bolsonaro é a completa incapacidade de reconhecer, quanto mais ouvir, vozes dissonantes de seu abecedário de frases-feitas que mal para em pé diante da realidade.

É o que permite tomar medidas sobre segurança pública, demarcação de terras indígenas e vítimas da ditadura sem ouvir especialistas em segurança pública, povos indígenas ou vítimas da ditadura.

O PSL abrigou essa ala brutamontes da política, fazendo uma bancada na esteira da popularidade de Bolsonaro. Nesse campo Janaina Paschoal tem servido como uma espécie de contraponto e fonte de ambiguidades. Vem dela alguns poucos sinais de discordância com as posturas autoritárias e destrambelhadas do chefe, inclusive quando ele pensa em instalar o filho em uma embaixada.

Desafiada, ela topou debater com um candidato que esteve no campo oposto ao dela há pouco mais de três anos, durante o processo de impeachment.

Ao ouvi-la, fica difícil não associar seu tom de voz aos discursos alucinógenos que catapultaram sua carreira política. Quem não se lembra de quando ela chorou dizendo esperar que Dilma Rousseff reconhecesse que o pedido de impeachment visava o futuro dos netos da petista (um golpe baixíssimo, a meu ver)? Ou quando, enrolada na bandeira, rodopiou a cabeleira, para delírio dos editores de vídeo que viram ali um cosplay de heavy metal, e prometeu acabar com a República das Cobras?

No vídeo do Quebrando o Tabu, Paschoal (versão MPB) e Freixo pareciam dispostos a encontrar pontos em comum, ou ao menos um caminho de diálogo entre discordâncias – a essência da política, segundo o deputado fluminense. Acharam alguns. Ambos, por exemplo, eram contra a diminuição da maioridade penal.

E, com um pouco de conversa, chegaram a um acordo sobre os exageros do decreto de armas de Bolsonaro.

Ambos disseram serem favoráveis a mudanças no sistema de Previdência, mas aparentemente não falavam sobre o mesmo projeto: ela, a certa altura, atacou privilégios de certas carreiras do serviço público, e ele ponderou que a reforma aprovada pela Câmara não atacava esses pontos, e sim quem mede os rendimentos em salários mínimos.

À vontade na conversa, Janaina não parecia ciente de que passava vergonha em alguns momentos. Como quando, em tom choroso, disse ter sido duro demais, para ela, ter convivido com colegas majoritariamente de esquerda na universidade, e como doía ser contestada toda vez que se manifestava sobre aborto e alguém a contestava usando o fato de ela ser religiosa. Freixo perdeu a chance de colocar aquela dor em perspectiva. Ok, não é legal ter a religião, assim, usada como interdição de debate, mas ela já pensou na dor de quem não tem instrumentos para interromper a gravidez a não ser arriscar a própria vida? Ou de quem precisou levar o projeto de maternidade à frente sem qualquer apoio, inclusive paterno?

Do mais, o encontro foi uma rara oportunidade de confronto sem os slogans desgastados dos discursos de palanque, tribuna ou redes sociais. Por isso ainda tento entender por que o bate-papo chegou a ser interpretado como um “palanque” de um para o outro.

Um dos desafios políticos mais contemporâneos é como tolerar os intolerantes. Janaina pode ter sua visão particular de mundo, e seu antipetismo talvez tenha atingido um nível patológico, mas não é exatamente uma liderança que exalte torturadores ou eliminação física de adversários. O mesmo não se pode dizer de muitos de seus colegas.

Entender como ela pensa é entender como o que ela pensa se tornou um ativo eleitoral – um dado político, não um valor moral em si.

A reação à busca do diálogo sinaliza que o ressentimento é ainda a maior força política no país, e que o alegado cansaço com o fogo alto do debate político atual é ainda um desejo, não uma realidade.

Na prática, todo discurso em direção ao centro está fadado a ser devorado morno quando esquentar a chapa eleitoral. Bolsonaro sabe disso e ainda não desceu do palanque.

Um dos muitos lados não quer saber de conversa com todos os que estiveram do outro lado há três anos, na briga sobre o impeachment, enquanto outro dos muitos lados só radicaliza em busca da hegemonia total e já não se contenta com a saída de uma presidenta reeleita ou com a prisão de Lula, mas se regozija com a possibilidade de que ele vá para uma cela comum e seja exterminado na primeira rebelião. Querem sangue a todo custo, mesmo que para isso precise colocar um cabo e um soldado para emparedar o STF.

De novo: não acho que sejam forças iguais. Mas, entre uns e outros, cabem muitos outros lados, e estes parecem desbotados em uma época em que o ódio, e não a distensão, é ainda o maior agente mobilizador das urnas. Neste cenário, que ganha leva tudo, mesmo que seja pouco. Quem negocia que se livre da pecha de cirandeiro.